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meiotom poesia & prosa |
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meiotom.blog FLÁVIO AMOREIRA |
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LUX IN TENEBRIS |
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Fazem nas trevas do dia
Ao correr da
noite escura
O que tem na
natura.
Sempre voltam
ao início.
Nela o vício é
a virtude
E a virtude é
o seu vício.
Cada
um, em seu
ofício,
Metamorfose
produz:
Das trevas
acendem luz.´´
[
- poema de
monge irlandês do século IX , tradução
professor Paulo Ferreira da Cunha,
Universidade do Porto ]
Na aurora do
cinematógrafo o espanto: a caverna de Platão
ao avesso: a retenção possível do Devir, a
apreensão imanente do atemporal estava ali
na salinha escura avessa
ao ´néon-fake´
das metrópoles que regurgitavam ilusão ,
´Maya´
entre o burburinho das ruas. Muita luz,
muita sombra: Lumiére
alumiando o cotidiano além do mimetismo:
cinema como fenomenologia do espanto
encantatório do
instante. Em ´´Hanna
e suas irmãs´´,
o personagem de Woody Allen tenta todas as
crenças religiosas e alternativas
terapêuticas para a dor de existir: a beira
do suicídio, entra na ´´treva´´
aparente duma matinê
novaiorquina e revela-se a luz : uma
fita dos ´´Irmãos
Marx´´ servem
como ´´rosebud´´
ou ´´madeleine
proustina´´
para sua redenção.
Epifania:
há uma claríssima dicotomia entre o
simbolismo carregado de significados
extraídos das telas e o esvaziamento de
sacralidade no prosaico universo consumista
e estupidamente hedonista do ´´
mundo-lá-fora´´.
Sinto-me como numa catedral laica, numa
clareira aconchegada quando me rendo ao
eterno presentificado
ao assistir ´´O
sétimo selo´´ ou
´´Morte em
Veneza: a luz se faz com Bergman e Visconti
pontificando feito sumo sacerdotes da Fé dos
sem crença transcendente: Arte! E quanto de
Arte reunida projetando imagens e diálogos
como quem lê a ´´Divina
Comédia´´ ou ´´Moby
Dick´´
desconstruídos magistralmente em
Murnau ou
Dreyer : se o
século XX deixou legado, creio que foi o
cinema sua maior contribuição tendo Chaplin
como um Shakespeare
para
platéias múltiplas na sua variedade de
formas e conteúdos liricamente estilizados.
Heresia comparar
o bardo inglês ao ´´genial
vagabundo´´? Tão
pertinente quanto
revisitar ´´Amacord´´
com olhos de quem percorre
Bocaccio... A
arte cinematográfica é a que mais se
aproxima do mito
prometéico de tomar a tocha de Zeus:
planos sequencias,
´zoom ´, montagem:
é
na elaboração da perspectiva filmada que
mais rebubinamos
a cosmogonia e a gênese : no começo
Mélies fez do
Verbo : luz em sinestesia, câmera e ação!
´´Long
shot´´
ou ´´Big
Close´´ : o
cinema esquadrinha a natureza humana com
enquadramento que a fugacidade opaca da
modernidade já não
dessacralizou.
Cinema como
liturgia, êxtase sensório, orgíaca
plasticidade para minhas
retina nada fatigadas. Recorro �a
Heidegger para transplantar ontologia a
minha intimidade com a Sétima Arte: ´´Clarear
algo que dizer: tornar algo leve, tornar
algo livre e aberto, por exemplo, tornar a
floresta, em determinado lugar, livre de
árvores. A dimensão livre que assim surge é
a clareira. O claro, no sentido de livre e
aberto, não possui nada de comum, nem sob o
ponto de vista lingüístico, nem no atinente
�a coisa que é expressa, com o
adjetivo ´´luminoso´´
que significa ´claro´.
Nunca, porém, a luz
primeiro cria a clareira; aquela , a
luz, pressoupõe
esta, a clareira. A clareira é o aberto para
tudo que se presenta
e ausenta. ´´ O
cinema não como lume, sim
´numinoso´:
algo
que redefino apartir
do natural ´
reproduzido´ e que desdobro em
miradas retidas no esforço em que me perco,
a errância que
´paraliso´ num
´spot´ ou
´flash´
recobrado. A técnica �a serviço da
civilização que não
´desnatura´
ou ´desumaniza´:
facho que tira do pó e lança pontes �a
literatura e ao teatro:
além
da perspectiva renascentista serializada. O
cinema indústria, entretenimento ou
refulgência definido sem ilusões
grandiloqüentes por Paulo Emílio Salles
Gomes: ´´A
história da arte cinematográfica poderia
limitar-se, sem correr o risco de deformação
fatal, ao tratamento de dois temas, a saber,
o que o cinema deve ao teatro e o que deve
�a literatura. O filme só escapa a esses
grilhões quando desistimos de encará-lo como
obra-de-arte e ele começa a nos interessar
como fenômeno. Não é na estética, mas na
sociologia que refulge a originalidade do
cinema como arte viva do
século.´´ Quanta lucidez do mestre
Paulo Emílio! Contradiz-se por
saber inconclusa
qualquer ordenamento estanque do que seja
Cinema: mas enfatiza seu maior predicado
enquanto Arte que soma, desnuda-se e deita
raízes cromático-prismáticas:
o
Cinema em seu âmago
´refulge´! A angústia da folha em
branco ao escritor é
a
luta do cineasta da sombra ao copião: o
diáfano, o informe dissoluto pede ser
clarificado pelo amalgama entre intelecção e
sensibilidade captada por negativos
imagéticos do nada que ressurge do vazio
preenchido e
resignificado: holofotes são
alegorias solares. ´´O
artista (...) excede os estados perceptivos
e as passagens afetivas do vivido. É um
vidente, alguém que se torna. Como contaria
ele o que aconteceu, ou o que imagina, já
que é uma sombra? Ele viu na Vida algo muito
grande, demasiado intolerável também (...)
fazendo estourar as percepções vividas numa
espécie de cubismo, de
simultanismo, de luz crua ou de
crepúsculo, de púrpura ou de azul, que não
tem mais outro objeto nem sujeito senão eles
mesmos.´´ Diz
Deleuze sobre
arte
como retenção ou evasão
apartir da obra em si: o contraste
entre o ensolarado em meus olhos marejados e
o choque com o horizonte diante de meu
destino fora da sala de projeção. Nenhum
impacto é maior que ser espectador numa
cidade de praia, mar, cais: duas atmosferas
telúricas magistrais: a
solitude partilhada numa sessão quase
vazia e o fim de tarde indagando: onde é
mais Vida a Vida? Diante da tela ou do
marulho do Oceano? O claro-escuro, o
´sfumatto´
resgatam-me o
insondável: ´´Frankstein´´
de James Whale,
o ´´film-noir´
básico: ´´Laura´´
, o ´gran-finale´
de ´´Sunset
Boulevard´´ com
Gloria Swanson
entre luz e trevas na grande metalinguagem
de Hollywood, - a dança enlouquecida de
Peter O´Otole em
´´Lawrence da
Arábia´´, a
interpretação bizarra de Bette Davis em ´´Baby
Jane´´ ou o
recente clássico de François
Ozon : ´´O
tempo que resta´´
são fitas que me tornam obsessivo: Cinema é
fundamentalmente obsessão do olhar pelo
excesso de
sensibididade posto nele: o olhar, a
imagem. ´´Despertar´´,
reconhecimento da verdadeira identidade da
alma:
´anamnesis´:
retorno a paraíso perdido, o Cinema é como o
Oceano para mim:
útero
apaziguador ou erotismo da visualidade que
me penetra epidermicamente. Na literatura
me busco, através do cinema, por ele:
me
perco achando, tão ou mais profundo. Meu
cérebro além de máquina de escrita,
faz-se luz como neurônios tragados
cinética e cinematograficamente.
[Flávio
Viegas Amoreira
Escritor /
crítico literário / jornalista
]
flavioamoreira@uol.com.br |
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