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LUIS SERGUILHA: RASTREANDO O ABISSAL | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Luis Serguilha : rastreando o
abissal. ´´
Deixa-me ser direto antes da
floresta densa. Luis
Serguilha
é o mais generoso conhecedor da Alta
Literatura que surge nas
3 margens
do Atlântico
luso-parlante hoje. No
Brasil, é enorme a dívida com o
rastreamento perpetrado sem trégua
feito pelo escritor de Vila Nova de
Famalicão:
seu trabalho supre a gigantesca
lacuna que as universidades
nacionais não suprem ao reconhecer
a realidade
imagética que se eleva acima dos
escombros do mercado editorial
ordinário e vendido ao capitalismo
predador. A dicotomia entre
mercado editorial e Literatura é
concomitante ao impasse da crítica,
o ocaso dos cadernos literários nos
diários brasileiros e o
conseqüente
´insulamento
´ da Alta Literatura em oásis de
experimento e invenção: portais como
o
www.meiotom.art.br e o
www.cronopios.com.br são
verdadeiros canais de escoamento da
experimentação, da
transmodernidade na escritura
e na
regurgitofagia
pós-antropofágica por que passa a
terra de Roberto Piva e Haroldo de
Campos: nós, autores surgidos na
virada do século excedemos por
dizer, entretecer,
rebubinar,
transvalorar
o entendimento de signos carregados
de significados na transição do
industrial ao cibernético, do
centralizado ‘a produção estilhaçada
no caos urbano de nossas
megalópoles.
Serguilha é como
os ´´jardineiros´´
de Zygmunt
Bauman:
os utopistas iconoclastas que crêem
na resistência
deleuziana da criatividade :
´´Os
jardineiros sabem bem que tipos de
plantas devem e não devem crescer e
que tudo está sob seus
cuidados´´.
Trato aqui de traçar um retrato mais
aproximado de um homem-galáxia:
heteróclito, polissêmico, dono de
uma prosódia que brota feito rizoma
desdobrando-se florescendo em meio
ao magma ainda ruinoso de nossa
tessitura literária. Não falarei
aqui do autor de
´´Embarcações´´:
esse livro é uma catedral navegante
que demanda um ensaio caudaloso que
me imponho
gozozamente erigir.
Serguilha
comunga comigo
da mesmo ´´sentimento
atlântico do
mundo´´: ele
reprozudo
o indiscernível com minha relação
quase sensorialmente erótica com as
palavras que diviso no horizonte
infindo. Em
Serguilha, reconheço
mesma ´´curtição´´
das palavras: uma epidérmica
transação com conceitos que
doam-se
em forma de letra, mas irrompem
estalos,
´insights´ que vão muito além
dos significantes enfeixando um
discurso provisório retendo o
fluxo,o Devir das passagens que
dizemos ser
´conceitos´ de sentimentos e
coisas.
Recorro a
Blanchot como quem se ancora
numa tábua oportuníssima para um
náufrago em seus estertores de
entendimento :
a linguagem de
Blanchot é na ensaística o
correspondente de
Serguilha
na poética: ´´escafandro´´.
´´O
que é a palavra poética, se ela
permanece estranha a tudo o que é
sem memória, sem nome? Condenação
que não é apenas moral, que atinge a
obra em suas raízes. Não haverá
comunicação verdadeira, nem
canto ,
se o canto não puder descer, aquém
de toda forma, até o informe e ‘a
profundidade em que fala a voz
exterior a qualquer linguagem .´´ -
Serguilha,
´´escafandro´´
, nos expõe a topografia
apartir
de sua descida ao indeterminado: ´´Korso´´,
livro de preciosa interlocução com ´´poiesis´´
lusófono-dionisíaca é um marco para
esse projeto
humaníssimo : ´´Dulcinéia
Catadora´´,
selo de vanguarda literária e
sócio-ecológica nascido nesse
planeta chamado São Paulo e que leva
a marca visionária de Lúcia e Carlos
Pessoa Rosa. ´´Vulcânica
poeta a purificar os ervateiros
medulares e os
arquitectos menstruais como
cisternas de
dialectos a
acolher´´.
Serguilha
é esse nosso companheiro recolhendo
remanescentes de idiomas em
extinção :
os da literatura de resistência pelo
conteúdo e forma: felizmente
novíssimos escritores repõem ´´estoque´´
de inventividade: ´´Korso´´
é um transe que prorrompe diques de
larva incandescendo nova geologia do
que será a linguagem enquanto
encanto e
evisceramento
da busca do Ser: transe
fenomenológico , fenomenologia
poética na senda de Heidegger :
Serguilha
mantêm aceso o lume da clareira
ontológica, pela Poética
siderada.....
´´Korso´´.
Flávio
Viegas
Amoreira, escritor e crítico
literário
flavioamoreira@uol.com.br
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