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A PENÚLTIMA VERSÃO DA ETERNIDADE |
flávio viegas amoreira |
‘’A Penúltima
Versão da Eternidade.’’
Era fim de inverno no cais de Santos em 1916. A Grande
Guerra
turbilhonava a Hospedaria dos Imigrantes até as muradas do Valongo
sob a suspeita de sabotagem espiã infiltrando-se entre os carregadores
disputando trapiches apinhados de
operários contratados à lavoura ou de capitalistas do café na ‘’Belle
Époque’’ trajando ‘sportsman’ ou ‘dândy’. O Brasil neutro espreitava atônito
ameaça dos submarinos alemães, o anarco-sindicalismo ou advento da fúria
bolchevista amalgamada à gripe espanhola. Impérios ruindo, a industrialização
fervilhando a provinciana São Paulo; o porto santista era o cadinho onde
convergiam braços e cargas de todo continente sul-americano, as aventuras de
magnatas ianques , britânicos e turistas sequiosos por lazer seguro nos
trópicos. A Europa em chamas exportava Arte aos novos-ricos civilizando-se em
solo pátrio. Um cinzento navio da ‘’Royal Mail Company’’ deixava a barra com a
legação francesa sob a escolta do poeta Paul Claudel, cônsul no Rio de Janeiro ,
o compositor Darius Milhaud e o mecenas Diaghileff embarcados para Buenos Aires.
O vapor sinistro tinha até o vidro das vigias toldado para não despertar a sanha
de bombardeio hostil. Ao crepúsculo, passada a Fortaleza da Barra Grande, um
jovem afetadíssimo de smoking apoiava-se a um canto estrelado do passadiço
saudando o luar prematuro já além da Ilha das Palmas. Tinha ar estranho de olhos
oblíquos protegidos por um leque preto ornado com uma rosa dourada. O rosto
talhado de mujique ou príncipe tártaro. A baía tendo São Vicente de esguelha era
agora o vislumbre equatorial por inteiro: brisa suave embebida de úmido
esperanto nessa Babel do Atlântico. Antes da ceia promovida em honra do
romancista Anatole France, o comandante assim que escurece em bréu além de um
palmo, adverte que ninguém deveria permanecer no tombadilho, acender lanternas
ou cigarros. À proa , avistou-se um canhão ameaçador : pânico em águas
brumosas!
Um cruzeiro quase abalroa, célere, aproximado ao
extremo.
O oficial telegrafista esclarece uma cláusula do código
beligerante: durante o conflito todos vapores com intenções amistosas deviam
mesmo bicarem em reconhecimento e seguirem
em meio a cortina de fumaça de seu destino. Desdenhando agitação
das damas e os urros secos de alívio, o fauno russo desenha ligeiros passos
simulando pássaro alado ao infinito:
alumiando o éter, coreografando o fugaz bafejo sudoeste sobre a
copa das últimas palmeiras avistadas, mimetizando em arco a constelação
sobranceira , seus pés rastreiam as vagas sem desnortear-se diante a
insondabilidade do sentimento oceânico.
Evolando, fazendo-se elemento natural, um miasma ou
nuvem:
um deus de sapatilhas que vive como quem sucumbe:
Nijinsky!
A sagração da primavera, alvorada ao universo mítico da realidade,
a fenomenologia lírica refulgia. Noutra nau rumo em sentido contrário saindo do
Prata, já Guarujá ao largo, caminho de Gênova e Genebra, um menino de vista
embaçada reteve na memória a duração imorredoura dum instante: testemunhou a
encarnação da dança num camarote rente à Ponta da
Praia.
O pequeno argentino regalava-se em espreitar o balé das palavras
na sua mente de ritos, segredos recriados, cosmogonias
íntimas.
Era Jorge Luis Borges estreando como quem se enleva por uma
escotilha nas escrituras de luz investindo nas sombras mais prodigiosas que
meteoros. Santos, Nijinsky e Borges ao poente num amplexo bailando sempinterno :
Litoral epifânico.
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