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meiotom poesia & prosa |
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meiotom.blog FLÁVIO AMOREIRA |
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´´SOBRE
MAR, MADEIRA, MADEIRAMAR...´´ |
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´ESBOÇO SOBRE
TELAS´´
´´ ...
andaime
, saibro, argamassa
Que ilha no mundo nasceu?
Que esfinge esfarelou?
Que pintura foi atual?
Que
formalismo , que abstrato
Anseiam por transmitir-se. ´´
Jorge de Lima - ´´A invenção de
orfeu´´
As grandes cidades podem ser
definidas por tropos de
linguagem :
metafóricas ou metonímicas.
Segundo
Aristóteles , em sua
´´Poética´´ , ´´ a metáfora
consiste no transportar para uma
coisa o nome de outra, ou do
gênero para a espécie, ou de
espécie para o gênero, ou da
espécie de uma espécie da outra,
ou por analogia´´.
Assim o Rio de Janeiro ou Santos
que mimetizam, são
analogicamente moldadas pela
relação com grande elemento
natural :
Oceano-Mar. Já a metonímia
responde a uma lógica de ´´parte
pela parte´´, principalmente
quando sugere a causa pelo
efeito, o conteúdo pelo
continente, o objeto pelo
material de que é feito, quando
figuramos algo por contigüidade
�a um signo que tudo nele conduz
e desdobra
resignificando. Conheço
poucas megalópole
tão ´´
metonímicas´´ quanto
Sampa
: cinzenta, selva de concreto,
veias urbanas sem topografia
natural que a referencie :
auto-gestada pela que se
inventa e que reproduzida nos
cadinhos
nano-semânticos que a
representam em seus infindamente
polissêmicos construções
hauridas do seu magma inorgânico
constructo
até o
permeabilíssimo grau de
experimentação de sua existência
perpassando o fluído loucamente
inconstante. Sem linha de
horizonte definida,
mortos
seus veios líquidos sem
refletir-se em nada além do
gigantismo espelhado , - é a
única grande metrópole mundial
sem condução geológica que a
conduza ou se
interponha
assente inconsútil. O declive da
Consolação já não perceptível
dispunha-se em charco, lamaçal,
espraindo-se por
madeirames
que sustinham as veredas que
sustinham a
primeva capelinha que
sustentava-se pelo
apoucado povoado de devotos
desse paradeiro remoto que
servia de passagem aos campos da
Marquesa, do General Arouche e
Dona
Verediana. Campos de chá,
prados de Pinheiros e a elevação
tímida de Higienópolis. Ainda
hoje faz-se
oásis com ares de província
acanhada com badalo de coreto
sacralizando o
gozozo
profano profundo do entorno.
Descendo o insosso caminho que
nada oferece além da paz de
cemitério, impacta ao desavisado
o feixo
que como um
´´Aleph´´
verticalizado
esquadrinha-se pela urgência
afrontosa do Itália, o Hilton e
o sobranceiro
Copan,
mítico , farol laico a essa
civilização
fractada e convergente
denominada São Paulo, que honra
o santo que a denomina: o
evangelista dizia : ´´a criação
geme com dores de parto´´.
Ela ,
macunaímica,
é como o capitalismo :
´´destruição criativa´´ no
tratado de
Schumpeter . Igreja e o
egpitico
, babélico prédio de
Oscar Niemeyer , tem só meio
século a menos que a igrejinha.
São Paulo é milenar sendo
só
presentificada :
infinitiza-se pela escala
de seu descalabro, apenas deixa
maturando o que Drummond dizia
na ´´Máquina do Mundo ´´ :
Sampa
tem estrutura duma carreira de
fótons que se apóiam num átimo
no
´´sono
rancoroso dos minérios´´. A
arquitetura não assoberba, é ela
em sua bruteza que amacia a
absurdez do homem sonâmbulo pela
noite
interrrompida do Tempo.
O Copan
contêm
Sampa: é seu acelerador
de partículas:
simula
em sinédoque rumores, partida e
surgimentos , o espreitar do
espaço sombreando onduloso a
impossibilidade do Devir ser
retido na
provisoriedade de nosso
precário questionamento. O
Copan
é o grande monte,
Baal,
o ponto de inferência e
interrogante que aponta ao nosso
destino
bussolar algum nexo de
caminhamento. ´´Na
Arte só existe uma coisa válida,
aquela
que não se pode explicar.´´ -
Diz mestre
Braque, nessa tentativa
de tatear encontrando mais uma
grota
depois
de ter vencido precipícios que
faço o ´´link ´´ entre
Sampa
e o Copan,
apartir
de um artista que nele vive e o
usa como suporte-totêmico de
suas experimentações e grafismos
que remetem ao urbano refazendo
o mítico perdido ou esvaído. A
mostra ´´Mar,
Madeira e outros animais´´ de
Maurício
Adinolfi remeteu ao
crítico
Frederic
Rossif
sobre o mesmo
Braque:
´´Uma
pedra, o comove tanto quanto um
rosto. Ele tem um gosto muito
pronunciado pela matéria.
Introduz-nos
nos mares contidos em
cada pedra ou
madeirame
/ usa materiais como areia em
seus quadros / serra de lenha
ainda viva e
limanha
de ferro. Nele é cor dependente
da matéria. ´´
Já tinha escrito sobre
Adinolfi
sobre ´´Cores
no Dique´´:
corporalidade
, mais !
fisicalidade
que ele estabelece e propõem com
próprio território onde instala
um imaginário sobressalente e
intimidade com matéria-prima:
ela mesma metalinguagem ulterior
das obras:
folhas
de
madeirite, ´´trens´´
descartados pelo mercado e
refeitos para Arte, além do
telurismo
incorporado �a uma
comunidade
no banhado ou uma cunha
iluminada no mais emblemático
´´corpus
vivendi´´ de
Sampa.
O hibridismo dum
artista-filósofo que tem como
matrizes o Oceano-Mar e a
percepção de dissolvência humana
na megalópole elaboram
um ´´mix´´
raro que reintegra duas
atmosferas apartadas apenas por
Ernst
Fischer ,
no clássico ´´A necessidade da
Arte´´.
´´A
desconfiança do artista acerca
de tudo o que é fácil,
apuradinho e agradável impele-o
para a austeridade e para a
dureza, para um arcaísmo que
recusa lisonjear os sentidos
(...) a recusa de superfície
brilhantes, o desejo de colher a
estrutura das coisas, a sua
permanência e não o momento
passageiro. A concentração
formal torna-se um fim; a obra
do artista tenta
comove ´´diretamente´´
tal como a música ou a poesia,
menos pelo tema do que pela
forma.´´ O mesmo espírito que se
sentiu impelido a
cromatizar
habitações nos manguezais
santenses,
viu-se argüindo no cerne
vibrátil de
Sampa a
conurbação
adensada e a convivência fugidia
: como diz Alfredo Bosi de
Volpi: ´´Por que separar forma
abstrata e acontecimento vivido?
´´ O
cortinado de
madeirame
, as ripas em soltura, as telas
com monos em riste e risco,
foram saindo da concreção em
minha visita solitária pelos
intestinos da hidra para já
´´maturados´´ de dias de
apropiação
pública e o limar volúvel do
Tempo , toldarem-se e formarem
em minha retinas nunca cansadas
num ´´corpus
mutantis´´
que carreguei num
comprometimento ´´sui-generis´´
: quando volto-me e noto que não
são as colunas de
Lot
salinizadas: a instalação me
redimiram de impasses
geográficos que atormentavam
minha sentimentalidade: afinal
onde
Sampa
e Mar: por
quê retinir no cérebro
essa dicotomias se elementos
hercúleos podem me fazer forte
carregando um Atlas mais potente
de
sensorialidades sem
exclusões
empobrecedoras. ´´Onde
o mundo interior e o exterior se
tocam , aí se encontra o centro
da Alma´´
Essa máxima de Novalis fala de
Adinolfi
e seu crescendo
em
tela ou arte que prefiro chamar
de ´´interativa´´ além de tão
somente pública: ele não é
catalogável
nesse ´´tão somente´´ que
doutra
sorte seria vicioso....
Ali vertido em anjo
catapultado
serra acima alinhavei essa
clivagem,
influxo :
rescendia
a maresia o
centrão plúmbeo de São
Paulo. Sem grandiloqüência, o
artista
partejou-me
epifania:
tocou-me, esta tencionada a
razão da obra pela peculiaridade
não deliberada, mas movida num
interpretante que move-se ´´mardeirando-se´´
num chão de ferro inconcluso. O
Copan
em minha vida pessoal traz a
lembrança meu conterrâneo Plínio
Marcos e o escritor João
Silvério
Trevisan, que o
imortalizou num conto exemplar.
Já cerca vinte anos de
estreitamento e fui verificando
ser ele mesmo o grande
laboratório para aquilo que em
2002 ,
a curadora francesa Catherine
David chamou de ´´mapeamento de
poéticas contemporâneas´´:
poética do
ajanelar-se , do
avizinhamento como
primeiros passos para
rastreamento da produção
cultural da cidade . Catherine
David, foi a primeira mulher
curadora da
´´ Documenta X ´´: mais
importante mostra de artes
plásticas do mundo, e nos fala
da importância de morar !
ter
aproximação sanguínea com objeto
de experimentação: e qual
estamento
arquitetônico propiciaria essa
visão de
Sampa? A locação num ap.
no
Copan
: ´´O
Copan
, por sua situação complexa e
localização privilegiada , exige
uma pluralidade de ações e
pesquisas.´´ Aquela movimentação
toda do fim dos anos 80 que vi
em Barcelona e Paris, os
denominados ´´squats´´
: coletivos de artistas que
ocupam edifícios abandonados ,
seriam
redifinidos em bases
burocráticas , sem ´´espontaneísmo´´
que supera qualquer ´´porraloquice´´
dos já batidos ´´squats´´.
Tanto as
ocupações ´´squats´´,
quanto importante ´´residência´´
de
Chaterine David e o
filósofo Peter
Pelbart,
perdem de longe para ´´visceralidade´´
da permanência de
Adinolfi
e criação dentro e
apartir
dessa mesma permanência
cuidosamente polida , no
calor da ceifa e azáfama
quotidiana do segador ou
semeador de ´´perceptos
perpassantes ´´ de seu
trajeto e traçado.
Em ´´Mar,
Madeira´´ existe o que Hegel
dizia ser a ´´verídica
totalidade´´ do seu conteúdo , o
´individual natural imediato e o
individual espiritual ´ na
subjetivando-se nessa residência
na ´´unidade negativa´´
imbricando-se
. Segue Hegel
adequadíssimo
ao ´´opus-
Copan´´
de Adinolfi:
´´Graças a um autêntico o
substancial e que a existência
limitada e mudável adquire, por
sua vez, autonomia e
substancialidade , e deste modo
a precisão , a profundidade e um
conteúdo rigorosamente definido
e substancial acham-se
simultaneamente realizados, o
que dá �a existência a
possibilidade de se manifestar,
através do seu conteúdo
limitado, como universal, e ao
mesmo tempo, como uma alma que
se conserva o ´´quanto a si´´.
Substancialidade sem precisão:
esse êxito
do ´´mardeirame´´
que nos sustêm ali não atônitos
, mas achegando-se ao
encantamento que não se
vertiginiza
pela verticalidade:
um
´´aleph´´
contendo como bonecas russas a
edificação e essa como ´´tubo-de-ensaio´´
a ´´Sampauleira´´
de todo dia e gente. As ripas
recolhidas como
num ´´lego-logos´´
aparentemente arbitrário nos
lados do centro velho ou Santa
Cecília, não criaram ´´solução
de continuidade´´ estanque´´ :
há visível sobreposição, mas sem
acanhamento �a
frontaria
de entrada original do edifício:
o
esquadrinhamento
contraria e mais a frente na
perspectiva dum ângulo insólito
reverbera a construção e a
expressão de efeito único : ´´ o
que nas oficinas se elabora , /
o que pensado foi e logo atinge
/ distância superior ao
pensamento (...)
tuso
se apresentou nesse relance´´ -
assim Drummond de ´´A máquina do
mundo´´ cabe na máquina de
procedimentos artísticos raros
de Maurício
Adinolfi. E
nele ,
essa elaboração com o táctil do
artesão com as sinapses nervosas
do pensador respondem �a essa
necessidade ´´rilkeana´´
de viver artisticamente como
sugere forte o dizer de
Kandinsky:
´´Todos
os procedimentos são sagrados
desde que satisfaçam a uma
necesside
interior´´. E como essa
necessidade é eivada de força,
potência e consistência na
transposição de objetos soltos e
salteados para o mural que se
afixava nessa
Chartres
laica :
o Copan
pelo intento, lucidamente
metamofoseado pelo
artista-morador. Para ilustrar
ainda mais o efeito alegórico da
instalação recorro �as
elocubrações de
Le
Corbusier
até a cabana de madeira
elaborada por
Gropius,
pai da
Bauhaus:
habitabilidade, ´´protegimento´´,
todos esses analisados pelo
teórico da arquitetura, Joseph
Rykwert
em seu
enriquecedor ´´A Casa de
Adão no Paraíso´´.
Nos falando
da ´´casa primordial´´, ele nos
traz a função seminal da moradia
, vista por
Adinolfi em seu intróito
:
´´edifício
ideal que existiu antes dos
tempos, quando o homem sentia-se
inteiro em sua casa, e sua casa
era tão justa quanto a própria
natureza´´. Esse molde
introduzido no projeto de
Niemeyer é também reflexão mesma
sobre
´´convivenciabilidade´´
heterológica e a ética do
abrigo compartilhado: a Arte
pensa o cotidiano
aprofundante.
A imagem nunca é completa seja
de quem avista ou se debruça
sobre o
alhambrado
escorrente
: ´´Mar, Madeira´´ não é
peremptório como a prosa por não
ser afirmativo, mas evocatório
feito a poética do espaço
fractado,
ainda que de opacidade afixada,
não determinativa. É o
cruzamento
do ´´ethos´´
e ´´habitus´´
encilhados pelo
´´homo
faber´´
que
translança a
marinidade
ao púlpito , o corrosivo ao
pétreo.
Tensionamento, ´´mapas
alterados´´ como vi na ´´Bienal
de Curitiba´´, onde o trabalho
do artista japonês radicado em
Berlim,
Yukihiro
Taguchi
é um dos referentes que
aproximam-me desse ´´space
invaders´´
de Maurício
Adinolfi nesse
Copan
´´onirissisado´´
que mora por dentro do olhar
desse coração atlântico . Num
brilhante ensaio de Guilherme
Bueno sobre Milton Machado ele
reproduz palavra de Diderot
sobre o homem em sua passagem
observante para a figura do
artista: ´´Eu
assevero que um ser que existe
em qualquer parte e que não
corresponde a nenhum ponto do
espaço; um ser que não tem
extensão e que ocupa a extensão
; que está absolutamente inteiro
em cada parte dessa extensão ;
que difere essencialmente da
matéria e que está unido a ela;
que a segue e move sem se mover;
que age sobre ele e dela sofre
todas as vicissitudes; um ser do
qual eu não tenho a menor idéia;
um ser de uma natureza tão
contraditória é difícil de
admitir.´´ Que escala quis o
artista afrontar?
A do artista maior que o peso da
demanda do mundo:
o
excesso alí
no pórtico , na arcada que assim
explica
Bachelard: ´´As vezes a
imagem é muito discreta ,
sensível apenas, mas age. Ela
diz do isolamento do ser
debruçado sobre si mesmo (..)
a imagem ganha sua força por
efeito de um
isoformismos : em seus
mil alvéolos , o espaço retém o
tempo comprimido ...´´ Essa
suspensão de quem ´´lê uma
casa´´ , ´´lê um quarto´´, agora
lê a suspensão do Tempo em sua
verticalidade vocativamente
literal . ´´Clama
o homem a um heroísmo do cosmos.
É um instrumento que serve para
enfrentar o
cosmo.´´ O
Copan
é aí : aquele não-eu, Eu:
o
que corporifica para nós todos a
interrogação erigida.
´´A
miniatura é um exercício de
frescor metafísico ´´.
A madeira em sua porosidade de
sino-paciência
, os
qaudros de símios
cambiantes, essas carrancas em
goiva pedem
Rilke: ´´O mundo é
grande, mas em nós ele é
profundo como o mar´´ . Se
alguma parte de
Sampa
senti familiaridade com o
profundo foi na visitação
ao ´set´
montado por
Adinolfi em ´´Sobre Mar,
madeira...´´
Liquefez ?
nada
! tornou-se
contrafacção do meu
intento de perturbar a
espacialidade que está na
base dos meus temores da tal ´´compreenssibilidade´´.
Balaustrada sobre
o mar que voga em naus
paulicéias. Rendilhados
ao
sangue que viceja entre suas
vísceras de sangue e batimento
constantemente renovado. Telas
com toda vitalidade primitiva
dos animais que nos habitam
mesmo sob a patina de nossa
civilização em escombros
disfarçados de progresso.
FLÁVIO VIEGAS AMOREIRA
ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO E
JORNALISTA.
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