Meiotom - poesia


 

COntornos

FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA

‘’Os contornos da Serra são adeuses do Oceano ao Cais’’.

 

[ ‘Poemas / 1984’]

 

‘’ raízes mãos longadas

fios de gotas

prosseguimentos

paragens das asas duplas

coalham sal dos ermos

anoitece horizonte luz é detalhe

 

queria dizendo até quando

quedo opresso

jardim aquieto

onde ele

tartamudo

lançada rede milhas

canso durdidura’’

 

‘’ comer um peixe ardente

mistral dourando brocados

algas silvestres

cristais são ondas fóssseis

pena deitar ao mar  trevos em forquilhas.’’

 

‘’ NAZCA’’

 

‘’a ruptura como dinâmica, não ortodoxia. autonomia pressupondo

novas investidas: poesia instaura reino pantanoso na Literatura, incerto mal progressivo que instaura estranheza de texto, devir miraculoso da imanência insistente : é demais estonteante o primeiro brado / percebo-me num ocasional bafejo/ rumos em disparates /

ah! pulsões do ardor / Universo por desatinos lógicos/ dúbias montanhas: dói o não feito pelos olhos mal rompido amontoado desenlaces / poema vocifera primavera inútil / o mais adiante é inconsequencia sem urgência, intrinsicamente ligo-me a um conjunto composto que impreciso quando descrito: pressinto reparação da assertiva refeita em dúvidas / espero vencer-me, escrevo-te. rasguei-me a frio numa cruzada na passagem do Helesponto: agito a fronte

larga e debruço / tornei à Éfeso na rubra romaria: um batalhão de fiéis

prorrompia / depuro meu coração: nunca será a Groenlândia. não existe uma perspectiva isolando-me: enveredo-me por algum horizonte inascido num mar dum fundo oco. conheci alguém no encalço: sozinho não conheço derrota, insisto ao dobre e meio:

apuro o passo e vou ao martírio de mim com sombra testemunha.

Eu vaporizo elementos em palavras-polén: necessito entrar-me dando ao tom do vento o vazio dalguma guarida. guardo último espelho da aurora: o fim é pedaço extenso do começo alongado ao abismo dando num prenúncio e quando penso desconverso, elido. o caule entre

a seiva e o prepúcio: goza artimanha desfolhada. hás de ser sempre meu amigo: torna a teu recanto transtorna a letra morta é pouso de quem não mira fundo. há dignidades num influxo: abarca o transporte imerso submergindo enigmas: a carruagem da morte esquece desse que não titubeia. quem escreve nada sabe do que diz nisso acaba sendo mais verdadeiro que tudo-todo omitido pelas coisas: vai além da compreensão o leitor que o sucede na reverberação do que nadava em vale num paraíso dúbio. a imaginação é mais impura das gentilezas que a razão recebe do absurdo: a razão é tão velha como a primeira cafetina da mais velha das profissões: a pilhagem de termos.

Aos dezoitos anos conheci uma guilda de homens que se amam nos subúrbios de suas pernas que voam em assovios: vem nesse canto escuro! há uma ponte que nos esconde do riacho turvo: a noite a praia é bréu e nada do céu testemunha as braguilhas em bronhas clandestinas. conheci gente depois da infância e nada perdi esquecendo a meninez: a juventude é forte Quixote arfando estanho/

conheci a deusa, o tigre e suas presas: eu vim de enfrentar desconhecimento e agora pari um ogro azul que chamamos nuvem:

não quero o que passa / desço e pranteio o que permanece disfarce que desato. imaneço: tenho um par de óculos e lunetas: tudo que arreganho é dos marujos de Holanda. Volto ao nome / restabeleço a crença : houve dormires em que velavam cortesãos / giramundos /

não existem musas: só homens pelos braços. a mim não foste senão.

Farei ondas / crescerás um Mar : findaremos vozes / segredos dissipantes : passa um gato do meu feitio de brilho da estatura do meu sonho. Céu / Mar : vácuo que precede é vão : saudades é pranto vestido de amplidão e serra. amanhece gêmeo: somos ambos.’’

 

 

Flávio Viegas Amoreira é escritor santista;

lá editou 4 livros pela 7 Letras e lança em março de 2007 seu primeiro romance : ‘’Edoardo, o Ele de Nós’’

flavioamoreira@uol.com.br