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meiotom poesia & prosa |
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meiotom.blog FLÁVIO AMOREIRA |
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ANISTIA: ELES NÃO DECEPCIONARAM | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Trinta anos nessa primavera: era
primavera na Vida também. Crescendo
sob o espectro de generais
carrancudos, a adolescência trazia
bons ventos de novidade vindos do
passado abreviado pela ditadura.
1979, um ano mágico em que emocionei
ao ver levas de
´quixotes´ desembarcando no
Galeão ao som do
´´Bêbado
e o
Equilibrista´´ de Aldir Blanc
na voz de Elis Regina.
Anistia me apresentava uma geração
de líderes e intelectuais banidos
que só conviviam no meu imaginário
como possibilidades de Utopia
interdita. Brizola, Arraes,
Gregório Bezerra, Fernando Gabeira,
além de dois ícones
revolucionários
: Herbert Souza , o Betinho ,
irmão do Henfil e o legendário
Prestes ! Nos jornais e na TV ouvia
a voz fáustica,
irada, visionária de Glauber Rocha,
a deliciosa verve de Darcy Ribeiro e
os comentários cáusticos de Paulo
Francis, agora um ex-trotskista com
mesma contundência dos gênios. Somos
na maior parte moldados
comportamental e ideologicamente na
primeira juventude: foram esses
personagens que moldaram minha visão
arraigadamente iconoclasta e
libertária da Vida. Em tempos
líquidos de cinismo pragmático,
morte de
ideologias, individualismo
patológico e ausência de sonhos
generosos, reflito como
construir
projeto de mundo sem grandeza de
Alma.
Quando nos deparamos com escândalos
sucessivos ,
vejo que os coronéis são os mesmos
que calaram a voz e vez dos
idealistas: Sarney, Collor, Marco
Maciel, - sabemos de que lado
estavam e o que representam ainda de
atraso ao que seria nossa dionisíaca
civilização brasileira anunciada por
mestres proféticos como Sérgio
Buarque de
Hollanda, Orlando
Villas-Boas
e Dom Helder Câmara. O Brasil
parece-me muito um país
ciclotímico,
bipolar, onde os casuísmos
e ´´jeitinhos´´
expressam bem nossa ambigüidade
coletiva pendendo entre a gentileza
na superfície e um truculento
egoísmo social hipócrita gestados
nas profundezas. Desde 79,
atravessamos os anos perdidos entre
pacotes econômicos, lideranças
mercadológicamente
elaboradas, o nefando receituário
neoliberal e agora patinamos na
sordidez de uma política mesquinha,
esvaziada de idéias e preceitos
éticos mínimos. A juventude em sua
maior parte alienada, mesmo os mais
intelectualizados, estão apartados
de qualquer processo político:
poucos lêem jornais. Esse quadro é
sintoma da ruptura entre política e
poder: a
dissociação entre os rumos da
sociedade e as instituições formais
levaram a um espiral: quem
manda onde e para onde no Brasil e
no mundo?
Quanto desamparo existencial noto
nos olhos das novas gerações: além
de peças de reposição para o mercado
e o consumo, que bandeiras os jovens
ainda podem e querem desfraldar em
nome do sentido de humanidade?
Contemporâneos nascidos depois do
golpe de 64, fomos derradeiros a
vislumbrar no horizonte esse
significado
simbólico : a necessidade de
sonhos realizáveis. Quem sabe a
salvação do planeta seja ainda
motivador de um
ideário capaz de mover corações e
mentes... Irônico, estranho
que hoje meus dois faróis para um
náufrago a procura da Utopia sejam
dois iluminados pensadores do porvir
ainda possível: o sociólogo polonês
Zygmunt
Bauman e
nosso mais que centenário arquiteto
Oscar Niemeyer .
Bauman
é o mais
certeiro, arguto e propositivo
pensador dos dias que vivemos:
recomendo seus livros como quem
busca luz num túnel interminável.
Niemeyer, é
o jovem menos careta aos 102 anos
numa sociedade onde tudo conspira
para tornar os jovens caretas.
Saudades do futuro: saudades de
1979.
A Utopia não pede compaixão, mas
comoção: dionisíaco, solar vontade
de ser
comovido: mover-se no amplo e
coletivo. Ao niilismo devemos
responder com a maior generosidade:
entusiasmo. Submergiremos sem
Utopias:
as soluções de qualquer comunidade estão nas raízes, em suas fundações e reformas das edificações: radical é aquele que ainda acredita na seiva, no grão que deita esperança num solo fértil ao sonho.
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