Meiotom - Crônicas


 

 

flávio amoreira viegas

‘’Baía de Santos: patrimônio da União ‘’

 

Vista da serra a baía de Santos ampliada entre o acidentado caminho do Guarujá ao linear praiano ao sul dispõem-se cenário ambíguo: emaranhado entrecortado de manguezais, precário afrontamento ao Oceano  e destemido acolhimento aos anônimos e heróicos navegantes. O vivente é sempre navegante entre o céu inacessível e o mar de abissal mistério. Pela sua História e Cultura , a baía de Santos deveria faz muito ser patrimônio imaterial da União: além do frevo, do acarajé, do Santo Daime entronizados e de outros sítios eco-culturais reconhecidos que outro acidente telúrico e atmosfera de emocionalidades foi mais presente na memória coletiva de nossa gente que a entrada ao Novo Mundo por essa barra e estuário? Sem prejuízo de seu progresso, essa costa merece distinção simbólica da nacionalidade. Daqui partiram expedições desdenhando o corte de Tordesilhas, abrigamos primitivo ideal civilizatório, missões litorâneas fundaram o Rio e São Paulo até recebimento de milhões de imigrantes que ainda moldam o Quinto Império tropicalista. Há uma mística de navios iluminados, um bafejo cosmopolita:

Não é à toa nossa vocação libertária, mesmo com recaídas conservadoras. Esse é porto de letras, cais de artistas: Manet, Rimsky-Korsakov, Puccini, Niijinsky passaram por aqui;- Mellville , autor de ‘’Moby Dick’’ singrou essas vagas: e poucos livros são tão fundamentais : o Mar é capaz de desnudar o Homem em sua grandeza e miséria . Se Sarah Bernhardt atuou no ‘’Guarany’’, fomos cantados em prosa por Guy de Maupassant e Jorge Luiz Borges em 2 contos paradigmáticos: ‘’Horla’’ e  ‘’Aleph’’. O conto é gênero supremo: esses citados são arquetípicos na sua maestria. Neruda poetizou Santos em 2 poemas que quase ‘fotografam’ liricamente nosso noroeste, suor da estiva e bafejo de maresia. Carregamos o estigma das cidades-estado: portos libertinos, atracadouros exóticos,

cruzamento de múltiplas percepções; algo que misture Gênova, Trieste, Hamburgo, Barcelona, a foz do Mississipi, a sensualidade de Tânger ou Xangai. Depois de meu fascínio pelo cônsul britânico Richard Burton, acabei descobrindo um personagem que o sucedeu quase meio século depois em Santos: Roger Casament, irlandês que servia à Rainha Vitória, correspondente de James Joyce e que inspirou Conrad em  ‘’Coração nas Trevas’’. Nesse inverno seco mirando onde os cargueiros se desvencilham-se da praticagem: elevo-me dissipando toda névoa mental do zênite lunar à alvorada que se precipita langorosamente. Essa faixa em arco entre a Ilha das Palmas e Itaipu desfazem o véu de Maya: estendo a visão do âmago ao litoral ampliado e desdobro-a ao horizonte que se infinitiza. Em Paris, Lévi-Strauss, mais influente intelectual vivo do século XX chega aos 100 anos: no clássico da antropologia ‘’Tristes Trópicos’’ , num capítulo dedicado à essa entrada marítima ele diz sobre nós, sobre Santos:  ‘’... o lugar continua ser de uma secreta beleza... o interior de Santos, planície inundada parece a Terra emergindo no princípio da criação’’. Essa baía, espelho de tanta poesia e novelo kármico bem permite que diga o que Cícero Dias disse do seu Recife: ‘’Eu vi o Mundo... ele começa em Santos.’’ Lembremos ao Brasil: essa barra é  um pouco de cada num instante que não foi pouco. Nas madrugadas o sentimento atlântico nos pega em cheio...

 

Flávio Viegas Amoreira

flavioamoreira@uol.com.br