´´Eu
te amo tanto! Te
amo tanto que te misturo com
o mar, não sei se você
é
você ou se o
mar´´- Jorge Mautner, ´´Narciso
em tarde cinza´´.
Parecia ter vida nada perigosa; as
palavras eram-lhe estrangeiras se
não poesia; perdia noção importante
dos fatos quando mudava um caminho,
era um peregrino desses que pousam
em choupanas solteiras de
vizinhança.
Queria
num descampado lançar uma flor ao
Sol e ver Deus
despentelhando:
caíra
num mundo de mal-me-quer : queria
entrar prá dentro do seu oco, ter
morada com mulher e um filho que não
andasse longe da vista. Se não tem
fim essa causa de andar, onde
tivesse bom tempo seus ossos
comporiam alma familiar ao canto de
árvore. Tinha em falta uma razão de
ser quieto, inconstante tanto sabia,
deitava noites por uma frase:
esculpia um arco sobressalente em
Sagitário, punha venda nos olhos
para voltar cansando, confundia
braço com riacho: era
incertidão
matreira de proceder nas coisas.
Qualquer sedento finge não ouvir
direito. Deu fim: ´´quero
maior espelho! ´´
pensava.
rampa andar!
sair
daqui ligeiro!
rampa voa dessa corja
faladeira. dizer
onde fora cairia assim meio mentira:
meio, sempre tem um termo que
ressoa, forja contornos : a verdade
tem a sorte abolida.
desfilava
na cautela dum presságio: certamente
a manhã não faz ouvidos e tenho eu
mesmo lampejar destino.
o que
dito sozinho não se arrepende. Não
tenho detalhes ,
terço-me : falta correção de uma voz
que ouça escute sem espanto dizer o
que entretenho: um olho de peixe /
tela atachada
de Klimt,
o olho com barbatanas, uma arraia
ofegante: o repetidor deparado na
auto-estrada : tive de tomar um
curso no asfalto, as vicinais me
tiram da trilha.
beiral uma velha fita e me
corrige estranhezas: será de onde
esse peste sem eira?
rapaz
fino no tratamento sem recato dessas
paragens. Sorri no cumprimento,
esgazeia. Acordara decidido alcançar
a vista: esses interiores não
distavam do repuxo: uns vinte
quilometros
abaixo era outro planeta na
vegetação e relevo, vinte
quilometros
diferem interior da borda, o
continente começa vinte
quilometros
prá diante longe: naquela faixa até
o Mar é orla /
estreito : Mar já não define
diferença.
nenhum rio desabalava dentro
até as praias: os vales donde eu
procedia eram amplidões de rios lá
prá cima, repuxos do dia em que Mar maior encolhia. O
meu remorso é o que me carrega:
quero apagar um fogo que me
conduz eu
tenha andado assim por essa
persistência: ganhar terreno
embornal uns tratados de botânica e
breve só versos pois as flores nos
manguezais aí se misturam. Onde a
terra amolece é duro achar distinção
de caule pétalas
: o vento é mais nítido que
um tronco que se mistura aos
predadores rasteiros.
Escrever palavras com pés de árvores
que anunciem mais ainda o brilho da
clareira :
entre a costa e a ravina / uma sege
esconde um riacho / lá me banho da
luz que abrange indistinta o que
seja lugar algum, outras plagas /
aldeias
recorte
do Oceano : eternizar o olhar /
custa-me divisar o que sinto e a
significação do objeto para o tempo
de dentro que não combina com resto
que não seja antes e depois eu como
esse vivente que rouba as horas como
ladrão na noite para fartar-se ao
dia. Tomei o
prumo : tinha a obsessão mais
estranha e ofegante: tornei-me
apaixonado de Mar;- como um Cristo
agonizante de El Greco olhava
sofregamente a estrada : estava
tentado pelo Mar: sentia ser meu
corpo gozoza
parte desse infinito onde me
perderia mesmo depois de semear de
alma uma onda em sua carne rosa e
negra: o Mar era o espelho que
tornava seu filho, seu amante : fui
aproximando a medida que exalava
maresia me tocando no cio dum
espírito
desento .
Fui em sua direção como quem
tantricamente estira a supremacia do
orgasmo: é o Céu do orgasmo que
buscara no Mar: não era já sexo com
o Mar, era um acordo tácito
preexistindo em minha existência:
ele me acaricia em minha
dissolvência: éramos pertencentes na
exorbitância de nossa completude: eu
um pederasta entregue a Netuno
insaciável de sangue evadindo das
profundezas carnívoras .
não penso
naquilo que vou descartando:
entrego-me a acuidade da insanidade
quando satisfeita: a loucura quando
nos estertores rompe-se em dique:
cristalina loucura de todas
irremediáveis despedidas. Atrevo-me
, lanço-me , vou escrevendo
minha ira pelo continente: um farol
já prenuncia minha querência.
Os
olhos não caducam antes do etéreo
repouso do
encantamento . Sou o pensar
de meu
personagem : refestelado
abro-me em cruz...
meu
pensamento era em páginas: o Mar
seria cúmplice de meu testamento :
incorpóreo tomaria o rumo dado por
algas e esponjas: seria farejado por
tubarões ávidos do miasma do anuncio
breve que foi aquilo que chamara ´´minha
vida´´ .
Minha
nudez esperara tocar o âmago da
verdade absoluta: o Eu dissolvido no
todo das águas. Uma grota, uma
ravina, um promontório, gávea,
atol :
ruminava que acidente marinho me
acolheria: chuva de luz de estrelas
abissais: a terra já me sufoca,
quero o afagamento : todo diálogo
que o Mar ecoa da gênese. Vou para
meu reconhecimento supremo como quem
identifica no cadafalso a
compreensão
suprema : norteamento de quem
já desistiu de supor a vida ´´
entendível´´
. serei
um uivo na rebentação modulado pelo
sonido de mergulhões e
atobás
em vôo rasante saudando minha forma
de ser elemento que retine ejaculado
pelo capricho das marés. Jogo lógico
do desvario :
os fatos não me tutelam mais....
as
suscetibilidade factual rompeu-se
num rochedo na barra côncava de
nossa sinfonia de poemas soltos como
membros dum corpo eviscerado de
gomos do Destino : agora toco-me
pelo não-fato que as esperas
langorosa impõe. Angústia
objetual
evaporara-se:
a
razão que representa a criação de
absurdidades consentidas como
verossimilhança e realidades.
Tomarei
egonáutico fluxo de
consciência: ela, a consciência
vertida em êxtase marulhando em
outros golfos de tormentas.
Articularei o real vagueando o
possível do avesso. Terei a prosódia
dos murmúrios como padrões vocálicos
carregados na esteira dum cargueiro
que segue em chamas ao encalhe
inevitável num paradisíaco pacífico.
Meu transe jogando-me ao Mar como
quem é penetrado num coito alucinado
já era anuncio duma intrepidez vã
como um planeta suicida chocando-se
na estrela que move sua rotação
errática. Quem responde sempre manca
de certezas :
oferece dose e meia: o real é o
branco suplicando por silêncio...
vogar a
vazante, eclusa por eclusa:
jorrar-me : assim escapei do mundo
para o azul que serei eu de azul
por todo dentro....tal como estava
antes, retorno-me a primeira fonte,
tudo estava escrito na seiva donde
amanheci para ser o que se desprende
plácido : ganhei a solidão, isso
quero-vos confessar , ganhei ela
como quem viceja de ser todo por
dentro carregando universos que não
mais me delimitam em minha
sozinhez.....
o mundo
sai por trás das
ventanas
que se fecham; os edifícios
cerram-se num lume displicente :
estirado dispus toda minha dor, meu
amor avultando da superfície :
jazendo no Mar senti um orgasmo que
se infnitiza:
gozo até hoje quando sonho que uma
onda bate em minhas costas dadivosas
ao ventre do Oceano....fiz por ser
amado : tenho uma lágrima emocionado
quando diviso na costa ele, o meu
amante inerte mesmo sabedor de sua
monstruosa beleza....
apaixonado
de Mar: minha libido é por ele, meu
tesão é todo Oceano escandindo as
tábuas da lei não decodificadas do
Universo. Estou no
Mar : ele
me sodomiza
vertendo palavras chave para um
naufrago salvo de toda bruteza....
Oceano, vem
me envolver no teu aconchego ainda
verde para meus membros túmidos....