Meiotom - POESIA & PROSA

Quem conhece Flávio Viegas Amoreria sabe o quanto a arte, para esse escritor, é feita de vísceras, entranhas, arrebatamento febril em constante alerta. Flávio inscreve a paixão em sua vida e faz desse ardor o pulso de sua palavra, o âmago de sua existência. Para esse raro escritor, fazem sentido as palavras de Maurice Blanchot: “escrever é entregar-se ao incessante”, é “elevar na vida infinita o que é perecível” (p.67). Com furor, com loucura, o autor de Escorbuto emaranha-se fisicamente, espiritualmente, no seio da palavra, em uma intensa luta amorosa, pela qual a poesia nos surge como salvação dos desacertos da vida humana.

            Em iluminação, movido pelo fecundo instinto do amor, Flávio, recentemente, legou-nos uma pequena obra prima. Refiro-me ao “MONÓLOGO A PARTIR DE DIÁLOGO IMAGINÁRIO COM CLARICE LISPECTOR”. Poema em prosa de largo fôlego, nesse texto o eu lírico dialoga com a grande escritora brasileira, revelando-lhe suas chagas, seus ossos, sua dor imensamente humana. Sentimos nesse texto um fecundo clamor da vida, como se o amor se quisesse febre sem corpo, pulsação sem pulso. O poeta deixa-se possuir pela força dionisíaca do desejo e expressa, com comoção rara, a nossa contingência, nossa humilde miséria. Entretanto, longe de lamúrias, distante do menosprezo à vida, esse texto é, pelo contrário, irrestrita aceitação de tudo o que é precário, de tudo o que é efêmero. Para lembrar as palavras de Fabrizio Luppo, personagem de Carlo Coccioli, Flávio celebra no amor “todos os amores”, todas as tempestades. É em louvor a essa glória que o poeta enfrenta a morte, a finitude, porque é justamente delas que advém a iluminação dos afetos e do desejo. O amor só é imensamente deslumbrante por ser finito e precário. Nietzschiano, Flávio celebra em seu texto a mesma paixão estóica de Zaratustra, sempre viva em face de nossa miséria, sempre em louvor perante o precário, porque advém de um amor irrestrito pela condição humana.

            Não podemos nos esquecer que, enquanto outsider, Flávio ecoa em sua lírica a voz de Rimbaud. O parentesco entre os dois poetas dá-se tanto pela expressão quanto pela cosmovisão. Há em Flávio aquele desregramento dos sentidos; aquela transmutação alquímica do eu em um outro, um outro impessoal por ser todos os humanos; aquela força visceral do alquimista, do mago, do “voyant”, traços fundamentais da lírica rimbaudiana.   

            E por que Clarice Lispector? Porque também a grande escritora tinha essa mesma força bruta, intuitiva, sonambúlica, ao criar seus textos. Como podemos ver nos escritos de Clarice, há no poema de Flávio uma energia sôfrega, ansiosa, feita de atropelos porque nasce do “coração selvagem da vida”.  Para Clarice e para Flávio, escrever “é dispor a linguagem sob o fascínio e, por ela, em ela, permanecer em contato com o [...] absoluto” (BLANCHOT, p. 24).

            Lemos esse monólogo gratificados, pois, apesar de toda a balburdia de nosso mundo, a poesia ainda se faz necessária, porque ela é o amor usufruído até sua última fagulha, até sua derradeira quimera. E Flávio sabe de cor essa bela lição.

 

 

 

MONÓLOGO A PARTIR DE DIÁLOGO IMAGINÁRIO COM CLARICE LISPECTOR


Clarice , o desejo é um risco bom; não tenho para onde voltar depois da liberdade : e a liberdade me joga no redemoinho da paixão. Apesar de ter a doença dos sentidos demais aguçados, elevo-me ao Himalaia desse amor que me perfura : estou em estado de insatisfeito: o amor é coisa intraduzível, mas reparto fragmentos de compreensão: o que importa é que eu não saia ileso . O desejo por onde começo a dizer que quero estar nele, ser por ele, contaminar-me de sua pele é uma aprendizagem. Desejo é a palavra mais linda em qualquer idioma: desejo como quem aprende a andar depois do parto de estar no mundo sem escoras: lanço-me ‘a ele o: Desejo. Agora ele tem cara: semblante de pedra. O amor é pedra onde cinzelo / quanto mais miro, mais turvo, embaço, mas não me cego: a pedra é o impossível que alcanço , o mais próximo do impossível, Clarice , é o homem impreciso: o amor por ele é sufocador, mas continua vago. Quero viver de tesão com o mundo: nunca ser indiferente , mesmo com ódios passageiros. Amargura é dor carnívora. A felicidade dói, machuca : é um peixe elétrico, viceja. No meu sofrimento há um pátio ajardinado que rego: retenho esse meu afeto e nele acho uma fresta no sufocamento. Não, não Clarice! A nudez desse homem não me basta: é o entendimento do tempo que tiro dele ‘a fórceps o que me sustenta: forjo o que amo, ele vem depois do que já intuía. Sabia desse amor em algum lugar do instante: agora que encontrei a face do meu delírio, remo na maré do próprio dilúvio que joga-me como arca: esse meu amor exige criar um Universo de coisas inexistentes. Abri a porta a um monstro marinho, colhi açucenas de puro aço, injetei força em minha medula adormecida de silêncio: cerrei minhas mandíbulas e segui farejando o absurdo. O amanhecer é improvável, a morte agora é não mais tê-lo: agarrei-me ao amor, ‘a pedra, ao homem: não me rendo até o último gozo desse santo suplício. O homem onde pouso o espírito é um mar que corre nas veias: sabor de maresia que imanto. Amor , Clarice, é impregnar-se de uma galáxia por dentro. Ele é vasto, já não mais pedra o amor: o desejo é montanha: é vereda, eu pastoreio e rebanho. Há uma geologia íngreme no subterrâneo: na psicologia dos meus dedos : ilumino com a espera as cavernas que ele me causou: escrevo-te Clarice para encontrar o silêncio. Não tenho mais forças para lutar contra o insondável: arrebenta em meu peito acanhado um Atlântico de ondas vertiginosas que me jogam contra toda realidade: a realidade é um sonho que me esqueceu. Estou em estado de praia, de rebentação: o abissal penetra-me agora : tenho coragem de ir ao fundo da coisa que sou eu, mas o eu espalhou-se. O amor reconhece a verdade não no coração , mas na imaginação da felicidade: o coração mentiu muitas vezes e agora não tenho altura para o abismo. Eu vi a Beleza e ela não me cansa de lágrimas: penso conceber o que se passa entre mim e o jogo, mas eis caído num lance inesperado. Eu quero esse amor mais do que o infortúnio de seu desprezo: a questão é o que fazer quando o amor secar de cansado: umedeço . Sei que existe a plenitude dum mergulho, da rosa, do ocaso do Sol no outono: procuro a plenitude Clarice, e lastimo que tudo concorra para desfazer-se: afogo-me, a flor despetala-se saudosa do caule e o crepúsculo me enche de terrores : não é a morte que tememos, é a finitude. Dizer-te torna-me menos fantasma de palavras: o Destino se interpôs em nossa conversa: o que não é memória é hiato , estou desvelando o amor pela fala : sou impelido a dizer, a tentar reproduzir abstrações tão concretas quanto a lâmina que me fere de não poder: amar tornou-se uma prece de fora para dentro: uma liturgia do recôndito, uma celebração visceral do incompleto, não estou conformado com amputação da minha Alma. Perco-me : sou fluvial, cedo ao leito rubro : navego na torrente precipitando-me desabrido: só não transpasso: essa é a causa do meu desespero sem descanso : não transpasso por nosso espírito não penetrar-se em coito: eu o tenho sem ter, Clarice, o corpo não é ainda o amor, a carne é movediça, meus olhos não fixam o delírio: a fatalidade dessa paixão é não poder ser totalmente outro por inteiro e o inteiro descobri de modo terrível: ele não se permite, o inteiro não existe. Aprendi a trepar com outra Alma. Há essa selva entre o real e o simbólico: toda atmosfera submarina aterrada surta e endoido sem loucura : esse o drama que me alimenta e implode: a paixão é composta de razão excessiva, mas há outra face da razão: a posse do impalpável. Ele é a fruta e o paladar da fruta: minhas vísceras contêm também sua polpa: eu consisto em ser por ele sem estar nele contido : por que não vem a palavra que encerre a angústia: onde adquiro a fragrância do Eterno? Evito-me as vezes: escapulo de mim, foragido de algum espelho ancestral, busco onde não encontrar o que me foi perdido sem ser percebido. Perceber é longo demais: quase nada tem um diagnóstico certeiro além da própria dor e do grito. Uma vez achei o perfeito : era invisível aos olhos desatentos.: o perfeito é quando sentimos não mais querer sentir: dormindo eu sinto, mas quero a dor desperto... o perfeito é rápido como um raio bruto ou a saudade em estado de anestesia. A maçã não amadurecida quedava distendendo-se ao meu apetite: um esplendor! o diabo, Clarice , é a espera da colheita. A culpa de todo meu amor é não contentar-me em ser sóbrio de luz: exorbito implorante: emociono de deixar ele entrar: não amo toda parte, sou raro e apartei um alvo: só me chamo Eu quando ele me afaga: sou Eu quando mais não for além de Eu , ele por dentro tatuado. Ele estendeu o braço e lembrei de ti Clarice, quando dizias sobre os amantes: eu disse a ele “sou tu e eu é tu, nós é ele”. Amo romper a gramática como um dique não contendo a represa : amo em azul , amo num azul muito delicado, o azul cobalto. Agora desnudo o que antes inexistia. Despojo-me do que antes não tinha: me totalizo: desnudei-me numa clareira da floresta escura: não fugir da sombra é o maior sinal de luz / a raiz sofre ao rasgar-se semente : da unidade ao fragmento, deitamos sementes de nossos corpos-raízes: sou primordial : tornei-me bromélia: o poeta mora onde se entrega amor . a pedra subjaz: dissolveu-se sedimento liquefeito. Esquecer é não ter vivido: se não tivesse nascido por onde perambulava o que é em mim existido? Clarice, estranho-me: : quem somos quando escrevemos? a máscara ou o rosto distorcido? Tenho a memória da terra , o Mar ejacula / corrosão da pedra / pomo / faca sem gume / fui alcançado por um distanciado farol da torre : eu presumo, não penso: pensar é certeiro, e nada acerta quando buscado: o sentido é outro que o da fonte . Sou amado como seiva esvaída em transe: os ossos desse amante salgam minha pele distendida : castelo de proa / assovios de navios na noite do Tempo: é noite do Tempo: o Espaço é clarabóia / mansarda acolhendo Vida: o que é Vida , Clarice ? senão rastilho de pólvora. Confesso um segredo com meus membros em água viva: Clarice, confesso : meu amor é um navio sem rota cortando caminhos por minha artérias de zinco: cada célula de que sou composto , tem um núcleo exalando sentimento. Esgotarei a existência até a última seiva e haverá gotas que jorrarão meu Eu e o amor que experimentei nos elementos : nosso acalanto terá aparência de ciclos entre a chuva e o trovão. Escrever é poder dizer num relógio d´água tudo que não sei explicar: precipito-me de novo ao penhasco: queria tornar-me Oceano para libertar-me da paixão: rasgo com meus músculos impotentes o cruel muro da prisão: a paixão por ele tem sido minha prisão. Todas paixões são prisões: recomeço escalar o muro : o penhasco : agora quero ser calmo : quero ser contemplação: cansei da paisagem: eu o carrego amando sem mais muros. Conheci o amor numa tarde: agora meu futuro é sempre 2 horas da tarde. Alcancei a esfera: a esfera, o círculo que não domino não sou mais eu, nem ele que ainda amo, o cerne, a essência é a busca da libertação, estou no aprendizado da libertação, Clarice: libertação é espremer o que passa: busquei o total, o total não fica nunca pronto: então choro com o milagre do que passa: dos amassos que dou na existência: transo de espírito para o espírito : o dele é azul também. Dois nunca são um; amor é areia que junto para arquitetar um castelo que desmancha, mas ainda assim volta a ser Oceano-Mar. Somos rochedos vizinhos: o sal semeia esbatendo em nossas ilhas que se lambem de partida. Rochedos, mesmo assim seremos misturados de areia. Não somos mais ilhas: contemos um no outro: somos agora continente.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.