| Meiotom - Contos |
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Samsara |
Pedro Franco |
Sentiu o perfume ao entrar no apartamento. E não era a primeira vez.
Como se ela tivesse voltado. E naquele apartamento agora só entravam ele e a
faxineira. Pensar que Esmeralda, a velha faxineira, pudesse usar Samsara, era de
fazer rir. Afrouxou a gravata, tirou os sapatos e, sentado no sofá, ficou
olhando o retrato que desenhara. Era ela. Parecia vê-la tirar o celofane da
caixa de Samsara e abrir o perfume. Usava seu "jogging" branco, depois
que passara a roupa a ferro para secar e então pôs o perfume. Ele preparava um
prato de massa. O apartamento era sala e cozinha conjugados, quarto, banheiro e
ele podia cozinhar e vê-la. Era linda, mas só a reconhecera depois que se
secou e vestiu seu "jogging". Antes, toda molhada na rua, só percebeu
que era bonita e que estava tentando trocar um pneu. Tinha vindo ver a mãe,
andou depois com o carro três quadras, o volante começou a puxar para o lado e
viu que o pneu furara. Ainda tentou ir adiante, mas teve que parar quase em
frente ao seu apartamento. Uma porca estava mal atarraxada e ele também custou
a soltá-la. Depois foi fácil, mas os dois já estavam inteiramente molhados.
Daí ao apartamento, a secagem da roupa, calça jeans e camiseta e uso do seu
"jogging". Tomaram um uísque "cowboy" para aquecer e ele
preparou um prato de talharim. Comeram e a roupa dela estava quase seca. Na
sobremesa e ele tinha pêra e maçã, ela contou que não fora visitar sua mãe
de verdade. Ela era órfã e Dona Stella apanhara-a no asilo, quando tinha três
anos. Disse, rindo, que Dona Stella descrevia-a como uma criança magrela, olhos
enormes e pescoço esguio. Os olhos continuavam radiosos, o pescoço esguio e
quem já não a tinha visto em capas de revista, ou em propagandas? Estava com
vinte e seis anos, mas parecia menos e tinha o mundo aos pés. Paris, Londres,
Roma, desfiles, capas de revistas, um metro e setenta e oito, radiosa. Viera ao
Rio para as fotos de uma campanha de perfumes e a televisão queria-a para uma
mini-série. Levou-a até o carro e deu-lhe o número do seu telefone, se
tivesse o azar de furar um segundo pneu no caminho de volta para o Jardim Botânico.
Ele guardou o invólucro da caixa do Samsara. O "jogging" durante
muito tempo guardou a fragrância. Arrumou o apartamento, pensando que se ela
telefonasse, correria para salvá-la. Meia hora depois telefonou para dizer que
chegara bem e agradecer. Iria dormir, que estava morta de sono, pois a sessão
de fotos do dia fora cansativa. Ninguém iria acreditar que Sigfrid Fowles e
chamava-se mesmo Ana Chaves, estivera em seu apartamento naquela segunda-feira,
usara seu "jogging", comera com gula seu talharim e fora. Nada de romântico
ocorrera. Nada. Aperto de mão, mão firme. Mas ele custou a dormir. Pensou
muito nela naquela semana, mas nada comentou. Viera de Belo Horizonte para
tentar vencer no ramo da propaganda. Desenhava bem e em três noites seguintes
ficou desenhando Sig. Mas, vencer na agência, estava difícil. Uma agência de
propaganda de renome, muitos gênios e ele tendo idéias, que não eram
aproveitadas. Na sexta chegou ao apartamento, depois de ir ao clube fazer ginástica
e na secretária eletrônica, para disparo do coração, havia um recado de Sig,
pedindo para telefonar, quando chegasse e deixou o número do seu telefone, que
ele nem tivera coragem de pedir. Falara menos do que devia e ouvira muito. Ligou
logo de volta e foi convidado para levá-la para ver Fernanda Montenegro em
"Dona Doida". Ela ganhara duas entradas e pensara em convidá-lo. Ele
já tinha visto a peça? Disse que não e marcou hora para apanhá-la em casa. Já
aprendera na agência como se vestir. Fingir despojamento. Ela também estava
simples, simples e linda, linda como sempre. Tratava com deferência seu par e só
para ele parecia ter olhos. E todos olhavam. No teatro, na casa de massas e foi
visto por um dos donos da agência, que veio até falar-lhes. Nunca foi tão
efusivo, comentou depois que o dono despediu-se. Quem sabe agora continua assim,
ela respondeu e riu. E nesta noite ele falou mais um pouco. Era boa ouvinte também.
Pediu-lhe que a levasse ao Maracanã para ver o Fla-Flu. Ao cinema na terça e
reprisavam "Amacord" e ela não vira. Ele viu pela quinta vez e nunca
Fellini pareceu-lhe tão romântico. Na quinta-feira foi convidado para jantar
com Dona Stella. Naquela semana duas das suas idéias, que estavam mofando na
gaveta de um dos donos, foram aproveitadas e começou a ser visto com outros
olhos na agência. Vários colegas vieram brincar com ele, por estar saindo com
Sigfrid Fowles. E então foi apresentado como namorado à Dona Stella. Ela fora
professora primária, mas agora estava inválida e vivia em uma cadeira de
rodas. Locomovia-se por todo o apartamento, que Sig mandara adaptar. Jantaram,
conversaram e estavam de mãos dadas. Na saída Dona Stella, que fora muito
gentil, despediu-se dizendo que ele não devia se apaixonar muito, pois sua
filha só namorava um de cada vez, mas não tinha amores eternos. Sig riu e
recitou Vinicius, eterno enquanto dure. Convidou-se para seu apartamento e
dormiram juntos. Entendiam-se em todos os sentidos. Ela estava com seu carro e
depois do café da manhã foi-se. Jantariam juntos. Deixou no apartamento seu
aroma Samsara e repetiu após um longo beijo de despedida, ao ouvir que ele a
amava, que seja eterno enquanto dure. A noite perguntou porque Dona Stella
dera aquele aviso. Riu e disse que a mãe era uma pessoa adorável, mas
tradicional. E queria vê-la casada logo, mas com sua profissão, não parando
em uma cidade, tudo ficava difícil. E que ele não esperasse amor eterno, mas
prometia e falou muito séria, total fidelidade e que a exigia em contrapartida.
Para que ela lhe pedia fidelidade, se olhos não tinha para outras? E, já que
estavam falando com seriedade, por que ela escolhera-o, perguntou. Respondeu que
saíra de uma relação com um repórter, que foi transferido para São Paulo, não
por esta transferência, mas porque não dava certo e achei-o lindo molhado,
depois muito educado e sabendo fazer um talharim muito gostoso. Viveram juntos,
cada um em seu apartamento e o dela era luxuoso, oito meses. Ele subiu na agência,
galgou rapidamente lugares de destaque, muitas mulheres passaram a assediá-lo e
sem sucesso. Ficava incomodado ao sair com Sig, pois todos os olhos convergiam
para eles, para ela e mesmo fotografavam. Virou matéria de colunas sociais e de
mexericos, fato que o incomodava. Tiveram semanas de separações, face aos
compromissos de Sig na Europa. Conseguiu uma campanha, a ser feita em Paris e
passaram duas semanas maravilhosas. Sig continuou meiga, dando-lhe toda a atenção,
nunca o deixando em posição difícil, rebatendo à altura qualquer tipo de
aproximação. Não gostava muito de sair, para desespero do seu agente. Até
que avisou, que teria que passar vários meses em Hollywood, pois o cinema
americano descobrira-a, depois de vê-la na mini-série brasileira e acenava-lhe
com um contrato milionário. Ele sentira ciúmes, ao vê-la beijada na mini-série,
mas teve que rir, quando ela confessou que tinha que tomar um remédio para enjôo,
antes das cenas de beijo, pois o galã tinha um terrível mau hálito. E na véspera
de viajar para Hollywood, no pequeno apartamento do Grajaú, que ela pedira para
ele não trocar, depois de tirar o "jogging" branco, tomou-lhe as mãos,
disse que ele era um amor, que o amara intensamente como a nenhum outro, mas que
tudo se acabava ali. Que nunca lhe fizera promessas e esperava que não tornasse
tudo mais difícil. Que lutasse por esquecê-la e que fosse muito feliz. Que
agora ele já era um nome na propaganda e que tinha muito orgulho dele. Mas
queria ir para Hollywood sem compromissos. Ele quis falar, mas ela colocou-lhe
os dedos nos lábios, sentou-o no sofá, soprou-lhe um último beijo nos longos
dedos e tinha os olhos molhados, quando saiu, fechado a porta e levando a chave.
Deixou como marca seu perfume. Ela antecipou a viagem e partiu horas depois para
Hollywood e ele não teve outra chance de falar-lhe. Sigfrid Fowles era agora
uma estrela completa e em meses a imprensa anunciava que namorava um diretor de
cinema francês, depois um galã americano e ele acompanhou sua vida pelas notícias
da imprensa. Nenhum dos dois escreveu, ou comunicou-se. E agora, um ano depois,
voltava ao seu apartamento o Samsara. E logo quando estava tentando
interessar-se por alguém. Para ser absolutamente verdadeiro, forçava um
interesse por uma jovem médica, que o atendera quando quebrara o braço. E,
como a vida dá voltas, teve que ir a São Paulo para organizar uma campanha de
lançamento de um automóvel. E conheceu o repórter, que o tinha precedido com
Sig. Era um tipo extrovertido e em uma festa perguntou-lhe que perfume Sig
usava, quando namorou. Ele fez cara feia e não respondeu, quando o outro riu e
tornou a perguntar se o apartamento agora, um ano depois, estava tendo o mesmo
perfume. Ele continuou quieto. Ela abriu um vidro de perfume no primeiro
encontro? No meu apartamento foi Dune e usou-o sempre. E no seu, perguntou de
novo. E você deve estar começando a se interessar por outra moça agora,
afirmou. Como sou jornalista, saí indagando dos ex-namorados de Sig e no Brasil
fomos eu, você e mais três. Ela fica com as chaves dos apartamentos, paga
regiamente as faxineiras, com quem fizera amizade durante o namoro e dólares não
lhe faltam e elas, em dias que não eram de faxina, voltavam e colocavam no
apartamento o perfume. Dune, Chanel 5, Amarige e um quarto namorado negou-se a
dizer o nome do perfume. Disse que ia fazer uma reportagem, uma espécie de
forra e queria saber o nome dos cinco perfumes, para colocá-los na reportagem.
Ele negou que houvesse um perfume e disse que com ele fora diferente. O outro
ainda rindo e estava meio alto, disse que então ela não gostara dele e que ele
nem ia sair na reportagem. Era isto que desejava. Acedeu, disse que uma outra
mulher esperava-o e saiu da festa. Ainda conseguiu dizer que com Sig tivera
apenas um flerte e o resto era conversa da imprensa. Voltou ao Rio e pela
primeira vez teve coragem de visitar Dona Stella. Ela recebeu-o bem, foi
carinhosa e ele contou-lhe tudo. Ela disse que não sabia da história dos
perfumes em outros apartamentos, só sabia e há uma semana, do Samsara no seu.
Mas era bem possível que a filha fizesse aquilo também nos outros
apartamentos. Apanhei-a no asilo aos três anos e ela já tinha sofrido muito.
Era uma criança magra e triste. Dei-lhe o amor que pude, mas sempre ficam
recordações e problemas. Avisei-o no primeiro dia, lembra-se, que ela não se
fixava em ninguém. Mas vou contar-lhe um segredo, que talvez nem devesse, pois
só vai atrapalhá-lo mais, mas é a verdade. Em suas cartas quase que semanais
ela só pergunta por você e, quando esteve incógnita no Brasil na semana
passada, enquanto você estava em São Paulo, foi até o seu apartamento, bem
camuflada, para não ser reconhecida pelo porteiro. Entrou e achou lindo o
retrato dela, que você pôs na sala. E ela nem sabia que você fizera um
desenho. Veio chorando, mas disse que não voltaria atrás e que nunca daria
certo e, que, infelizmente, agora era outra, inteiramente outra e que ninguém
permanece a mesma pessoa depois de fazer carreira em Hollywood. Dona Stella
contou-lhe ainda que Sig chamara Esmeralda, tomou-lhe os restantes vidros de
Samsara, deu-lhe algumas dezenas de dólares e pediu que continuasse cuidando
com carinho do seu apartamento. Saiba que você foi diferente, se isto serve de
consolo. Servia, ele pensou. Agradeceu à Dona Stella e despediu-se. Meses
depois, voltou para Belo Horizonte, onde abriu uma agência de propaganda, a AAC
Propaganda e nunca quis explicar a sigla, que queria dizer Adeus Ana Chaves.
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