| Meiotom - POESIA & PROSA |
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flávio amoreira viegas
‘’ O TEMPO QUE RESTA ‘’ Um filme ou livro
que nos redime do desencanto são chaves que carregamos sempre para
confrontação com as sombras: lembro ter assistido ‘’O Tempo que resta’’ de
François Ozon por 4 vezes e em DVD ele se torna fita de cabeceira. Admiro
a civilização francesa que trata do tema fundamental que o capitalismo e a
futilidade tentam driblar : a Morte. Uma trama simples, enredo conciso:
fotógrafo no auge da beleza ( franceses conseguem ser concomitantemente
belos e profundos ), ligado ao mundo ‘fashion’ e gay ‘cult’ descobre ter 2
meses de vida: o mundo não desaba, ele se liga ao essencial que passava
despercebido e se integra ao mais divino elemento natural: o Oceano, o mar
tão uterino símbolo reflexo do infinito . Transponho o drama íntimo do
personagem para o mundo que vivemos: explosão demográfica em países
miseráveis, a ausência descarada de
medidas que evitem o apocalipse ambiental que bate à porta e a
glamourização da estupidez com ares de pretensa sofisticação. Enquanto o
planeta pede socorro, a China se americaniza implodindo milenar sabedoria
com os excessos do luxo, a América está mais preocupada com torrar
petróleo que com efeito estufa,enquanto no Brasil a burguesia emergente
revive
tardiamente hábitos caretíssimos: já que não lê ou pensa, diverte-se entre
festas de debutantes ou degustação de vinho como escape substitutivo do
seu vazio e decadência intelectual. Nunca me passou pela cabeça que jovens
urbanos fossem se ligar em música sertaneja. A vida inteligente se fecha
em guetos, a solidão cultural e espiritual serão fardo kármico para
aqueles que ainda pensam, interagem cosmicamente
e não seguem o
rebanho em direção à manada do mercado e da artificialidade.
Diante do inevitável desaparecimento pessoal ou coletivo, mais que
nunca devemos agir, encantar o momento, vivenciar paraísos terrenos e
fazer do cotidiano a utopicamente real poetização da existência. Uma das
cenas mais fortes em ‘’O tempo que resta’’ é a despedida entre
protagonista e a avó espiritualmente sofisticada: Jeanne Moreau encarna
todo ceticismo e resignação com uma sociedade tão desumanizada e
convencional. Inesquecível a
célebre entrevista que essa admirável Jeanne Moreau fez com a já então
centenária diva do cinema mudo Lilian Gish: perguntando à atriz americana
qual melhor legado que deixaria para um filho ou à qualquer jovem querido,
essa deu resposta antológica: ‘’ a melhor herança é curiosidade, interesse
profundo’’. Desanima ver que a leitura dos jornais tornou-se hábito para
adultos, profissionais liberais sem nenhum conteúdo além de suas
especialidades e uma geração que cresce despolitizada, sem compaixão
social e inebriada pela ascensão material. Cultura é a libido da Alma:
enquanto fixados na superfície do besteirol, os alienados ou reacionários
travestidos de ‘descolados’ tornam-se impotentes diante das verdades
eternas: viver como aprendizado ao desenlace, o desapego, a elevação
através da Arte como religião laica, a observação do espetáculo que o
horizonte no crepúsculo apresenta como metáfora do adeus... Para um
libertário confesso, desprovido de preconceitos, já que
todo preconceito é burro, só ela mesma a burrice ornada de falso
brilhante ainda incomoda. Assistir à ‘’O tempo que resta’’ me comove como
ler Dostoievski fechando o belíssimo conto ‘’Noites Brancas’’ : ‘’Um
minuto inteiro de felicidade! Mas não é bastante para toda uma vida de um
homem’’? Persisto retendo
o instante, questionando o fugaz. Apesar da descrença na redenção, existe reposição de estoque: ainda surgem anjos que iluminam o tempo que resta... esses que nos movem fazendo amanhecer por dentro. |
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