| Meiotom - POESIA & PROSA |
´´ A CIDADE E O UNIVERSO DE MENDES´´
´´Beleza é verdade, verdade beleza´´
Keats, poeta inglês
Lá se vão 8 anos de convívio quase diário com Gilberto Mendes. Alguns encontros são imposições do que chamam destino; mesmo com advento da internet, minha solidão intelectual em Santos , uma solidão muita específica de artistas, seria fatal se não fosse essa aproximação com o mais inovador e internacional conterrâneo. Já tinha lançado 2 livros e o admirava desde adolescência: convivendo no círculo intelectual da inesquecível Valéria Álvares Cruz, conheci um casal de médicos humanistas e igual voracidade cultural : Beatriz Arnaldo e Virgilio Aguiar, amigos preciosos que fizeram essa ponte que perdura. A vida é por vezes uma prova de bastão: surgem anjos como os de Vittorio De Sica ou Win Wenders que nos levam ao caminho intuitivamente pretendido. Predestinamos virtualmente nossos intuitos, quando sensíveis alcançamos nossa essência, o ´self´ definidor. Gilberto identificou 2 influências básicas em minha escritura: Haroldo de Campos, seu grande companheiro concretista e James Joyce e hoje reconhece certo espanto com minha iconoclastia libertária ou imoralismo estético. O maestro tem exatamente o dobro de minha idade e uma personalidade díspare do meu temperamento: Gilberto é de uma tolerância e serenidade monásticas diante da ignorância e sábia moderação , tão distantes de minha inquietude apaixonada e agressividade boêmia com os medíocres. O que une é nossa profunda Fé laica: a Alta Cultura e o mesma vontade de criação incessante : Música Erudita e Literatura ligadas ao cinema, ao jazz, ao poder místico da Arte. Essa imanência miraculosa ele define de modo tocante em seu novo livro ´´Viver a Música´´: ´´Se Deus existe , só as obras de arte e do pensamento criativo podem ser manifestações de sua existência´´. Esse novo volume de suas reflexões são monumento da memorialística, documento raro de intelecção e emoção, informação e sensibilidade.Em ´´Viver a Música´´ revejo muito de nossas paixões partilhadas: o sentimento atlântico e libertário do mundo, o mesmo socialismo cósmico, Schumann, Bergman, Barthes e Clarice Lispector, que convenci ser sua autora de cabeceira. Conteúdo sofisticadíssimo divagando entre Nova York de Woody Allen e São Petersburgo de Tchaikovsky disposto num tom de deliciosa coloquialidade: como uma obra musical e agora literária tão inventivas e densas são compostas por um homem tão generoso e despojado? Diz Wilde, que o objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista: ´´Ulisses em Copacabana´´ que poetizei nos ´´Cantos da Costa´´ demonstram esse paradoxo entre o mais importante compositor brasileiro vivo numa rotina bucólica em Santos, terra que ainda deve fazer muito para merece-lo. Gilberto é hoje elemento que se naturaliza feito vento noroeste, um cartão-postal que universaliza o litoral paulista num raro mimetismo telúrico: é força da natureza. Ícone, monstro sagrado, sem desssacraliza-lo tenho noção de sua inteireza: humaníssimo, demasiado humano. Gilberto é Santos luminosa, libertária: eterno! a outra Santos careta e reacionária, citando mestre Paulo Francis: desponta para o anonimato... Mendes é Santos encarnada : oceânico. Somos como Stravinsky e Auden: diferentes, mas complementares. Benção fraterna.
´´ VIVER A MÚSICA´´
Lançamento Edusp / Realejo Livros