Meiotom - Contos


 

PEloponésios

flávio viegas amoreira

 

‘’ PELOPONÉSIOS’’

 

I -[ ‘ Prezado Samuel, segue a primeira prova do livro para sua apreciação fico aguardando suas considerações, atenciosamente, Raquel;

obs.- essas ‘manchas’ no boneco são do tinner, não se preocupe...’]

 

O e-mail ao autor desrareava do dizer-tudo: aprovada suas vergonhas embatidas de loungue music, house , e alguns lispectorismos. Reconhecer seu próprio livro calhava assim proteger-se de vento sudoeste: jusante ( dentro ) limando as quilhas ao prorromper vazante ( fora ); na intenção do livro não contava o livro,

era eu mesmo dessilabado. O Ministério adverte todos da presença de crianças:

eu me como por arder : tô num bungee-jump dentro da alma bamba; essa escada que leva à ti é um perigo rapaz! um totem da Ilha de Páscoa que eu malhei te espera : nosso lance em ondas curtas: nossa moda é um desleixo: cabeças raspadas unhas cítricas traje verde rasgo no coração: não quero mais aquele padrão imposto por uma menina, preciso é você; tenho nas costas sua grife: look andrógino entre paixão e passeio, calças siliconadas e ternos de xantungue bem alargados pelo esboço dos joelhos mordidos. você é o que descolo, sabe que me cola feito um cetim estampado em branco fosco, sua pele é uma atadura que amoldo. Caio de quatro na tenda das borboletas : quero você atado feito camisa de força. adquiri um tweed com quatro bolsos cortado num raro panejamento;

aquela prainha em Grumari enquanto voava até o Santos Dumont aguardando passagem em Congonhas: era todo você aérea ponte dum antigo desterro.

Black music anos 70, segunda-light, gim-tônico, abiscotei um beijo amor, aguento

esperar todos domingos não cheguem: encontrei você por ser tão desaparecido do que penso ser parecido comigo, sou a praia do teu interior, mar ! mar! vem pro mar montanha de falsa timidez... sair de ti é loucura, extrapolo , rendo-me ao festival de baco em tua videira, olha que sou azul também! Tricotei um sueter de carneirinhos para nossos sonhos : imenso largo até quanto mais justo melhor,

arcamos nossa teia, sucumbimos nosso precipício, falhamos todos encontros desnecessários que não sejam os paradeiros de nós. Perguntaram numa enquete estilo , tendências: disse tudo de nós: todo estilo é minha tendência por você. Há sempre alguns truques que devemos guardar no amor: um tempero desses em pitadas: hortelã, juliana de legumes, cardamomo, anis, somos especiarias exóticas: não tentem pretender similares nacionais , nosso amor não é humano:

excede as variações climáticas, não amamos desse planeta: você é o cúmulo

do que eu acho... aceito tudo menos algo desapimentado, esforça caber dois em um além da massa ígnea dessa geologia. Voemos numa conspiração um ultraleve longíssimo donde nos encontre até o fim de nosso anonimato: teremos

a face rubra e o suor das lendas depois do cansaço da história e saturação dos mitos: vem que mostro a languidez dum pesadelo, a ternura dum inferno. Minto!

serei teu futuro até que a crença mesma indecida de nossa existência... noções

elementares à combinação dum tinto encorpado , sangue e areia, cogumelos embebidos num espumante frutado. Deixei à liberdade da natureza tudo que prezo: teus cabelos tingidos, a flor sem espinhos, a não-vinda de filhos, a torpe

licença de tua distância. teu calcanhar é uma verdade absoluta; desaprovo tristeza no intercurso, percebo um desalinho em teu formato. soa estranho nosso dialeto

como era sintonizar de madrugada em pequeno a Rádio Belgrano de Buenos Aires: vai longe a lembrança infeliz que desfiz de mim, nosso minuto primeiro

acendeu algo apagou... o sexo estava disponível antes do meu dedo tocante,

cítara arquejante: o prazer passa e olha, esquece o prazer se era o certo. dia de festa : não sou disso , vou prá olhar um oco no ouvido dito: espero fora daí!!!

todo ele é vagareza, inibição: teu corpo é um afresco na parede do teto insône.

Pensei na comédia de meus sentimentos: fazem a vida ruir gargalhando, café de cevada dadas mãos assistindo nosso clipe preferido , percurso amplo: ‘’Last

Night on Earth’’ , Bono Vox hoje reencarnando Wiliam Burroughs: todos ficamos mais bonzinhos em nossa ira... vai ao porta CD com relógio com essas botas de

Marlboro: tudo de fora meu dromedário , assim por cima ‘Joe Camel’ amorzinho,

aguenta firme té último tranco. estou na Arcoverde descendo às Clínicas, peço

vá ao Messias e retire encomenda: ‘’ Os Pobres Diabos’’ de Dostoievsky’’  traduzido direto ao luso em 1932; veremos no Guarujá novo Kevin Smith; permito

olhar rostos: Sampa é rosto; calçamentos irregulares, aterros, não conheço ninguém prá me chamar estúpido! a Fradique essa hora é Saara de pernas;

hoje namorei um Cristo de Ingres fechando no Masp, prefiro Lasar Segall à muitos Portinaris, o segurança me toma por tarado de telas: deve pensar: encerramento! YAHOO! nos vemos no Garoa antes da serra: somos três formando site de busca.

 

[ ‘caro usuário, sua bolsa foi encontrada vazia com essa correspondência selada,

favor retirar no balcão devoluções da EMTU’- sem prazo por tratar de extravio identificado; grato , administração’]

 

‘’ percorre’’

 

‘’ não mudaram as rotas além do avanço das casas , da demolição de outros,

do desfalque sem marcas evidentes: lancetaram memórias de uma geração:

assim foi quando quis retomar os 15 anos: revalidar a mão insegura, opor

ao acaso a distância’’.

 

 II-‘’ STEVE, ESQUECIDO DE TI.’’

 

‘’Era a rota velha Rio-São Paulo, lá por dentro Cunha, Areal, as cidades mortas

e ele foi resgatado esquecido no caminho descendo a serra. Ele foi a rosa no poço, a orquídea volteando anos em minha imaginação em renda ou rosa despetalando que era rosa. Abraham, acorde! dizia para que lembrasse.

Calça e blusa simples de andante, escapulia da conversa, retinha enquanto caía de novo no poço agora dentro de mim. não seria nada que correspondesse, por mais puxa-se, Abraham, donde veio você? parece claro, rosto de vinte e cinco anos, foi levando-se ao barranco, uma clareira, eu esquecera o motorista que me levava à Praia da Roca: Abraham entretinha-se em se esconder do que desconhecia-mos, esconder a deslembrança. Gritava baixinho: Abraham!

sentado entre madresilvas caíra para mais dentro eco que gritava para mim.

o que ele respondesse seria a senha: o grito era o nexo. Rompia galerias subterrâneas, adentrara salões pouco gentis à arranhadura das costas, ofegava

redemoinho que apossava eu que herdara sensações de procura em mim.

crateras, lagos, chorões, angústia afunilava. não mais me acudia: não perderia

Abraham de mim, bastava achá-lo para ele de começo, Abraham interno que não rompia em socorro dele, nosso, agora residindo no espaço restante do mundo

negado.  a queda ,a intervenção. ele manca dessa mentira , confessa o nome:

sou Steve, assim era antes de ter me chamado. Steve então era meu Abraham

persistindo na verdade contante: ele dizia as coisas que significavam dalí prá frente contando antes relevantes. Então, Steve, sobe aqui te ajeito! Parecia implodindo um edifício no contorno de vértebras músculos moléculas. Toda hibridez literária tava na minha cabeça: queria mais significação que um buraco.

Steve entendeu que sempre sonhava com quedas, precipícios, eu que escalava montanhas contemplando alpinistas, seguia a rota dos balões de festa, temente às alturas onde puseram Deus. Saído da fossa, já ia parindo alma inversa a superfície esbatendo na superfície do acostamento até onde quisessemos findar

viagem: não se ressentia dos meus beijos, sem necessidades epidémicas estava no amâgo olhar morto das perguntas palidez sem propostas reclinando no abstrato.  rosto pálido o sangue refluía até essa carnosidade do pensamento

arremedo existencial deparava o sotão da verdade íntima: uma rosa verde de risco extremo mais temia era afogamento / afundar entre as vísceras emergia caudoloso já me percebia de novo instado ao campo sensorial estofado das antesalas , Abraham! eram amoritas do meu ocidente, dissera. – Estava pensando

distraído / tão abstrato quanto um peixe. a rosa verde vislumbrada / peguei na mão de Sílvia e pedi que tudo tivesse início no pressentimento de um flash agora estava pronto para o fotograma. o foco impunha auto-revelação; tranquei o alçapão era senhor de meu destino. o desfiladeiro mais íngreme passava por minha garganta que desde então nunca mais brinquei de ser eu mesmo. ser eu mesmo é uma brincadeira sócioconsentida. Abraham perguntou à Sílvia:

querida você já despencou aí bem dentrinho de ti? respirar é o pensamento mudo das trajetórias , canyons egológicos, evocação dum suspiro. quando teimo em pensar o corpo se me responde suspirando. há um sermão poético no elemento que diz: pedra! plurivocalismo dos lipogramas. o autor original desse conto fugiu

antes de revisá-lo, fugiu antes de fingir transmissão dum fardo, soco , baque.

todo que socorre a consciência. a lembrança é soco. é tanta vontade tanta! que só o Paraíso branco vai nos entediar por misericórdia. se lembro ainda sei que vivo.

vivo em frota meditando, repousando minutos em quadrados, cizura em escanteios sugerindo telas vibrantes. elementizando percebimentos: os dedos de Fábio me pedindo, a ingratidão de Guilherme dizendo-se agora maduro, vôo pensando, vôo. jogo varetas de logopondências: um missal lúdico trazido da Índia

por um peregrino profano. deixou-me um tear sem trama. agora retraço. quando deitado tudo é superlativo: os regatos são veias tiradas de mim. a caminhonete

para porta abrindo-se: isso é um sax de Joseph Vincelli assim reconhecido como Abraham eludia por ser tão presente um busto pintado por Thomas Sully: era um espartano senhor lilluputiano , crescia em meu interesse: um Gulliver celeste soltara alí sem que eu tivesse mais rancores de meu destino: perdera um destino

fixo, arrancara culpas desses rancores. eu recolhi o viajante como meu carona,

era sua garantia, tinha me tornado um ser responsável: esse desejo me deliciava

como molotov silente. escapara de minha rota e teria que escolher uma praia.

Steve, acostuma ao novo nome para agora eu Ter um novo caminho, só te acertando ao chamamento teremos guarida igualada num repouso da noite.

Bancaremos Kerouacs: Clint, Texas; Santos é o Mar, o Mar é o Destino.

Steve , escolhe entre a Juréia ou Cambury, descemos os Vales do Ribeira ou Paraiba. Defronte é o que decide. Literatura mora entre nós, ela será orgasmo para poucos. Seremos anacoretas do consumo, Literatura será orgasmo para poucos. Um acidente geofísico pede que escrevas, pensa, Steve.