Meiotom - Crônicas


 

O grande nascimento

Francisco Carneiro da Cunha

      Há dois mil anos o poder de Roma deixava a condição de República para passar à de Império e, assim, impor sua vontade aos povos mediterrâneos até a Bretanha, ao norte, e, a leste, a Palestina. A oeste o indevassável Atlântico e, ao sul,  o Egito com os desertos africanos. Otávio, o primeiro dos monarcas pela graça divina, por isso Augusto, reinou mais de trinta anos. O Oriente lhe escapava, mas todo o Ocidente ficou sob o jugo da águia romana e de suas legiões. Só cerca de quatro a cinco séculos depois esse edifício desmoronou para dar lugar ao poderio cristão sob a égide da Igreja católica. Por sua vez e em dezessete ou dezesseis centúrias, o cristianismo conquistou todo o planeta, se não direta, então indiretamente pelas mãos da burguesia nascida, criada e educada em seu solo. E nesse capitalismo cristão maniqueísta até hoje estamos.

            Não obstante, se Roma reinou ainda alguns séculos após o assassinato de Júlio César, o fato é que quando o seu imperialismo surgiu o mundo civilizado gerado a partir do Crescente Fértil, portanto parte íntegra da Eurásia, era uma realidade cerca de quatro mil anos mais velha que os filhos da loba, realidade exangue em seus valores, deuses e culturas. Chegara novamente a vez da grande poesia popular e de seus magnos poetas imortalizarem o indispensável novo homem que, como a fênix belíssima, renascia do velho nessa privilegiada região entre Leste e Oeste. Quis a história que tal canto soberbo brotasse entre hebreus, um dos povos mais perseguidos da antiguidade e então sob o jugo romano, quiseram seus bardos geniais que o Filho do Homem fosse um carpinteiro judeu da Palestina com o nome bem comum de Jesus, um Zé qualquer no Brasil de agora fadado a salvador dos homens, o Cristo ungido.

            Claro, o personagem central do Drama da Paixão de Mateus, Marcos, Lucas, João e apócrifos devia ser pobre e humilde de nascimento para poder representar a maioria oprimida e explorada dos povos, além de supremamente miraculoso: curador de cegos e paralíticos com a simples imposição de suas mãos, aquele que da água tira vinho e com cinco peixes e cinco pães sacia a fome de milhares, homem que anda sobre as águas e perdoa pecados, amigo dos pobres e das prostitutas, protetor das crianças, ressuscitador de gentes e de si mesmo, o que cercado de anjos levita às alturas em direção aos céus onde o aguarda um trono de glória ao lado de seus amados pais amorosos.

 

Fé inquebrantável

Homem de fé inquebrantável, porque o seu amor é sempre universal, ele devia sofrer a tortura dos fariseus e a barbárie dos poderosos, a incompreensão de seus mais próximos companheiros, a perseguição e o escárnio do próprio povo. Chorar lágrimas de sangue, experimentar a mais atroz solidão. Para, só depois, quando já se prepara a retornar à casa paterna, dando por findo esse novo retorno a Itaca, poder enfim com a sua luminosa mensagem penetrar no mais fundo da alma e do espírito das pessoas que amiúde deles têm horror como correm de suas verdades.

            Pouco mais de três séculos foram necessários para que os descendentes dos fundadores do novo homem o traíssem completamente com a sua chegada ao poder de Estado sob Constantino e Teodósio no século 4º. Mas, óbvio, só depois de havê-lo inteiro deformado. Nada pacífico esse histórico processo, tudo feito a ferro e a sangue. Apagara-se a estrela que trouxera os reis magos à gruta de Belém. Tudo o que fora excelsa poesia dramática, ficção genial, fez-se documentário e biografia da mais baixa qualidade artística, uma verdadeira e legítima merda sob os auspícios da Igreja católica, primeiro, em seguida da protestante e espírita. Sua palavra-de-ordem é: abaixo a imaginação e a grande arte, viva o medíocre olhar unicamente literal sobre as coisas e os homens, sobre os deuses e o mundo!

            A visão e o andar dos cegos e paralíticos do Evangelho deveriam ser, a partir de agora, coisas de bruxos e hereges ou da medicina futura, senão de santos do pau oco ou de ETs, nunca mais a pura beleza levando as gentes a enxergar seus próprios corações e vivenciarem seu inato poder criador carismático conduzindo à catarse purificadora, algo que o homem ocidental reencontrara séculos antes para fazer frente à morte do homem antigo. Qualquer transubstanciação da água em vinho um processo pseudo-científico de circo de cavalinhos, jamais a simples água da vida eterna que só a grande arte sabe nos ofertar. A fome dos comedores de peixes e pães um predicado unicamente do estômago, em hipótese alguma a nossa fome do sagrado cuja ausência nos mata todos os dias um pouco mais. Água devia ser ela mesma e não o símbolo encantado do inconsciente sobre o qual todo verdadeiro artista deve andar para poder criar o personagem. Perdoar pecados passou a ser uma sufocante prisão algemando a pessoa ao poderoso religioso, depois ao terapeuta, porque a ignorante projeção de nós mesmos sobre eles, jamais e novamente esse poder maravilhoso que temos de criar a partir de nosso âmago o homem todos os dias. Deixamos de ser amigos dos pobres e prostitutas e protetores das crianças porque é tudo levado ao pé da letra burramente, sobretudo deixamos de dar vida às gentes a partir de nosso próprio ressuscitar, pois a morte só é morte física mesmo e a vida tão somente a que vai do berço ao túmulo sol após sol para que façamos unicamente o que necessitamos materialmente para habitar esse vale que nunca como hoje foi de tantas lágrimas e de tamanho ranger de dentes. Assim, quem pode levitar às alturas para chegar a Deus? Ninguém.

            Para as religiões, Jesus Cristo satanás deixou de ser a representação infantil e poética do universal inconsciente sendo inventado pelo eterno poder criador do homem, ao qual o ego personalista deve servir benévola e totalmente. Deixou de ser a consciência produtiva a serviço da consciência criadora, a vida terrena a serviço da vida eterna. Deixou de ser tudo isso e muito mais para tornar-se um horror levando os homens ao desespero por não poderem encontrarem-se a si mesmos ou a atroz imitação de gangsters sem piedade e consciência macaqueando-se em seus palcos de nada e coisa alguma.

            Nem dia 25 de dezembro de 2002, e muito menos nos anos e décadas posteriores, precisamos comemorar o nascimento desse simulacro de salvação posto em dia pelas igrejas há já muitos séculos com o fito de tiranizar os homens, senão e urgentemente inventarmos novamente a nós mesmos a partir da alegre disposição ao sacrifício da cruz, sacrifício da personalidade egocentrada correndo atrás de fama, poder e dinheiro.

            É preciso que dentro de nós renasça o Filho do Homem graças à grande arte!