| Meiotom - Crônicas |
´´ CAIS
MATUTINO´´
´´
Mercado do peixe, mercado da aurora:
Cantigas,
apelos, pregões e risadas
�A proa dos
barcos que chegam de fora.
Cordames e
redes dormindo no fundo;
�A popa
estendidas , as velas molhadas;
Foi noite de
chuva nos mares do mundo.
Pureza do
largo, pureza da aurora.
Há viscos de
sangue no solo da feira.
Se eu
tivesse um barco, partiria agora.
O longe que
aspiro no vento salgado
Tem gosto de
um corpo que cintila e cheira
Para mim
sozinho, num mar ignorado.´´
Ribeiro
Couto.
´´Sentimento
Atlântico do mundo: nós litorâneos, temos o
Generoso
fado , o múltiplo destino do
cosmopolitismo:
Vivemos na
margem , dentro dela mesma, a margem do
mais
uterino, denso e sensualíssimo elemento
natural:
O
Oceano-Mar; além do cais, do porto, sigo a concepção atlântica da
existência: sigo os poetas do bom desterro:
nascidos
ou vivendo em atracadouros mágicos donde vão e vem todos homens
passando, trazendo e levando
encantamentos:
Santos é assim feito um entreposto conradiano,
uma New York de Walt Whitman, Lisboa de
Pessoa, Dublin de Joyce, Alexandria de
Konstatinos Kaváfis,
Trieste de Svevo,
Tanger de todos os imoralistas e
libertários: cidade-estado, porto-livre, berço pagão e panteísta
onde um vento noroeste faz a curva e embarcações refazem a Odisséia
de reinvenção de todos os sentidos. Ter vivido �a beira-mar é
privilégio que não me cansa em seu êxtase cotidiano: o Mar misturado
com a noite, o Mar e seus sons imprecisos, o Oceano que é Mar
ampliado além onde vivem todas as gentes,culturas
e costumes que batem em nossa vizinhança em cargueiros ou
transatlânticos: a maresia, nossa pequenez diante esse Deus
gozozo infininto,
a melancolia doce da chuva no Mar ao crepúsculo...
não sei se a contemplação me fez mais ou
menos poeta: mas seria outro artista sem dele ser amante bem e mal
correspondido. Escrevo como quem lança garrafas flutuantes que vão
dar um dia
´´
Chego, agora, ao inefável centro de meu relato; começa aqui
meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos
cujo exercício pressupõe um passsado que
os interlocutores comportem; como transmitir aos outros o infinito
Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca?quando
vi o Aleph vim, ao mesmo tempo, cada letra de cada página... vi no
Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi
meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei,
porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural cujo
nome usurpam os homens, mas que nenhum
homem olhou: o inconcebível universo. É a primeira letra do alfabeto
da língua sagrada. Para a Cabala, essa letra significa o
En Soph, a
ilimitada e pura divindade; também se disse que tem a forma de um
homem que assinala o céu e a terra, para indicar que o mundo
inferior é o espelho e mapa do
superior... por incrível que pareça,
acredito que exista ( ou tenha existido ) outro Aleph, acredito que
o Aleph da rua Garay era um falso Aleph.
Dou minhas razões. Por volta de 1867, o capitão Burton exerceu o
cargo de cônsul britânico no Brasil; em julho de
1942 , Pedro Henrique Urenha
descobriu numa biblioteca de Santos um manuscrito seu que versava
sobre o espelho que atribui o Oriente a
Iskandar Zual-Karnaun, ou
Alexandre da Macedônia. Em seu cristal refletia-se o universo
inteiro...´´ portanto a chave de todos os
segredos está ali mesmo no porto de Santos.
´´NERUDA´´
SANTOS
REVISITADO.
1-
Santos: É no Brasil, e faz quatro vezes dez anos.
Alguém a meu
lado convers ´´Pelé
é um super-home´´,
´´Não
sou um aficionado, mas na televisão eu
gosto´´.
Antes era
selvático este porto e cheirava
como
uma axila do Brasil caloroso.
´´Caio
de Santa Marta´´
. É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os
frigoríficos estabeleceram catedrais
de
belo cinza, e parecem
jogos
de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o
suor cresceram até criar as proas,
o
pavimento, as habitações retilíneas:
quantos
grãos de café, quantas gotas salobres
de
suor? Talvez o mar
se
encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita, faminta
sempre de café, sedenta
de
suor negro! Terra maldita, espero
que
arrebentes um dia , de alimentos, de sacos mastigados e de eterno
suor de homens que já morreram
e
foram substituídos para continuar suando.
2-
Aquele
Santos
de um dia de Junho, de quarenta anos menos, volta a mim comum triste
olor de tempo e bananeira, com um cheiro de banana podre, esterco de
ouro, e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os
trócipos me pareciam enfermidades do
mundo,
feridas
pululantes da terra. Adeus
noções:
Aprendi o calor como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi
os meses da Monção e a insensata
fragância
da manga de Mandalay ( penetrante
como
flecha veloz de marfim e face),
e
respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros
como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
3-
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde , o mar ou tua boca redonda
São, somos a
hora que desprendeu o então, e cada dia corre buscando aniversário.
4-
Santos, oh! Desonra do olvido, oh! Paciência
Do tempo,
que não passou
Mas que
trouxe barcos brancos, verdes, sutis
E o tremor
florestal se fez ferruginoso.
5-
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um
ponto e �as vezes ouço só um rumor de
marés ou abelhas: perdão se não pude e a tempo escutar essa
locomotiva ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de
aço
E que sobe
silvando entre constelações e temperaturas,
Perdoem
algum ia se não vi o crescimento dos edifícios
Porque
estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de
cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma e se armaram
de duras paredes, elevadores altivos, deixando-me fora na chuva,
olvidado nos anos ausentes, agora que volto de então tiro o chapéu,
e rio
Saudando
este grande esplendor sem desejo nem inveja:
Sentido-me
vivo como uma laranja cortada que conserva em sua metade de ouro o
intacto vestido de ontem
E no outro
hemisfério respeita o cimento crescente.´´
´´
INFÂNCIA´´
Corrida de
ciclistas
Só me lembro
de um bambual debruçado no rio
Três anos?
Foi em
Petrópolis.
Procuro mais
longe em minhas reminiscências
Quem me dera
recordar minha ama de leite
Meus olhos
não conseguem romper os ruços definitivos do tempo...
um pátio de hotel...brinquedos pelo chão
Uma casa
Um urubu
pousado no muro do quintal....
A chácara da
Gávea...
Boy, meu
primeiro cachorro
Não haveria
outro nome depois
Em casa até
as cadelas se chamavam boy...
O pátio-
núcleo de poesia...
O banheiro-
núcleo de poesia...
A alcova de
música- núcleo de mistério....
O piano de
armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas
A
volta a Pernambuco...
Véspera de
Natal... Depois... inesquecível !
A praia de
Santos .... corridas
em círculos riscados na areia: Santos, poesia dos naufrágios! As
marés do equinócio... Santos , o jardim
submerso...
Com dez anos
vim para o Rio.
Descobertas
das ruas!
Os avós
se foram, descoberta da morte.
Conhecia a
vida em suas verdades essenciais.
Estava
maduro para o sofrimento
E para a
poesia.´´
´´LIRA DO CINQUENTANOS.´´