Meiotom - Crônicas


 

 

flávio amoreira viegas

 

 ‘’ Vicente de Carvalho: clássico redescoberto.’’

 

‘’O mar é para mim como o céu para um crente.’’

Vicente de Carvalho (1866-1924)

 

 

‘’O maior desserviço que se presta à um vulto nacional ou glória literária é sua ‘’ fossilização’’ : homenagens em praças, bustos e citação de trechos de uma trajetória  desconhecida ou obras esgotadas. Stendhal dizia que eram necessários 80 anos depois da morte dum autor  para saber da permanência do mestre: Vicente de Carvalho tornou-se poeta canônico, acadêmico e até relativamente popular,  mas o distanciamento dos embates modernistas e vanguardeiros o colocam de novo  entre maiores vates líricos da Língua Portuguesa. ‘’O Sr. Vicente de Carvalho é um dos maiores poetas brasileiros. Coloco-o junto de Cláudio Manuel da Costa, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela. Quem sabe pouco abaixo de Castro Alves e Gonçalves Dias. Quanto ao Sr. Alberto de Oliveira e a Olavo Bilac, tenha paciência a idolatria dos brasileiros, estão um degrau, um degrauzinho abaixo do Sr. Vicente de Carvalho.’’ Palavras do demolidor Mário de Andrade. Enaltecido entre mais  inventivos e metafisicamente densos poetas nacionais por Manuel Bandeira, Agripino Grieco e Antonio Candido,  foi eleito para a ABL logo depois da obra-prima ‘’Poemas e Canções’’ (1908) ser recebida como mais célebre contribuição pré-modernista: mais que simbolista ou parnasiano, Vicente de Carvalho foi ele mesmo uma escola de panteísmo atlântico. Escritor pós-moderno, tenho recebido com orgulho retomada de interesse e reconhecimento intelectual do ‘’Poeta do Mar’’ por colegas da minha geração: é autor para o século XXI.

‘’Mar / Tigre’’  volta ‘’ erriçar o pêlo!’’ O abolicionista, republicano e defensor ecológico de nossas praias acaba de ser reeditado pela ‘’Global Editora’’ e inserido na mais ampla Antologia de Poesia Brasileira publicada em 20 anos: patrocinada pelo MinC-Petrobrás e organizada por nosso maior antologista , o poeta Claufe Rodrigues; Vicente é posto numa seleção que vai de Augusto dos Anjos até  Ana Cristina César , enquanto o eminente crítico de ‘’O Globo’’ José Castello vê no santista um antecessor do heterônimo Alberto Caiero de Fernando Pessoa por sua natural delicadeza e de Vinícius de Moraes na evocação de afetos, musicalidade e despojamento ao cantar o medo da solidão, amores proibidos e feitiços da lua. Raro em ser doce e grave sem pieguice. Citado pelo tropicalista Jorge Mautner, revisto por ensaístas lusitanos e surpreendentemente resgatado  pelo semiólogo concretista Décio Pignatari, o bardo caiçara entrou em cena musical  por nosso maior compositor erudito Gilberto Mendes em ‘’Alegres Trópicos’’,  peça sinfônica regida por John Neschiling na Sala Osesp. ‘’ Palavras ao Mar’’ foi considerado ‘’dos maiores poemas que ainda se escreveram na língua portuguesa’’ pelo prefaciador desse clássico, ninguém menos que o gênio Euclides da Cunha. Essa crônica não é tarefa crítica, é apelo aos santistas: reconhecer a enormidade do escritor e estabelecer senso de escala: não há símbolo maior do Litoral Paulista que sua Poética e ninguém aqui o  superou em significação literária. Após o  fenômeno romântico das Arcadas, Vicente de Carvalho foi primeiro escritor caracteristicamente paulista a alcançar brasilidade; seu legado não é de ontem: é atemporal: iconoclasta burguês, spinozista, cético e de sofisticada  sensualidade,  seus versos vivem um ‘boom’ em blogs e sites através dessa aliada da Arte: a Internet. Não é ‘onda’ de agora, é sucessão de vagas: ‘’Velho Tema‘’  que renova. Foi tirado do bolor careta dos compêndios e da voz dos poetastros de salão para espaço dinâmico e virtual da blogosfera.  Trata-se dum criador eternizado posto que altamente contemporâneo do que sempre será: Oceano, Desejo e Morte. A Prefeitura de Santos teria dever óbvio de seguir o que o Brasil evidencia: a Obra de Vicente de Carvalho precisa ser disseminada na rede pública de ensino, reeditada em sua terra e suas estrofes ganharem as ruas feito maresia. Nome de Distrito de Guarujá, bairro violento no Rio de Janeiro, rua no Cambuci, lápide no Paquetá ou estátua na orla, o trovador precisa de leitores ávidos que o perpetuem no mármore da memória. Santos que se toque: patrimônio imaterial é arquitetura de mentes: Vicente de Carvalho é catedral marinha. Nada menor que desconhecer o que fomos e escapar possibilidades de real grandeza. Santos precisa decifrar quem inventou o conceito de ser santista...’’

 

 

 

[ FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA

ESCRITOR, editou 5 livros pela 7 Letras

flavioamoreira@uol.com.br]