Meiotom - POESIA & PROSA

´´LOUCO´´

 

(Hora de delírio)

 

´´Não, não é louco. O espírito sômente

É que quebrou-lhe um elo da matéria.

Pensa melhor que vós, pensa mais livre.

Aproxima-se mais ‘a essência etérea.

 

Achou pequeno o cérebro que o tinha:

Suas idéias não cabiam nele;

Seu corpo é que lutou contra sua alma,

E nessa luta foi vencido aquêle.

 

Foi uma repulsão de dois contrários:

Foi um duelo, na verdade, insano;

Foi um choque de agentes poderosos:

Foi o divino a combater com humano.

 

Agora está mais livre. Algum atilho

Soltou-se-lhe do nó da inteligência:

Quebrou-lhe o anel dessa prisão carne,

Entrou agora em sua própria essência.

 

Agora é mais espírito que corpo:

Agora é mais um ente lá de cima;

É mais , é mais que um homem vão de barro:

É um anjo de Deus, que Deus anima.

 

Agora, sim , - o espírito mais livre

Pode subir ‘as regiões supremas:

Pode, ao descer, anunciar aos homens

As palavras de Deus, também eternas.

 

E vós, almas terrenas, que a matéria

Ou sufocou ou reduziu a pouco,

Não lhe entendeis, por isso, as frases santas,

E zombando o chamais portanto: - um louco!

 

Não, não é louco. O espírito sômente

É que quebrou-lhe um elo da matéria.

Pensa melhor que vós, pensa mais livre,

Aproxima-se mais a essência etérea.´´

-poema de Junqueira Freire.

 

Vinte anos de desativação do manicômio Anchieta pela então prefeita Telma de Souza, pioneiro projeto de humanização na luta anti-manicomial no Brasil. Telma, ícone libertário santista ao lado do ex-prefeito David Capistrano, então secretário de Saúde de Santos, foram heróis da resistência e desmonte do horror psiquiátrico do Anchieta.

 

Texto de  Flávio Viegas Amoreira.

 

[ os pavilhões do Anchieta soam em minha memória como acúmulo de seres feito minerais na condição desumana de sua bruteza / sob o lume do sol tornaram-se flores de frutos desde que o grão não morra... a solidão daquilo normatizado ´loucura´ é mais poderosamente criativa que a esterilidade da solidão dos falsos amores:

Poeta e louco caminham unidos : sinônimos ,ambos acalentados pela mão da Arte. Anchieta era um bicho-papão de sensibilidades, uma advertência ancestral paralela ao pau da arada da ditadura: ´´Se não te enquadas, vais ao Anchieta´´-  passado o horror as ´diferenças´´ tem tratamento meigo ou hilário: você aí, é goiaba ou 13.... ´´diferente´´ é eufemismo que cai como um tesão melódico aos meus ouvidos... não esqueçamos que só a 17 anos a homossexualidade foi tirada pela OMS como patologia , transtorno mental.... eu sei do que digo, não estive no inferno, mas o conheci e extirpei ele de mim... é longa a trajetória para o ser torna-se humano ... sigamos resistindo aos preconceitos travestidos de caretice e bom-mocismo ]

´´Delírios extremus

Corpos famélicos

Mutilações programadas pelo pentágono

Estilhaço de gente / muros infames de Gaza ‘a Rocinha

Florestas desertificadas / troncos ocos

Os gestos da sociedade não correspondem aos fatos do mercado / incoerência pública / imundície socialite

Asco socialético / burguesia insana : tuas piscinas jazem carcomidas por ratos / hippies / beatniks cazuziemos em cruz

 loucos todos anunciam o Deus legítimo de gozo e desejo libertário: os loucos não herdarão terras abstratas : já vivem na imanência concreta do sonho ; Van Gogh, Nietzche, Niijinsky , Antonin Artaud: todos loucos anunciam e dizem serem  Deus:  a loucura é excesso de sensação / orgasmo de todos os sentidos / orgia da Alma com o infinito :

Tu burguês careta psico-farmaco / não imponhas sensatez : sensato é o bacanal onírico ;

Impossível lucidez para quem já foi roubado da ilusão de ser feliz / a consciência suprema dum louco é quando poeta anuncia ser o cosmo já a galope trazendo na aurora a luz rompendo pelo horizonte ...

Todos os muros ponham abaixo : o Anchieta é um símbolo em cruz / chaga inapagável / saúdo-te Nise da Silveira / Michel Foucault/ Telma de Souza/

  ponham abaixo malditos manicômios imperialistas /

capitalistas homofóbicos / nazismo em conta-gotas /

ponham abaixo manicomios farpados de arame dourado : deitemm ao chão os torturadores  de Wall Street ‘a Guantánamo.

 

Flávio Viegas Amoreira, escritor iconoclasta.