| Meiotom - Crônicas |
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flávio amoreira viegas |
‘’Borges: arquiteto de labirintos’’
‘’Cada um de nós se define para
sempre, num único
instante de sua vida- instante esse em que
cada
qual se encontra para sempre consigo mesmo.’’
Jorge Luis Borges (1899-1986)
O escritor cinzela magma difuso,
mentalidade impensada disposta da Babel quântica: aponta, glosa, decodifica
Substância amoldando-a em labirintos refletidos por espelhos. Escrever é
depurar grãos de significação luzindo correlatos em estado de virtualidade:
escandir dando ao Infinito atributos e modos. Borges foi Escritor Absoluto:
avatar argentino representa hiper-arquétipo do demiurgo, escriba dum Evangelho
laico reunindo semiose alquímica, xadrez cabalístico, paixão estoriada da
Questão: vivemos ou sonhamos viver? Vida é original ou reflexo de universos
paralelos, supercordas, dimensões formando estantes de morfemas dum
Cosmo-Livro? Seu conto ’Aleph’ é catálise pelo saber Uno , diamante
metafísico, estreitar concreto fluxo num ponto impreciso apartir da disparidade
de correlatos. ’Aleph’, primeira letra do alfabeto hebraico: ‘’um dos
pontos do espaço que contém todos os pontos,
lugar onde estão, sem se confudirem, todos os lugares, vistos de todos
os ângulos’’. Fractal
enfeixando todas sensações, atos, rostos, ruas, gestos, emanações
maxi-mini-conectadas. ’Aleph’ da Rua Garay ,-Buenos Aires: ‘’pequena
esfera furta-cor, de brilho quase intolerável’’ contenendo ‘’inconcebível
universo’’: o ’Aleph’ ocultado num porão platino proporciona mirada de
todos atos cotidianos, epopéias, geografias, designs de raciocínios, vísceras
de sentimentos, delírios, vertigens, todas páginas de todos mitos,
cordilheiras, abismos, o ’Aleph’ não ‘é’: são! o tudo-acontecido,
primo-átomo conjugado até expansão-sucção dum buraco-negro reatando
infinitude de ciclos cosmogênicos. Espelho/mapa, coisas/números nos quais o
todo não é maior qualquer das partes: simultaneidade,
experiências-existências transinfinitas. Todas eras, auroras, suspiros: ’Aleph’,
quintessencial representação: pluri-signo, chip-gramatical; ’Aleph’, poli-
encarnação do possível ou inimaginado: transluz ancestralidades, passamentos,
devir. ’Aleph’ reduz num artefato o incriado e onisciência não testemunhal
dum acidente subsistente ou inconcebido. No ’Aleph’, um beijo e chuva
estelar equivalem: todo-tudo-ao-mesmo-tempo-vislumbrado. Texto
sobre-todos-textos: cristal refratando Universo convexo. O desfecho
que nos reserva é surpreendente: o ’Aleph’ real não era aquele
inter-ficção: a chave de todas as coisas reveladas-desvelando estaria na
borgiana cidade de Brás Cubas: ‘’acredito
que exista (ou que tenha existido) outro ‘ Aleph’. Por volta de 1867, o
capitão Burton exerceu o cargo britânico no Brasil; em julho de 1942,
Henriquez Urenã descobriu numa biblioteca de Santos um manuscrito que versava
sobre o espelho(...) em seu cristal refletia-se o universo inteiro.’’ 1984:
o jovem escritor vê sair Homero da Folha na Barão de Limeira; poderia ter
abordado Borges? o velho com bengala de bambu parece soprar o ‘aleph’ ao
golem: Verdade é encantar a
virtude; a Literatura preexiste ao Verbo, busca tocá-la num contínuum ‘satori’.
Antes do Verbo eram Verbos: retenho cego brilho flanando da Calle Maipú ao
centro de São Paulo. O ‘Aleph’? uma nesga de onda indo-vindo no porto,
repousando rochas num filete de praia: vórtice de águas triangulares. Ler
Borges é epifania ‘sensoalíssima’. Charada-chave:
só enigmas oferecem respostas. Luxo: não saciar-se de perguntas. Aqui mora um
criptograma
Flávio Viegas Amoreira
flavioamoreira@uol.com.br
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