| Meiotom - Crônicas |
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flávio amoreira viegas
‘’ SANTIAGO
SEGUNDO JOÃO.’’ ‘’Santiago’’ ‘sou eu, mas também é muita
gente’. João Salles,
cineasta. ‘’ João Salles é
nobre gênio da Alma, feito Ozu filmando Bachelard. Câmera, pincel ou pena
: o mestre embaralha gêneros e suportes transfigurando a realidade crua
naquilo denominamos Grande Arte. ‘’Santiago’’ é um épico da subjetividade:
mais importante documentário brasileiro que tenha assistido; não sou
hiperbólico: trata-se de um depoimento filmado que extrapola, excede o
meramente registrado: a trajetória contada sem aparatos que não somente a
memória e imagética duma existência profundamente sentida e pensada. O
entusiasmo é reação ao reducionismo: ‘’Santiago’’ é tudo além daquilo que
seria mera estória do mordomo de Walter Moreira Salles
ou mimetização miniaturizada da relação ‘patrão’ e ‘criado’ : não é ato
circense ou alvo pitoresco para sociólogos ou
socialites, trata-se de perfeitamente inacabável experimento formal
apartir dum personagem de conteúdo inenarrável. João
Salles maturou 15 anos entre feitura e exibição da obra-prima: nesse
interlúdio dirigiu contundente retrato da violência urbana
(‘’Notícias de uma Guerra Particular’’), acompanhou modo revelador
o vitorioso candidato Lula em 2002 (‘’Entreatos’ ) e
levou às telas um reticente virtuose do piano (‘’Nelson Freire’’ ); sua
marca é zona de sombra, os interstícios, as frestas da imagem, ritmo e
sensibilidade: capta o que Walter Benjamin dizia ter-se perdido com a
modernidade: o senso de ‘aura’. Santiago Badariotti Merlo é um
protagonista de conto borgeano, ‘’Funes, o memorioso’’ discorrendo
proustianamente sobre a História humana apartir do mundo detalhadamente
encantado seja nos salões da Casa da Gávea ou no claustrofóbico
cômodo-locação onde se desencadeia esse ‘making-off’ da existência. Sob
a mirada instigante de João, Santiago discorre sobre
absurdo da fugacidade, intermitências do coração, as
epifanias como resistência ao frágil argumento de finalidade diante
da perenitude do vazio ou do nada. Só a fenomenologia poética, a emulação
sensorial é capaz de reter o saber que salva do esquecimento. Não há um
feixo na revivência, no sonho, no enigma. A tela
amplifica literariamente ‘’ santiagogramas’’: apontamentos sobre dinastias
persas ou tribos dakotas, reflexões acerca de Dante,
Lucrécia Borgia, dum cemitério genovês ou a corte dos
Visconti; o monge nefelibata recita
Lorca, dramatiza uma fala de Bergman, pontuando digressões gostosamente
eruditas ao som de Bach e Beethoven que emolduravam sua Alma refletida em
poética veemência, ademanes e Cultura como forma de sobrevivência ante
crueza da inpermanência: cultivo, não adorno. Intertextual e
multicultural: passa das monarquias renascentistas às lendas de Hollywood,
não dissocia tons ritualísticos: num flash louva madonas
de Rafael noutro enternece com Fred Astaire dançando com Cyd
Charise. Quando Santiago tenta expor o que seria mais íntimo, João percebe
que toda essencialidade teria sido exposta estando sua ‘diferença’ contida
na argúcia de sua intuição. Não resenho, transponho a percepção do
impacto: a Grande Arte é essa simbiose entre motivo, expressão e
participação do espectador num quadro ou espetáculo que se doa sem
síntese: ‘’Santiago’’ ‘é’ João Salles, também sou eu e de qualquer atento,
agudo interpretante. O comentário sobre um filme não é antecipá-lo : nem
‘só’ vendo ‘’Santiago’’ se estará identificando o plano metafísico em que
se instala um homem rememorando, um diretor poetizando e a montagem
tentando dar nexo ao que buscamos cotidianamente: resposta precária que
seja ao que vivenciamos. Em época de elites em tropa,
‘enochatos’ e glamourização da burrice, ‘’Santiago’’ é
um registro eterno da verdadeira aristocracia, a do espírito : que é de
João e seus espelhos: o artista dá vida ao que nomeia
quanto mais belo é o efeito ambíguo do que
produz.’’ Flávio Viegas Amoreira Escritor, crítico literário, colabora com vários jornais e sites brasileiros, prepara ensaio longo sobre ''Santiago'' de João Moreira Salles. flavioamoreira@uol.com.br
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