| Meiotom - Crônicas |
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´´ Flávio de Carvalho, gênio esquecido´´
Flávio de Carvalho, engenheiro, arquiteto pioneiro do modernismo no Brasil, agitador cultural, artista plástico, pensador é das mais ´deleuzianas´ figuras que antecederam o pós-estruturalismo: o homem que afrontou a moral careta de São Paulo durante 50 anos viveu a revolta sem ressentimento : ´´resistir ‘a morte, ‘a servidão, ao intolerável, ‘a vergonha, ao presente´´ segundo Deleuze pode se encaixar perfeitamente ao Flávio de saias pela Barão de Itapetininga, o imoralista priápico, o mestre do traçado que imortalizou os últimos momentos da mãe: alguém que pranteava criando. A existência como ´´experiência´´ : Flávio era um projetista do futuro , um virtuose de novos moldes de expressão: Flávio era do caralho! Rizomático gozador que deitou sementes libertárias, mesmo que ainda não valorizado pela extensão e profundidade imanente de sua obra desconcertante. Acabei de ler a imensa e deliciosa biografia do bruxo de Valinhos escrita por J. Toledo: ´´Flávio de Carvalho, o comedor de emoções´´ ( Editora Unicamp/ Brasiliense ) , um amplo estudo que deve ser achado ainda em sebo ou nos sites de busca. Dessa obra-prima de pesquisa sai carregado de signos recheado de significados: Flávio antropofágico, Flávio regurgitofágico na linha dum Glauber ou Michel Melamed que o sucederiam, Flávio nudista, Flávio santista ocasioanal que descia a serra para visitar a futura ´diva´ Cacilda Becker, Flávio visionário do caos cibernético e do vazio de sentido que só seria vencido com Arte militante, cotidiana, Arte como modo de operacionalizar o Absurdo. A casa de Valinhos, as primeiras bienais, o conjunto edificado na Alameda Lorena, onde andará o pensamento de Flávio de Carvalho pelas ruas de Sampa? Como o mundo tornou-se reacionário e ´inapetitoso´ para quem curte horizontes multifacetados e a orgia de todas sensações ilógicas! Combatia o que mais fode nossa convivência cultural: ´´as panelinhas pegajosas´´ ; psicodélico já nos anos 30, Flávio foi dos nossos mais criativos artistas multimídias : quem sabe sua personalidade performática na tenha esfumaçado seu legado: como retratava descontruindo cromaticamente desde Jorge Amado ‘a Vinicius de Moraes! e com que arrojo elaborava croquis para construções nunca aprovadas. Seu esboço para o Paço Municipal de Sampa é digno de Fritz Lang : Flávio projetava como quem realiza concretamente ´´Metrópólis´´ ou ´´Blade Runner´´ . ´´Qualquer abertura para um mundo diferente é visceral e os mundos são muito importantes porque impedem a esteriotipação do organismo´´; todo universo como organismo deve re-inventar-se, como não ser um padrão estatístico numa sociedada cada vez mais idiotizada pelo consumo e pela burrice glamourizada? ´´O homem deve impedir o homem de se estragar na vertigem do mundo...´´ Flávio escandaloso por convicção, iconoclasta de todas liberalidades criativas, lacaniano sem o saber previa o homem cada vez mais pré-uterino e a mulher poderosamente fálica, foi definido em definitivo por Oswald de Andrade: ´´Sem óculos, só posso ver com os olhos da alma – e os olhos da alma, eu tenho sempre voltado para o antropófago Flávio de Carvalho.´´ Detalhista e polimorfo, intelectivo e emocionalíssimo,
segundo Murilo Mendes era um ´mix´ de Descartes com Lautréamont... Chegada a
hora de saudar Flàvio de Carvalho! São Paulo merece estar altura do seu
desejo juventude ainda movida por neurônios autônomos e sinapses poderosas capazez de sacudir esse trôpego planeta chamado babaquice conformista...
Flávio Viegas Amoreira Escritor / crítico literário flavioamoreira@uol.com.br |
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