Meiotom - Crônicas


 

Violência Fashion

flávio amoreira viegas

 

‘’ VIOLÊNCIA FASHION’’

 

‘’Pior que reduzir o desejo ao consumo é reduzir

o consumo ao desejo do consumo.’’

Boaventura de Souza Santos, sociólogo

 

O capitalismo é cruel e quando estruturas  atrasadas, torna-se bárbaro. A deliquência dos filhos da burguesia é simplesmente transplante do trato escravocrata para o medievo high-tech que chamamos ‘economia de mercado’. A inevitabilidade globalitária moldou algo mais sombrio:  a ‘’sociedade de mercado’’, a coisificação do humano, moinho de moer mentalidades e gente. Entender o Brasil é ler Machado, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro: os três mestres descrevem o gozo da Casa Grande em ver a martirização do cativo servir de ‘brincadeira’ para o desregrado ‘sinhozinho’ fazendo farra na senzala. Todo nosso ‘capitalismo’ é assentado na discriminação: cidadania igualitária e regulação são práticas ainda incipientes. A burguesia ruboriza com seus rebentos e tergiversa sobre diagnóstico: ‘’ ausência de valores’’, ‘’superego sem freios’’, ‘’ dissolução familiar’’, sempre os mesmos clichês saudosistas para não apontar a grande causa: darwinismo social inerente ao capitalismo em seu limite máximo. Importante era ser, logo ter, agora importa é querer! O capitalismo cria monstros por excesso ou exclusão: quem tem muito esvazia-se em tédio , quem quer ter infringi precárias normas de quem determina o privatizado à uns poucos.

A roupa de marca do mauricinho é vestuário de guerra tornada mortalha do descamisado infrator.

Pobreza é a sombra indigesta às casamatas de ouro.  A ideologia do partido da ‘grana’ é incensada pela publicidade onipresente: a comunidade é tribalizada por estilo de vida, religiões regurgitam vendendo ‘prosperidade’ e como álibi ao escárnio sorridente dos ‘bem-nascidos’ um neologismo simbólico: ‘’filantropia performática’’. No Brasil ainda se usa horrenda sinonímia ‘sociedade’ para designar ‘alta sociedade’. Um ícone? Os elevadores de carga que diferenciam o ‘social’ pelos seres de ‘serviço’. Li um desses antropólogos de fim-de-semana dizer: ‘’por que esses jovens não pegam um livro??’’ Livro? Alma? Arte?  Estamos presenciando a morte das subjetividades: as pessoas são escolhidas alienadas  para sua forma de consumo, são objetos mais ou menos conformados com ‘padrões de existência’.

É preciso assumir que as drogas, o hedonismo vão, a idiotização de costumes são excrecências constitutivas desse capitalismo que também ! nos beneficia com a velocidade, conforto, fartura de escolhas de coisas e modelos de interagir com elas. Soluções? Restituir as subjetividades sobre

as ‘querências’ do invisível ‘mercado’, moldar o capitalismo à grau máximo de civilidade ainda possível e resgatar sentido de Utopia. O capitalismo é autofágico: ele mesmo vai se depurando. A violência é mais um produto de lazer para endinheirados ou escape aos destituídos : pode ser adquirida em gôndolas diluídas no cotidiano de indiferença com a miséria. Morumbi e Heliópolis, São Conrado e Rocinha: essa é geografia contígua do caos.

Segredo imediato: desaprender o aprendido, reinventar o novo e procurar ter menos filhos...

O cinismo é o ceticismo ainda esperançado.

 

 

[ Flávio Viegas Amoreira

Escritor