Perdi um pedaço: a morte de Debora Kerr faz evocar o tanto
sentido como menino sensível que se fez escritor na confluência da
Poesia com o Cinema. Hoje aqui nesse porto de memórias transporto-me
à um transatlântico em ''Tarde demais para esquecer'' marcando
encontro com o dândy Cary Grant no '' Empire State
Building'': ao som de Nat King Cole espreito New York desolada
com a despedida
da elegância em forma de damas: a sofisticação é 'cool' e
Debora Kerr era
'cool' e 'cult' em concomitância. O beijo em Burt Lancaster foi
escândalo e hoje é epifania: um 'rosebud' de todos amores possíveis
, malditos, proscritos tendo o Mar como gozoza testemunha: Debora
Kerr era lenda gêmea de outro beijo:
Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em ''Um lugar ao sol'': 2
amassos míticos:
o que a ópera foi para o século XIX, o cinema representa
para nossa contemporaneidade: deuses laicos hollywoodianos. Gerações
absortas assistiram
Henry James filmado :"''Os inocentes'' fez de Debora Kerr
aquele que nos protegia,
uma preceptora para nossos terrores, um ícone de feminilidade
doce e densa:
a dama do Sião, a partner de Yul Brinner... ao nosso idioma
rico e irreverente a diva deu música de Rita Lee no escurinho do
cinema e um trocadilho infâme:
''se a Debora Kerr que o Gregory Peck...'' assim como são
maravilhosamente ridículas as cartas de Amor segundo Fernando
Pessoa, são deliciosos os trocadilhos infâmes... o anúncio de sua
partida fez-me mudo: escrevo célere como quem toca de ouvido: ainda
me recordo duma fita esquecida da década de 50 em que me senti na
pele de um sensibilíssimo menino repudiado pelo colegas por ser
'diferente' : a mestra tolerante,compreenssível era Debora
Kerr...ela era a mulher
que gostaria ter me conduzido nos percalços da juventude entre
amores interditos, desejos wildeanos e excesso de sensibilidade:
Debora Kerr vivia entre mim... é signo de sutileza e afeição. Ainda
voltarei ao Empire State para esperá-la e saber que nada é em
vão.
Flávio Viegas Amoreira
escritor, poeta e crítico literário