Meiotom - Contos


 

título

flávio viegas amoreira

  

‘’MELANCÓLICO QUERIDINHO’’

 

`a Rufus Wainright.

 

‘ Comecei ouvindo ao ter notado numa faixa de ‘’ Moulin Rouge’’, - ouvia e ouvia forte pista de ter gostado. Vou procurar CD solo...Ouvir outras faixas desse mesmo vozeirinho. Balada pop para caminha chuvoso sozinho procurando, procurando, procurando até tornar ouvindo só em casa num estreito entre-livros. O poeta cantador é branco e mais ainda com artifício meigo leitoso de Emily Bronte. Frágil single dos ventos uivantes; pálido como ano de 2005. 18 de setembro : centenário de alguma melancolia que deu rosto até esse novo século presente. Ruffus tem algo de Garbo: clarinho fenomenologista. Toda noite ganhava do astro canadense um e-mail. Conhecera num chat resfriado, - era lento e lento num inglês canadense. No Brasil, só ouvira rapazes da Barra e meus luares de Santos. E então contava ele de Machado e de Clarice, morando em Vancouver ou Gutemburgo, pouco importa se estamos no cyberespaço, pouco importa quem vive como eu num porto transaatlântico. Estando sempre a beira da fuga, pensava no melancólico queridinho, - pé no Oceano. Ouvia canção de como ser ‘entendido’ escondido de muitos. Sabor de iniciado, entendido sorvendo gesto dândy de quarto e sala, clássicos acetinados e cadeiras redobráveis levada de navio cargueiro. Escritor hermético tc. astro cult. Queridinho melancólico: vivia com um só conceito englobando todos juntos: ter pena do mundo amando todos em silêncio. Apartir da compaixão militante, adviria comicidade dominante e esterilidade física: pouco sexo e muita arte! Fazer arte era com a gente:

escritor hermético tc. astro cult. Voltaria ao Brasil incógnito para conhecer-me ( não seria difícil sendo ele raro ). Dizia sempre : tenho pena do mundo, mas compunha com dó. Imaginar era conosco: sentar de bruços, ler. Lautreamont, nos viciando em cappuccino, comemorar as bodas com Buda, ver e rever ‘’Laura’’ inumeráveis vezes. Grande contrato em gravadora, entrevistas esparsas, fotos enigmáticasa, shows intimistas no ‘’GoldRoom’’ de alguma GranVia. Mal saberiam na província dos pampas ou piratiningas ter um amigo brasileiro. Escritor obscuro tc. astro cult. Meu queridinho melancólico. Tímpano assovia: ‘’Cigarettes and chocolate milk.’’ Pena do mundo... Orfeu desce ao som da lira. Canhestro. Fraseado sóbrio: palavra só.’

 

 

-         Conto do livro ‘’Contogramas’’ de Flávio Viegas Amoreira , escritor santista da ‘’Geração 00’’ ; editado pela 7 Letras em 2005, dedicado à Rufus Wainwright, faz parte de Antologia Gay traduzida para o finlandês.

 

 

flavioamoreira@uol.com.br