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‘’MANUAL DO ATOR PENSANTE.’’

‘’Antes da influência funcional do diretor, - é a um amigo de letras que deve recorrer o ator principiante. Não existem candidatos a ator. O companheiro escritor, - insinua ao intérprete o que deve ser lido e visto. Basicamente ler e rever com olhos de leitor. Ao ator é entregue um papel antes pela sociedade, - o núcleo que o envolve na pequena comunidade onde veio ao mundo molda padrões dificilmente abandonados no ofício posterior.
Condições sócio-econômicas, estrutura familiar e sexualidade-afetividade são o substrato que induziram propensões e impedimentos. Se é personagem nos tablóides e revistas semanais antes de entrar em cena, - impossível abstrair limitação cultural e arrivismo do óbvio idiota fazendo pinta de gostoso. A persona do intérprete antecede escolha e adequações dos papéis. Tudo principia no poeta-confidente que cruza no momento da iniciação. Atitude, estilo, termos pós-modernos podem reverter em utilidade elevada para aquele que vai se submeter aos grandes mistificadores: encenadores que teimam em roubar dos protagonistas a função de encantar. A era dos diretores-divas cede ao ator orgânico, auto-consciente, e amante do texto imortal. O ator é um leitor por excelência,- e caminha ao lado do tímido erudito deixado em seu ofício na província onde o encanto se processou primeiro. Atores são viajantes, escritores alternam entre imaginação, pesquisa e contatos virtuais,- mais e mais escrever é se iluminar em casa com voltas de ar fresco no quarteirão. Nos palcos e refletores, o que interpreta carrega consigo o estímulo recheado de insights advindos da memória e da influência ,- escrever fundamentalmente é ceder substância aos agenciadores públicos de nossas palavras. O ator só se desenvolve sendo escritor concretizando esses textos originários de seu convívio e os interesses que surgiram como desdobramento dessa união meiga com o poeta.
Primeiro características compatíveis, logo intuição do teatro, e ele se vê sem calças para encetar a Busca. Os cursos e oficinas são engrenagens gregárias de vaidades e sedução, - nada que pudesse apreender antes lendo e observando intensamente teria valia além da normatização morna dessa prática solitária precedente. A escola de teatro ou workshop , são pontes rápidas ao ambiente descolado ou lúdico treinamento para o chope da esquina. O ator e o escritor são irmãos divergentes em perspectiva de um mesmo ponto de vista existencial. As ferramentas e características pessoais determinam muito, o intercâmbio se desfaz tristemente por imposição das veleidades do meio mambembe. Interpretar é resultado da observação aguda do mundo, pela necessidade de objetivar o encontro primeiro e dar substância enlevada às sutilezas da linguagem, qualquer que seja produzida por criador encerrado sem ribalta, - o poeta que cede o iluminado ao rosto amado as entidades que visitam em seu gabinete. O escritor vivencia antecipadamente o que o ator goza no arroubo do que o primeiro continha. Imposição básica , jovem shakesperiano: um anônimo poeta ao telefone, amigo epistolar, cada e-mail, um insight,  - sacada traduzindo em bom brasileiro.’’
‘’ A psicologia está no olhar, no cotidiano Eterno das coisas e gentes, e nos livros que tece no palco urdindo através da sua lembrança o personagem intimizado com alma de profeta. Não a ternura, o afeto. Não a simpatia, o Amor. Antes do diálogo, a reflexão interior do diálogo. E tornar ao Olhar. Olhar sim! simpático, imaginário onívoro. Vê, tu que és belo pode notar sem pejo, olha nas lentes de fingida vaidade: olha o beber, gesticular, ensimesmado, tempestivo, floreia um drama ao pobre prosaico. Nele Eurípedes sobrevive,- urbano comporta o espanto do grego. Lê e sai sorrateiro às ruas, - não te fazes notar além do
limite de teu encanto. O Ator extrapola seus insucessos: revê tudo em perdas, e assoma no delírio de todos os homens.  Espreitar.‘’

‘’ O bloco de notas é uma das condições essenciais para fazer qualquer coisa de válido... os poetas novos evidentemente, não possuem um bloco, não tem nem a experiência, nem o hábito. Neles , os versos perfeitos são raros; é por isso que todo o poema é longo, como se fosse água.’’
Wladimir Wladimovitch Maiakowsky.

‘’Todo poeta/ ator tem sua fase azul: Memento: parte da missa que se reza pelos fiéis e pelos defuntos.
Lembrete. Pequeno manual que constitui a essência de uma questão. Memento. Ainda ,com gosto incontido, lê bem mais que escreve ou tece, esboça. Cai-lhe nas mãos Baudelaire, aproxima-se do poeta , de quem o revela e de ambas as épocas: do bardo e do amigo em afeto. ‘’
‘’ Deus é o único que para reinar não precisa existir’’.
‘’Toma como epígrafe importância da palavra, - do virtual que passa, insisti e recolhe de si.
Sabe ser o caminho longo para tanta pressa de expressão, pressa adjetiva, descoberta indevida na cronologia dos percalços."

[‘’Estar sempre entre os primeiros e Saber, eis o que importa, mesmo sem alcançarmos o porquê da encenação.  ‘’ Eugenio Montale.]

O poeta e o ator são disparates dessa passividade, nunca cansam de observar para entreter de significados a mudez da platéia. Enfrentamos a página retidos no palco, o Ator caminha digitando, ele estica os sentidos retidos, corrobora veracidade do absurdo ou do subjetivo. Todo poeta chora enternecido por um Ator no palco ;- vibra de mãos dadas o altissonante. Alegrem-se e não deflorem antes meu pensamento, o protagonista aguarda a deixa pondo desejo na maestria. A flauta / a cítara / o alaúde; a virginal e a espineta. Instrumentos de apreciação da espartana burguesia. Felizes gentilezas divinas: o gesto no banho, a disposição de talheres à mesa, o sentar balofo ou seco do transeunte, a invalidez do acaso, decrepitude gêmea, ocasião das festas e fastio das mortes. O ator é sempre antagonista silencioso do óbvio solene, não sacia na prece. O conflito, o vazio, entrosamento simbiótico, passo de retorno : percepção do real ao formulado, entrecho.
[‘’Quase tudo o que sucede é inexprimível e decorre num espaço que a palavra jamais alcança.’’ Rilke.]
Toma de empréstimo e acaba aderindo à mascara / recorre ao verso , põe anima de Belo e Monstro, quem mais aproxima da interface. Aproxima pois leva com todos juntos a possibilidade tornada momentaneamente beijo, tiro, gosto, sexo. A tristeza, essa parece recolhida sem pedido às coxias, bastidores: esse sinônimo de fazer. Tecelão, acolhe para se desvencilhar sozinho a tristeza somada do escritor, do comovido, do choroso, do boquiaberto. Os apontamentos gestaram a síntese, as reservas poéticas compuseram a trama: enredo eivado dos significantes alumiados de encanto.
Contrastar idéias. Recapitular é fazer tanto quanto: esboços, fragmentos, mal-suceder e então justapor. As palavras se percebem desordenadas em ordem intrínseca. O amigo, o amante, o preceptor, a função do conjunto, as tarde passadas em transe calculado. O ator rala prá caramba! Tudo parece dizer. Monty Clift ou Dirk Bogarde,- percebe ali a meditação lírica, o esforço e o jubilo, a promessa , a fixação num pedido: menos o Destinatário, - além do Remetente. Nunca tive habilidades técnicas além da precisão de perspectiva: ao enviar um livro, sempre punha confuso, - onde o meu e o dele? o código correspondente.
Olha, lembra, desperta agudamente, lê para dilatar entrevisto, - a técnica de palco, a metodologia não pode Ser muito mais que esse conteúdo. Volta: observa a Rainha Cristina, Garbo estática e nada é mais eloqüente!!
O xadrez com a morte, a porta falsa de Visconti, Brando confessando ser um fraco! Entre as pupilas e os lábios: mesmo que a ausência de lábios exceda a Graça no sorriso das pálpebras ( Keneth Branagh ), o rosto humano é santo no descanso trágico. Holderlin dramatizando o percurso na neve / o cajado é tinta no enlevo desenhando as posteriores lembranças. Encena-se Rimbaud e Verlaine, Lorca e Pessoa? busca na mais recôndita paginação da estreita estante: Real Português Gabinete de Leitura, - lê Holderlin e leva Lautreamont distraído entre o Oceano e a paisagem. O fácil assim se mostra posto que dado à Luz do Dia feito sem o pó do estrume da cavalgada. Para os dois poetas dormirem másculos numa matinê de Sábado, muito tiro foi dado em bundas destemidas. Toma a peça isolado no quarto, esse é o teste de sobrevivência do artista: o anonimato. Arte que copia abertamente transfigurando, amalgamando, no amor ou ruptura, participa, retêm e antecipa a realidade / o intento forja alexandrino ou soneto, - queda no assoalho, a deixa elevada à transcendência, aparta a dúvida, rearticula o personagem, o texto corre atrás de ti. Sê como os que deram origem a Sócrates, esculpe e dá luz à memória grávida / ávida.

[ ‘’ O  que é que eu estava dizendo? Ah, sei; estava falando do teatro. Agora já está tudo bem diferente... Agora eu já sou uma atriz de verdade; eu trabalho com alegria, com êxtase, em cena eu fico como que embriagada, e tenho a impressão de que fico linda. E agora, nesses dias aqui, eu tenho a impressão que cada dia  estou ficando um pouco mais forte... agora eu sei, Costia, agora eu compreendo que o essencial em nossa profissão – tanto faz que seja no palco ou na literatura o essencial não é a glória, nem a fama, nem nada daquilo com que eu sonhava, e sim saber agüentar com paciência... saber carregar a cruz e Ter fé. Eu tenho fé, e já não sofro tanto; e quando penso em minha vocação, não tenho medo da vida.’’   Nina à Costantin - ‘’ A Gaivota’’- Tchékhov. ]

I -‘’então?! Acho a que ponto?!
Dar o cu seria nosso único ato de resistência,
poderia imaginar?

( risos contidos )

-         ou de persistência?
-          
-         fundo azul para uma conversa de finalidade esvaziada;

então, então?
quanto advérbio e indagação.
( ele se colocara nu em minhas pernas e disse - sem ao menos eu pedir, que me amava...)
-         um michê?
-         Nisso, recuei um pouco como quem espera o transe, - retomar uma trepada é foda!
-         ininterruptamente, e pensei, que dizer?
-         confirmo todo afeto?
-         devolvo em silêncio
-         revelo o que desdenho?
-         Como só no sexo sabemos ser gostosamente hipócritas... típicas situação de não saber dizer.’’

II- ‘’o essencial é total refeito aos trancos da consciência ou intuição: nessa nesga de tarde e quarto, olha algo que não seja essencial: livros, copos, fotos, arpejos, sussurros, pedidos; aliás, sempre retomo ‘aliás’, Deus errou na continuidade: era tão quente em outubro antes, lembra? Daí pensar em evolução na Arte é um pulo!
-         gosto dessa experiência sem vertigens contigo: a feitura e o relato,
-         a espera, - a digressão, - o pensamento parece diminuir toda essa ausência.”
-         --‘’São aquilo que dissera antes: os pontos iluminados, - luzes que não se embrenham
-         na curta vida da memória, retinem à vista do olhar presente, primário, o galho
-         que se espraia na tua estante, a lembrança do sexo. Isso me ajuda a salvar alguma -       coisa de uma noite que temos hábito bobo de chamar inesquecíveis’-
-         esquecer o sexo com um homem que amei, - isso atordomenta! Esquecer o sexo
-         seria não mais buscar seu equivalente. Mas te garanto: sofro nesse resgate,
-         tento ao máximo segurar.’’
-        ‘’comigo é quase igual. Mas a última foda leva de roldão todas antes, - tem uma      força essa proximidade... desmesurada semelhança, a tal?! equivalênciaaaa....!’’

-         - ‘’ ... é que essa última foda foi ontem ... ( risos ) e assim dói!!’’

[ minha sala parecia mesmo pronta prá aquela conversa; éramos íntimos em tudo].

[Nosso diálogo se interrompera por alguns dias de frio intenso; - quarenta graus rebaixados ao dígito zero , - toda possibilidade de clima e necessidade de correspondente emoção a atmosfera,- ambiente afinal é emoção concretizada.]
[ Nada que me intimidasse ou desnudasse mais que aos 35 anos passar uma noite com uma mulher?! Gênero, objeto, - era-me de todo desconhecido: com os rapazes nunca assim: eram tanto de mim disponíveis em incertezas, vibração mesmo antes conhecê-los: ( com ênfase )  biblicamente].
‘biblicamente!’’ ( pensara alto)
- [ centro da sala, - lendo Goethe ]
-         ‘’Essa a desvantagem tragicômica dos heterossexuais tardios! Por quê não antes?
-        Tanta convicção ideológica é peniana, toda certeza é peniana; -talvez explique
-         Arte, neurose e melancolia gays afogadas na paz exangue do fellatio.
-         O Pênis nas mãos inseguras arrefecem tantas dores gays e femininas...
-         Devoção homoerótica ao pênis complexo: divas, pinceladas, cinzéis, tudo redourados
-         no gosto mítico, totêmico. Como fiel devoto a um só santo, ator: dissolve tensão
-         na poltrona reflexiva: dá relevo expressivo ao par de pernas, arfar, respiração,
-         despertar do cochilo, coçar do saco, balançar dos pés desjuntados da tela.
-         Ator, - o teu gosto dissolve-se no palco, imaculadamente disfarçado de feliz!
-         Radioso , revolve as sombras do Mundo, - pairando outro só no camarim ou quarto
-         de hotel. Não saia para ser visto do teatro, te anules garbosamente sem mais governo
-         ou transe no cigarro ou na carícia amante , se possível.
-         Uma praga não Ter um amante se é criativo !’’

( a luz baixa , penumbra)

[ toalha,- estendida, o hábito de limpar sem pó o quarto, desperto, - banho e varanda enxuta, - o Mar de trás dos prédios provisórios, - reflexos de temporada, - balneários.
Provisório: espelhos oceânicos, fico no gesto rápido dos que tornam viver rotina no continente, - rogo a solidão e um reencontro. Só um como devem se re-encontros. A adolescência deve voltar sem gêmeos, só uma vez na maturidade. Acordar era olhar a cama e ver onde nela ficou o sonho.]
(- o personagem ou sua imagem ainda pairava volatizado.)
[ toda manhã com gosto de café requentado e pêra-maçã.]

‘’ Voltemos ao canto do diálogo: povoemos a trama de personagens desdobráveis.’’

‘’ AS CLASSIFICAÇÕES DOS LIVROS DIDÁTICOS SÃO DE UMA SIMPLICIDADE CONFORTADORA. AQUI PROSA, LÁ POESIA. NO ENTANTO, É NOTADAMENTE PRONUNCIADA A DIFERENÇA ENTRE A PROSA DE UM POETA E A DE UM ESCRITOR DE PROSA, OU SEJA, ENTRE OS POEMAS DE UM ESCRITOR DE PROSA E OS DE UM POETA.’’

‘’ ... SALIÊNCIAS ESPLÊNDIDAS DAS MONTANHAS DA POESIA NA PROSA DA PLANÍCIE.’’

-        JAKOBSON.

DO ATOR-POETA: TEXTO LIDO NA BAÍA
DE SANTOS OU NAS ANGRAS DO NORTE;
A POESIA PREMIANDO O ESFORÇO DE ATENÇÃO E CONTENÇÃO;
DIÁLOGO TRADIÇÃO E COLOQUIALIDADE;
ONDE TUDO SE DISPÕEM DE MODO JUSTO. COLOQUIALIDADE URBANA.

‘’ prazer do passado no presente, como se revisse o carrasco do meu sonho : Eichmann onírico.
Enunciar como exprimir, expondo. Saído de um transe se achando uma bromélia,- olhar o pensamento pela natureza do sem pensamento.
Inverno elíptico, sei! Preciso escrever para reconhecer o frio que dói ...tenho encontrado
o caminho dos moinhos em Cervantes, na incompletude dos sonhos, anti-matéria. Os primeiros dez minutos de algo importante, o que marca um período, ciclo. Nota os primeiros dez minutos. São marcantes como o sempre das fábulas,- com todas ações ainda no infinitivo.
Na inflexão da curvatura em chamas, dobra dos desvios. Em dez minutos tens essa precisão desassistida. Modulação. Poesia semântica incontida. A porcelana azul de teus olhos merecia um poema solícito como beijo. Modulação no que dizes.’’
‘’ o achado poético é próprio desse aprofundar legítimo do quadro situado, sutil observação ou inserção precisa. Do rumor à análise, do furor à técnica permanente. Quando se apropria em plenitude do afazer, tem-se o molde e as derivações infinitas, as modalidades difundidas.
Mais que o banco de praça, a parada de ônibus ou trem, em Pinter ou Beckett, nota a fluência contida do observador. Nota! Poesia enumerativa, cumulada : dizer muito ou tudo, antecipar ao vento. Lembra caravanas magrebinas: os bérberes, leste argelino,- caçoar de camelos, percebe como alguns dias no Cairo e tomaste ares imprecisos de morador vadio ou colono?
[ frente fria em aproximação]
--- Poesia metereológica.
---Se preciso remeto pedido da sinopse e dormes aqui, juntinho ao retrato da Velha senhora.
--- Lembra de ler ‘’O Ateneu’’, - romance diminuído pela incúria, mas fantástico para que percebamos autenticidade do personagem.
Um tipo de romance preenche vazios do protagonista de dada peça ou encenação.
Arte com palavra é literatura sempre!’’
-         20 de janeiro de 2.003.

‘’ o ser humano nasce para a fidelidade’’, citação de Foucalt.
[ a fidelidade só pode ser companheira da amizade e espírito, - sexo não conhece dono e idolatria,- é andador como perene afeto da saudade]
( ‘philologo’) – penso ser todo que escreve ou encena.
Crônica de colégio, mística da evocação, força ginasial da vontade de querer muito;
impedimentos da Vida se precipitando como anúncio, anti-universidade! O colégio  como iniciação : instituição que se nega e quer.  Já notava voz recitativa interior: escrevia pensando em tua voz... trama, ‘guion’, desenlace , fragmentos vertiginosos.
A escritura é dilaceramento espiritualizado, como esse nosso ensaio dos três primeiros Atos; algo inumano, como fluir de corpo numa piscina prateada de madrugada.
As piscinas e cordas pendentes de forca remetem essa solidão essencial: criativa.
Líquido e pender de árvores, anti-arquétipos quando ladeados de significação.
Escrever e representar, Léo , são duas formas equiparadas de pensar na morte e anunciar algo além do infinito. Além do infinito: Arte anti-numérica. Amuradas, encômios, bosquejos, - natural acidentado, aguadas. Cenografia idealizada: Céu e Paraíso.’’
 ‘’tenho termos para elaborarmos algo melhor , Léo. Bidimensionalidade, suporte compositivo, - um véu adamascado, e Ter em mente a ‘cena ‘! encontro entre ator e personagem, ou entre ação e memória. Imagine a viagem entre Bahaus e rococó...
Tempo é personagem no compasso da tua sensação e sentimento. Sensação e sentimento
Intercalados. ‘’

Santos, 23 de janeiro de 2.003.

‘’ impõe-se redefinir antigos pressupostos pré- cibernéticos,
-         desregra do pensamento pedindo formatação apropriada ao
-         ritmo-fragmento. Anseio do Ser, política-estética, avaliação
-      pura de mosaico : interconexão. Emoção pensada, dubiedade
-         cristalina. Dúvida exitosa, - intuição conflitante, eis! arremate
-         sem rompimento. Os diques da alma se sustenham! Quase tudo é
-         óbvio se bem disposto em ação ou palavra.’’

‘’ se queres vamos expondo aprendizagem por atos . Já remetemos em colóquio a dialogação.’’

‘’ Para você que tanto amei e hoje tens no filho continuidade fisionômica, Carlos, tenho a lição do conselho pétreo: paciência que ele se torne ator , indiferente ao primeiro chamado televisivo.
Ator da Vila Mada, do Baixo ou de Jacupiranga mambebeando.
Se sentindo calafrios ao palco e em récitas privadas, inegável confiança deposita na Arte: ela livrará de todas mais mazelas afrontosas dos pardais e gaviões de carniça urbana. Ao jovem é que digo leia! vá à fonte, deite no revaldo estofado do teu quarto de cortiça e leia! Amando ou só metendo aos poucos, leia! moço.
Esse é caminho mais progressista e humanitário que reconheço nesse XXI da porra: ler e seguir criando a partir do antigo . Seguir é se fazer novo sem perder as peias encantadas, únicas consentidas.
O poeta Mário Quintana quando indagado sobre o que deveria ler para compreender Shakespeare, bradou incontinenti: Shakespeare!’’
Santos, 29 de janeiro de 2.003.

‘’ Torna-te capaz de tua Arte, Fred, age sobre tua perícia!
Como diz Agatão, ‘a arte ama o acaso, e o acaso ama a arte.
Restitui ‘teorético’ na lida de agitos e esgares cênicos.’’

‘’ Às vezes , só depois de extensa caminhada, ressurge, enfim,
a obra desejada. O efêmero reluz, seu brilho é passageiro. O
autêntico perdura, eterno e verdadeiro.’’ Goethe.

‘simpliciter’
‘’Recorrer à uma folha solta, feito papelão, papelote, como sair à vontade , saindo ... como fugir, estar, perder... ceder à banalidade.
Perder as indiferenças do sentido. Como fazer? As perguntas se dispersam, sem núcleo, perdidas em possibilidades. Tudo, todo, variações de um corredor estreito, como todo o sentimento.
Ainda assim, melhor fazer.’’
‘’’-Gostou desse texto de baú, Fred? É dos achados que fuças que há de vir o agrado da vontade.’’
‘’Fred, a mediocridade da interpretação é a ponta só de carretel desalinhado de vacuidade e imperfeição consentida. Quando tocas no samovar ou tolhe apetite, revelas ‘oposição de gosto’ ou ‘antipatia estética’[ Thomas Mann] ,- o toque expõe realidades aproximadas. Simetrias, o dedo certo em seu sexo, disponibilidade inapelável. Teu patrimônio telúrico, a puberdade em especial é definidora para artista mais que infância para o homem. Lembra de Nijinsky e seu casamento com Deus. ‘’(...) escrever diários é comum, atualmente , entre os artistas que se esforçam por deixar de lado o intelecto e sondar o inconsciente.’’- ‘a caneta de Deus.’
‘’ (...) para Nijinsky a simpatia literalmente produzia a identidade, sobre Deus e Cristo.’’ Contorno emocional. ‘’ Aprendi que personagens fortes acabam se impondo.’’- a lógica do personagem.
‘’ Os personagens, que começam amarrados a estereótipos , vão através das memórias se redesenhando completamente.’’- do estereótipo ao personagem.
-         ‘’Sou um tipo de autor que se torna amigo dos personagens.’’
-         Graham Swift.
-         Espaços espectrais, - a faina ficcional : o ator ficcionista.
-         Te fecha na casinha de praia, Maresias, acerbo e misantropo
-         e tece, tece, tece. Sê sensível e inteligente, arguto no trampo da
-         temporada, - revê conceitos , retoma o bom do adolescente,- a tal montagem imagética. ‘’
-         Santos, 31 de janeiro de 2.003.

‘’ MOSES, - devemos aplicar idéias psicanalíticas à cultura, estreitar ao largo a filosofia e alargando todo pensamento .’’

[ ‘’ o oposto da brincadeira não é a seriedade, mas a realidade. Ao invés de brincar, fantasiam. Essas duas atividades se espelham uma na outra: ambas são instigadas por um desejo. ‘’
‘’Pode-se dizer que a pessoa feliz nunca fantasia , apenas a insatisfeita o faz ... (uma fantasia) é uma correção da realidade insatisfatória ... realidade remodelada, belamente distorcida.’’]

‘’ O sonho deve ser como a ilusão generosa, dá a fantasia repartida:
-         sê generoso interpretando feliz. Sobressalto intelectual, quando
-         descansa o ficcionista é no riso que é entendimento. O riso ou choro são entendimentos, termômetros da assistência. Generoso
-         e inquisitivo, liberando caráter compulsivo. Desdobra conjeturas,
-         testa atrevido arroubo, possibilita a cena / encenação.’’

-         MOSES, ‘’Não o prelúdio a uma ação violenta, mas os resquícios de um movimento encerrado.’’

‘’ Tarefa de interpretação, interpenetração. Componente gay ou de ‘’ sodomização’’ literária: atuar escrevendo por dentro . Penetração  psíquica, psicológica tão somente então. ‘’

[ ‘’ o artista como um neurótico em busca de gratificações sucedâneas para seus fracassos no mundo real .’’]

‘’ A manifestação expressiva nele contido, em ti contêm tanto que pode ser expresso! Nota o copo e o leite, a pena e a tinta...’’

[ à experiência estética: a psicologia dos protagonistas, a psicologia do público e a psicologia do autor. ]

[ ‘’ acredito que um acontecimento real estimulou o poeta em seu retrato no sentido de que o inconsciente nele entendeu o inconsciente no herói.’’ – Freud s./ Édipo / Hamlet.]

‘’ digressão e inferências’’ / ‘’ exacerbe e contenha-se na medida do que era antes excesso: o perigo está no reducionismo;  a catarse funciona não para gerar a imitação, mas para torná-la supérflua’’.

‘’ Léo, é o contraste fixado entre o clima tenso-reprimido e a beleza externa exuberante, drama no Paraíso, no meio mercadores de especiarias. Poema longo, conto ou romance, também na dramaturgia litúrgica nota a inflexão/ o desdizer , a satisfação visceral da conclusão. Concluir no ponto, a questão da fala, a interjeição, teu posicionamento ante o protagonista,- a finalização leva de roldão acerto e disparate no intercurso. Torce as resistências na síntese maior. Tens óculos especiais? Os sociais são bons em ocasiões no palco bem específicas: óculos sociais, - de observar-se por um pouco pelo público além da ribalta. Experimento mesmo!
O homem ama que viu rápido e espera outro contato, mais que novo, Outro. Fixação e imobilismo, sem desfecho ou frustração. Sem o chapéu, homem num ambiente restrito e sua visão persecutória / Pulsão e vago temor. Lembra frases como ator, Léo ou escolhe lembrar como personagem pronto? Tu quem sabe. Não um homem, um teste. Léo , mantenha escrivaninha pronta, na eventualidade dos textos dispersos.’’

‘’ Fui impulsivo ,
Mas louvada seja a impulsividade,
Pois a imprudência às vezes nos ajuda
Onde fracassam as nossas tramas muito planejadas. Isso nos deveria ensinar que há uma divindade
Dando a forma final aos nossos mais toscos projetos...’’ – Hamlet,- dedilhado em nanocomputador, introjetado, não mais repetido, intuído nas falas sutis, representado na-tu-ral-men-te! nos inflam de paixão e em nanopoemas exalamos as deixas da tal ‘’divindade’’, em coma artístico. Numinoso,- Léo,- como em Isaías.

[‘’ Isaías experimentou essa sensação do numinoso que periodicamente baixava sobre homens e mulheres. No clássico ‘’A idéia do sagrado’’, Rudolph Otto descreveu essa terrível experiência de realidade transcendente como ‘mysterium terrible et fascinas’’, é terrível porque se dá como um profundo choque que nos isola das consolações da normalidade, ‘ fascinans’ porque, paradoxalmente exerce uma atração irresistível.’’ – Karen Armstrong; ‘’Uma História de Deus.’’]

‘’- observâncias cultuais.’’

‘’ A escolha do papel, o compromisso, Léo, já por si é definição psicológica e preferência semântica, a palavra justa ao olhar milimétrico.’’

[ Hamlet : - ‘’Senhor, o definimento dele não sofreu perdição na sua bola, embora eu saiba que dividi-lo inventarialmente tontearia a aritmética da memória, e seria apenas desviarmos da rota um barco tão veloz. Mas concordo na veracidade do seu panegírico, é uma alma muito bem dotada, com uma essência de tão peregrina raridade, que, para dizer a verdade final, só encontra semelhante no seu próprio espelho; e só pode segui-lo a sua sombra- ninguém mais.’’
-         sobre Laertes.]
 ‘’ Definamos pois que seja intérprete como ente íntimo amalgamado ao termo dito.’’
[ Hamlet : ‘’E o correlacionamento, senhor?
Por que embrulhar o cavalheiro nesse mau hálito verbal?’’
Horácio à parte, a Hamlet : ‘’ Sua bolsa de metáforas esvaziou. Já gastou todas as palavras de ouro. ‘’]
‘’ O palco, gato,- é esteio e estuário de tanto antevisto e construído; monstro marinho em reverberação : desejo por expressar! Adejando em sinal de lança ao Sol agitando-se entre greias e górgonas,- Perseu ante platéia atônita com tua execução da trama ou abstração consentida.
Não paira inerte, - traz prá frente / os pés conjugados, pisando a revoada; não seja sintoma de nada ser fechado : noz cálida / tivera dois fatos que me assegurassem fortaleza e tomaria papel de árvore e casulo, transportando as tendas / casa em ruína / traçando muros / me consolando em jazz! Moro cá dentro de novo, - pronto! percebe a fronte ,- retine cuidadoso espanto.
Tenho volumes em três atos, manuscritos pantagruélicos, - embora nota a mínima soma de aspectos conversos num drama.’’

‘’ A inovação técnica do século XVI foi combinar elementos dos dois estilos musicais, o polifônico e o harmônico. Essa fusão produziu um certo número de novas formas, tanto para a voz solo quanto para a voz acompanhada de instrumentos.
A principal delas foi o madrigal, uma forma poética mais flexível do que a cantata pelos trovadores --- ou menestréis—na Idade Média: a balada, a sextilha e outras. À semelhança das canções populares que continuaram a ser escritas e cantadas, os poemas líricos que forneciam as letras de peças vocais do século XVI tratavam de temas eternos: amor, infortúnio, morte, primavera e bebida. A música de um madrigal podia variar de estrofe para estrofe e, como vimos, uma série de tais poemas podia ser apresentada quase como uma peça teatral; não havia estribilho nem versos repetidos palavra por palavra para deter o desenvolvimento da idéia.
O madrigal originou-se na Itália e foi aí cultivado por muitas e talentosas mãos; inspirou também na Inglaterra uma escola de brilhantes compositores que floresceu desde meados  século XVI até ao primeiro quartel do século seguinte. Embora ignorados por muito tempo, no século XX vieram a ser colocados entre os mestres da composição musical.’’
-         do madrigal.

‘’ Outras formas do século XVI, como a ‘pastorale’, ‘a masquerade’ e o balé ( a forma de entretenimento com recitativo, dança e música que é a ancestral do que hoje conhecemos com esse nome ), concretizavam a mesma intenção.
Quer o tema fosse os amores de pastores e pastoras na ‘pastorale’, ou os deuses e deusas pagãos no balé ou na ‘masque’, as emoções a serem sublinhadas pela música eram mundanas, não as conhecidas emoções de fundo religioso.
Um conjunto de regras deve, portanto, ser criado para garantir uma comparável disciplina formal.’’
-         da disciplina do profano na ausência do sagrado.

[ ‘’ Da alvorada à decadência.’’
Jacques Barzun; Editora Campus. ]

‘’ Vamos unir contrários, sob o arquétipo do Homem Original ; quando me falaste em ‘carpintaria teatral’, Felipe , substitui o termo por magia ou algo mais humano: ouriversaria teatral,
-sutil construção, passo à passo do tablado...
Que seja inacabado? Por que temes ? o lapso no mais das vezes é curto e certeiro. Prefiro um enormeeeeeee Amor com pontinhos de luz raiando à um coice de determinação estéril.
Até melhor, Felipe! Seja determinado sobre ser Ator mais variado no ofício; tudo que te digo parece tanto com um tropo:  a mandala que viceja sem ser sentida: roçamos o Céu farfalhando a Terra com brilho azul no rosto. Todo artista precisa desse brilho azul ou ‘seu’ brilho azul mirando a superfície das horas, - com ele se chega ao âmago, a plenitude psicológica na dobra de uma constelação: a angústia de Coleridge no espelho amplo de Hesíodo. De carpinteiro à desenhista, proponho-te o escorço, o bordejo na garatuja: vamos alinhavando a ‘persona’, o personagem : nele tu te encontra.’’

‘’ Écloga urbana / nossa conversa Felipe segue no café onde o Mar faz a volta.’’

‘’ Vê, Marte com Vênus? Esse para nós Uranos, é útero, força fértil do desafio! A montanha chegando ao Atlântico ou a colina numa estepe!
Essa mulher é o pericarpo, o mesmo mundo que tu vês na outra ponta do percurso: vês como criatura o cenário cósmico animado. Marte com Vênus é o símbolo maior diante o qual somos eu e Tu, Felipe, os satélites que mais estranham por que estranhamos demais o que tocamos e o Todo visto. Sensibilizássemos! nossa rota é mesma num molde de cristal da forja de Vulcão. Os cavalinhos de vidro ou material translúcido :
Agora toma! Vê também a Grande Dama como Tennesse Wiliams em ‘’A margem da Vida’’;
Nos amamos , mas Géia tem apelo irresistível sobre nós: eu escritor e vc. no palco perfazemos a soma : a Terra nos acolhe sem mais peias.’’
‘’ Seremos onze nessa Companhia: Anu e Varuna da Babilônia ao Vale do Indo,- vem do centro espargindo cosmogonia.’’

Santos, 01 de maio de 2.003.

‘’ o corvo negro: dicotomia ator e escritor; junção,
convergência.’’

‘’ Eu Alexis, escrevo e leio com nítida impressão
do precisamente Belo se reconhecendo no texto criado. Vc. em cena, lança apelos diretos ao ponto derradeiro para qual Arte se destina. Esse alguém na platéia é menos porém que o que desvela meia página na alcova branca de aprendiz de sábio. Tão raro um belo rosto enrugar com pensamentos aprofundados : mas das criaturas , a mais próxima do Divino, é que compõem fugaz soma. O ator por banal seja o texto é modelo vivo para escritor.’’

‘’ SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR.’’ – PIRANDELLLO.
Santos, 07 de maio de 2.003.

‘’ aplicabilidade, - do método.
‘making-off’ – da carpintaria’’

‘’ William Blake aplicado à dramaturgia;
Corpo e Alma, Arte e biografia, unidade pós-moderna do real e simulacro.’’

-         fractal – estrutura geométrica complexa cujas propriedades, em geral , repetem-se em qualquer escala.  Diritambo - primitivamente
-         canto de louvor ao deus grego Dioniso.
-         ( o Baco dos romanos ).
-         composição poética sem estrofes regulares quanto ao número, de versos e pés. Diritambos.’’

Santos, 09 de maio de 2.003.

‘’ A palavra, Tom , a palavra mesmo que excede seu elemento, - transcende, - se redefine.
-         Comecemos a leitura: seu processo e gestação,
-         ( em cabines pouco maior que um quarto ),
-         ambientação imaginária, o texto ao leitor atento e ali! (aponta) a dupla contracena quase silenciosamente. Vamos! ( mão em riste )
-         leiam em conjunto uníssono.’’

[ ambientação : composição de clima adequado(...) cena literária ].
-         desenformado – retirado da forma (Ô) desmoldado. Adjetivo : ‘desenformado’.
Palavras desenformadas. Midiático / mediático.
Ametria – ausência ou anomalia de medida; desordem. ( trompetes / trumpetes );- nexo entre
o aleatório; - a palavra é um passo bem / mal dado: corre estrada.
‘’ achei o método! rever pontualmente o calhamaço, reter erros na seleção; estrutura básica conceitual; ‘metodológica’. Poesia aplicada ao palco! Insights ambulantes, deambulantes! Poesia cotidiana; dobrar a lírica melancolia. ‘O MÉTODO’; fixar um ponto: desdobram-se artifícios, o nexo causal se impõe---
----- subjetivo é tudo! ‘’
---- do método: em transe / trânsito; verdade se estabelece, consolida, na contundência do poético ( ‘o fazer ofício’ ),- ‘práxis’ literária.
‘separa o poema da prosa: extorquindo o romance, - torná-lo refém do conceito : desestrutura as formas e fluem interagindo --
‘poetizar a prosa dramatúrgica’; da ‘peça em prosa’,- poesia intrínseca.

‘’Nota , Tom, teu canto de estudo e reflete a variedade, o que concerne à permanência, a solidificação no punho de um brado: poetizar!
Abstrair do vasto ou preciso conteúdo. Tom, ao cabo de tudo ,na ponta se fixa a Poesia contida.’’

Santos, 10 de maio de 2.003.

‘’ Parece tanto Arte quanto confissão . Cedemos a deixa, - ator canhoto esmera no efeito preciso em lado oposto. ‘’

[ ‘’Deus é o eterno confidente nessa tragédia de que cada um é o herói.’’ Baudelaire.]

‘’ confissão, Tom , ou técnica de lembrança: sentir mais de novo. Trilharemos outra vez o caminho de retorno: representamos o preenchimento desse hiato repetido: nascimento e morte. Tom, lê muito os que amaram! Montaigne amou um amigo, Wilde um amante,
Pessoa o desejo de ambos juntos. Trilogia de leitura: retórica dos ensaios, exaltação do apego, dramatização do desamparo.’’

[ ‘’ Só te verei um dia e já na eternidade? Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente. Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais, Tu que eu teria amado ---- e o sabia demais.’’ Baudelaire.]

‘’ poetizar , como dizia, abstrair : leite de pedra; o romance menos linear possível , seja até o grau do entendimento.’’
                                [ A BIBLIOTECA ].
‘’ Tom, - a literatura não tem ordem cronológica, é indivisível por suportes ou narrativas, - sente isso como essa rebentação infreme? Fluxo ordenado, isso é nota de cartório ou obituário;- literatura sem Tempo numerado / o Tempo da literatura é de espera e arranque. Batente, chuva na calha. A literatura por mais ordinária inspira o que sobrevêem de melhor à ela: ato, soneto, enredo, entrecho... trama tosca / estereotipada: transporta isso ao exagero ou reduz em Essência; (des) – tensiona - refaz. ‘Limar’, diria Borges sobre ajuste ao imaginário, o esboço.’’

Santos, 10 de maio de 2.003.

-dizer para o encantamento : espiralada frase correspondia / ‘tropo’
       cidadania podia ser concedida por decreto dos
       atenienses; cidadão por nascimento ou por adoção, impunha-se o registro do mesmo nas
       circunscrições que constituíam a cidade-estado: demos, trítias e tribos.
       Classe censitárias
       (experiência histórica); Grécia insular.
       Poeta – experimento; metecos ( os que habitam com) eram os estrangeiros domiciliados em Atenas.
       coloquializar, do autor autodidata; o escritor pleno, absoluto: diálogo ator-escritor.
       @ ‘há espécies de pensadores e artistas; o autodidata é a mais terrivelmente dura posição independente de sustentar.’
       @ arte-final / arte e finalidade. Reparos, polimento, a lima de Borges.
       ‘’ as duas partes de Henrique IV são plenas de imagens que refletem a preocupação de Shakespeare com a construção’’
       [ ‘a estrutura e imensa fundação da terra].
       ‘’ como alguém que desenha o modelo de uma casa.’’ -[Não fazer poesia como produto acabado, mas trocá-la por estruturas pré-existentes / expondo a fio seus afazeres / laçando sua dor----------- traçando
       definida. O poema / método: tecer os fios dos
       desdobramentos / relêr os esboços sem importância cronológica estreita / flexibilizar os traços / distender as imagens do poema.]
       Santos, 13 de maio de 2.003.

       29 de maio/ 2.003.
       ‘’Manual do Ator Pensante.’’
       - dialogação: princípio pressuposto do texto.
       ‘peça em prosa’, definição aproximada do Diálogo.
      ‘commedia dell”arte, uma forma teatral do gênero ‘comédia pastelão’, com personagens
       tradicionais (Arlequim, Colombina, Pierrô, Pantaleão) e falas improvisadas pelos intérpretes no palco.
       ‘’A épica e o burlesco,- estudemos a apresentação das Formas. Burlesco como apropriação prosaica da comédia cósmica:
       aurora boreal, no translúcido desse copo azul
       de vinho. Burlesco : Tom te apresento o teatro de bolso, nas paredes escrevinho, realço a luz de retinir do plástico. Brilho saído das cópias
       mal-feitas de Campanella: toldaram a vista de
       fulgor sintético, mandando longe a luz dos rios.
       Mataram os rios quando eles mesmo entram nas tuas cidades.   A trama foi morta como o Rio. Esquecemos que somos atuantes títeres de
       infindável trama? Mutante cenário de poeira
       que se molda e toca ao contato? Salvemos o Rio, Tom, é o princípio para caminho longo.’’
       ‘’Tom , ainda será possível catarse?’’
        O que comove ainda? Onde lançam dardos os condutores da Alma? Toda cena é deformação
       perene de mau esboço.’’
       Santos, 31 de maio de 2.003.       

[ o manual a partir de Barthes, Jakobson, Stalinavsky.]

Pauline Kael: ‘’ Esta é nova imagem do cinema americano, mostrando o jovem como um animal belo e conturbado, tão cheio de amor e indefeso.
Talvez o pai não o ame, mas a câmera, em compensação, o adora! A câmera oferece ao público um produto tão irresistível, exigindo desse mesmo público exclamações tipo --- Olhe que desespero bonito.!’’ Pauline Kael.
Sobre James Dean, o rosto de ator, o impulso.
Adorno, - o ator pós-moderno.
-         ‘’ A interpretação ainda é necessária , Tom?
-         Até que ponto...? Tom, quem serão os atores?
-         O que será ser? Tom...’’

Santos, 03 de maio de 2.003.       
‘’a locução, o vocativo, o enunciado construído ao ser dito / re-‘dizido’; o poema na narrativa ou tragédia se empresta de boca-em-boca   : numa se redime dos excessos e deficiências: Tom!
Molda a frase, mas lembra que antes de ti ela já não foi tua! Não pertencimento é a regra! Toma emprestado como doença de que se cura com purgante! Toma retendo sem lamúria, nem ‘desdizeres’.’’
[ a sopeira dispõem-se sem gênero , irreflexiva, “‘existente ‘ na ‘ocorrência’]. ‘formalista’ ou ‘conteudista’ , aprecio que leia Jakobson e o mestre Constantin; perdoa-se mais autor sem erudição que ator nada lido ou perscrutador! Tom, guarda a aura, não te expõem muito além das milhas do palco! Os meios de apresentação variegados fazem-te perder Alma!
O vôo, o baile, a foto em mau recinto, a revelação definitiva de amor  : deixa- te ator quando assim te apresenta. Liuba ou um Montéquio de pileque causa menos dano que a perda do fausto no prazer mundano. Um ator deve ser só por convicção ou por verdadeiro sofrimento. Casar?
Isso é para os principiantes religiosos? A representação bem feita e observada só tem paralelo à física quântica em valência e incerteza!
Nada mais verdadeiro que teu fingimento, portanto finge necessário ou sem mais acompanhamento...’’

[ linha de ação contínua].               

‘’O excesso de exposição soa justificação; não demonstra, mostra. Confessar, assumir é para bandidos: na verdade, ‘denota’ atuando , sendo no momento. Lembra, o ator pela voz do escritor é que mais se aproxima de qualquer possibilidade ou aproximação. Tudo se coloca para adequação do personagem.’’
‘’ Há tautologia nesse impasse contemporâneo: atuar, interpretar, Jimmy, é fundir espanto com resistência,- essa melancolia toda se converte em possibilidade, gesto, imprecação, traço, reflexo, -         e todo acúmulo crítico pós-moderno gesta: é um saco a súplica saudosa, acomodar-se no niilismo : desde já Arte! A literatura , veja:
-         se parece tanto fluxo ejaculatório...’’

‘’ O QUE TORNA A VOLÚPIA TÃO TERRÍVEL É TALVEZ O FATO DE QUE ELA NOS ENSINE QUE TEMOS UM CORPO.’’ YOURCENAR.

‘’ Cessa aqui nosso primeiro encontro: antes de seguires ao mundo serra acima, tentemos estabelecer relação de prosseguimento:
pensar o escritor pelo ator, segues enquanto me alivio refletindo
Arte. Arte e Mãe sugerem mesmo núcleo. Ventre seguidor .’’

‘’’Sente,aprecia, percebe e retêm em ti o sentido poético : se explícito ou não à ti só cabe bem dizê-lo. Que cheio te encontre, contenha mundos, aprofunda, quando regurgita só expõe a fímbria, a frágil tessitura correspondente.’’

Santos, 11 de julho de 2.003.

‘’Edword Hill,- roupa esporte e peruca nobre em desajeito: remonta ‘haikais’ em prosa, - quer ser transposto ao teatro, curto-seco-cool cheio como chat , -‘short-cut’, -prosa-fragmentada.
Uma tristeza na cena do banho , pós-banho, ver a paisagem estreita , azul de sabonete gasto, - quando mais jovens mais passam pêlos, pelos pentelhos , desfiando água, verão que imunda o corpo. Um atento espectador se põe no palco: soberano sobre o intérprete ensaboado, - repete-lhe a fala, segue a deixa, dão-se as dálias , - vida não cessava naquele enxugar com a cena de porta aberta. Na primeira fila, o mesmo do que é composto as preliminares de sexos. Pensava num ato sobre Wickelman; flagrantes ocasionais , desterro na Austrália – também convidado como autor iniciante deslumbrei com simulação da cena. Caracteres sobrepostos: atuação requer percepção e prioridade instantânea: onde atuo primeiro? A lenda precisa ser encenada com ênfase ! alguém porta a lenda sem restituir : doa-se, fode-se sem volta: ninguém pira de vez no palco! Tom, ele dita notas taquigráficas de Deus, -hermeneuta insone , sem escrutínio ou resguardo : rala prá cacete, samba-dança , conecta o que éramos, o que percebemos um no outro, a prece não atendida. Toda noite recolhe essa esteira e o biombo. Uma gana, um martírio concentrando tudo que mentimos nele: e chamam-no farsante!’’

Santos, 15 de julho de 2.003.

‘’’O ator é um crítico voluntarioso do texto, - Mr. Eliott, - interpassa, repõe entendimento ao lentificado da palavra escrita, ideada, impressa no instante intuído. Por que ainda carrega guarda-chuva? Alinha tudo no aparador e senta ao chá.’’
[‘Um crítico vale , não pela excelência dos seus argumentos, mas pela qualidade de sua escolha.’]

‘’Quando na estréia ou já nos bastidores passo de enfermo ao imponderável são... homem desprotegido / humanidade desprotegida / êxito impositivo. Não ! interpretando a metáfora performática , o que é Vida de dentro se mostra. Guerra ao apressados cartesianos: terapeutas do sucesso, esse terríveis vilipendiadores do pensamento; a superfície. Miudezas, sem reducionismo. Sopa, chá e biscoito,- ritual de gueixa de paletó e gravata surrados com pano xadrez de xale. A xícara e o gole, ninguém que sofrer pensando...’’

‘’ sinto calores na solidão, me envolvem e pedem dizer, expressar, estar diante, tornam insuportável o calor as vontades de te contar.’’

Santos, 15 de julho de 2.003.

‘’ Esperava tua chegada ontem, mas sei da preparação, e mormente , a rota sinuosa entre escarpas traiçoeiras até a praia resvalada. Tom, cede à almofada, deita de frente e te conto
Reconhece em tudo pré-olhar e retira o travo. Refaz o sonho no período fértil, aproveita e anota... escreve e corrige. O olhar do saber pelo desejo. O ‘Senhor Azul’ é o manuscrito aqui estudado, você ator falta erigi-lo. Tudo carece finalização na peça, no ato, nos contornos da concomitância: o vento do Dia molda o meu drama ao gosto do método, - liberdade direcionada. Pensei tanto no texto, em nossa Vida juntos, e notei que formamos a concretização, Tom, de uma metáfora ou símbolo: o ator espelha em segunda instância, espelhando! o gesto primordial : brinca, enfara, corrige-se, arremeda, vocaliza... percebe o tanto de humanidade diante do Universo tens representado mil-maneiras!?
Lançar-se liberto pelo rochedo, em gesto ou em signo como eu contigo: o intertexto, a poetização das querelas e fúrias. Ator e escriba gestando algum paralelo possível. Sabe, entre o teatro e a poesia uma contenda entre gêmeos: representar antes ou depois de viver, Tom, é tudo assim andrófilo, não se produz com desígnio de produção definitiva. A casa, essa praia em ferradura, a colina de onde espreitei o ocaso, - como estando na platéia ou palco , um amor masculino incompreensível à quem não denote inversão até algo muito próprio, diferenciado, de acústica e plasticidade em par de anjos. Entendo os elisabetanos. Interpretar é tão erótico quanto te amar em segredo.’’

[ ‘’ Certo os personagens. Mas, aqui, meu caro senhor, quem representa não são os personagens. Quem representa aqui são os atores. Os personagens ficam ali, no texto (indica a caixa do ponto)... quando existe um texto.’’
‘’Diretor- Exatamente. Já que não existe e coube aos senhores a sorte de tê-los aqui, vivos, diante de si, os personagens...’’
‘’Ah! garanto-lhes que dariam um belíssimo espetáculo.’’]

Pirandello, (é preciso distribuir os papéis).

‘’ Encontrar papéis transmutados,- revigorados, entretecidos, o palco se renovando através da resistência à tornar-se obsoleto.
O que tornaria o essencial desnecessário, Tom? Inutilizado o que há de substante.
Substante?
Sim substante, sinal carrado de satisfação renovada pelo mundo.
Não se fala mais mundo, é preciso mundo! mundo! mundo!’’

[ ‘’Com certeza não pensam que sabem representar, não é?’’
Diretor]

‘’ O contrário, Tom, é certeza duvidada. Comecemos pelo contraditório das falas, dos sintomas, das desejações Poder na atuação, ver-se transtornado.’’

[ ‘’ Arranja-se com a caracterização.’’]

‘com a maquilagem’- Diretor.

‘’Triangulação primeira entre eu, tu e Pirandello.
Oou Pessoa que seremos mil. Queneu e Perec, milhares!
Não pranteia estar aqui eu, tu e a Literatura! Somos tantos
Que podemos merecer. Aí é o ator percebendo.’’

Falo-te de Brando pela solidão exigente, representava a partir de sua precariedade arrogante: amante, soldado, angustiado, sempre destacava-se do conjunto cênico: a solidão impõem-se quando se atinge grau de especificidade teatral.
 
 
Flávio Viegas Amoreira
 
flavioamoreira@uol.com.br