Meiotom - POESIA & PROSA


´´HEATH LEDGER: O REINO DO AMANHô´

 

´´Tudo é capital.´´

´´Calígula´´, Albert Camus

 

 

Um filme de ação que inclui todos elementos de incerteza e desespero contemporâneos: assim é o último

´´Batman´´. Parece incrível que indústria do cinema exponha de modo tão surreal as mazelas dum mundo

que sucumbe ao consumismo e ‘a auto-destruição entorpecido por tentativas irracionais de redenção.

A corrupção entranhada nos interesses de oligopólios,

a economia desapegada de qualquer consideração humanística, o convívio antropofágico e ultracompetitivo nas metrópoles e o conformismo das massa alienadas são barril de pólvora ao pior dos horizontes: o niilismo, o momento em que a humanidade dará de ombros ao futuro e dirá ´´ mais nada a fazer...´´ Vendo Heath Ledger no papel do Coringa reporto a outros clássicos do bizarro ou patético: Charles Laughton no ´´Corcunda de Notre-Dame´´, Glória Swanson´Crepúsculo dos Deuses´´), Betty Davis (´´Baby Jane´´), Jack Nicholson (´´Iluminado´´) ou Anthony Hopkins (´´Silêncio dos Inocentes´´); Ledger  é magistral interprete do ´´Anticristo´´ de Nietzsche ou do ´´Homem Revoltado´´ de Camus. Profético momento em que o homem com rosto marcado de dor incinera pilhas de dinheiro roubado: Batman é super-herói fragilizado diante da onipresença de interesses mesquinhos e da ausência de utopias; só  o Coringa é capaz de colocar a nu a farsa das instituições, a impotência da Lei e as grandes corporações tomando lugar do Estado. A ambígua inteiração entre Bem e Mal e o fracasso dum projeto coletivo para o planeta são palco certo para Coringas aguardando o circo pegar fogo. Uma frase lapidar de Ledger, o palhaço das sombras: ´´A chave do caos é o medo.´´ Com o fim da guerra fria, convivemos não mais com uma hecatombe nuclear, mas vários estados paralelos, bombas sujas, conflitos pelo que resta de recursos naturais e o estilhaçamento do terror: a fobia é onipresente sem acordos bilaterais ou força de dissuasão ‘a anarquia. Quem negocia com quem? Qual última instância para tanta irracionalidade maquiada de ordem? As novas crenças servem ao bem-estar do indivíduo e sua prosperidade financeira: em cada esquina um bezerro de ouro é exaltado em nome da moral e da concorrência : as patologias agoram falam em Deus como drogas anti-desespero. O capitalismo é um fascismo em conta-gotas: o homem é livre só para querer! Não mais basta ser, nem mesmo ter, mas querer incessante. Quando todos ´desejarem´ querer, viveremos um cenário de ´´O Reino do Amanhã´´, livro premonitório de J.G. Ballard: ´´Os subúrbios sonham com a violência´´, diz esse mestre da ficção que antevê totalitarismo para conter a desordem numa sociedade sem perspectivas de compra ‘as suas inutilezasHeath Ledger ganhará o Oscar póstumo como ícone duma juventude sem rebeldia: vejo nos que chegam só desmotivação e desassistência. Ballard luta contra um câncer legando

um documento sobre um mundo perigoso e transtornado.

Nessa passagem de ano as comemorações em Paris não tiveram luz e fogos de sempre: os afortunados temiam distúrbios das periferias. Vendo Heath Ledger e o sorriso deformado volto ‘a Albert Camus e o que sobrará para essa nossa ´´Gotham City´´: ´´revolta absoluta, insubmissão total, sabotagem como princípio, humor e culto do absurdo´´.  O caos só será vencido sem a cínica gargalhada do medo: Heath Ledger merece estatueta dourada do paraíso. Os visionários não passam do Sinai.

Cultura pop ou erudita me dizem o mesmo: o ser humano parece programado para sua auto-destruição.