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Dr. Negrão e o Sabiá |
Pedro Franco |
Vamos encontrar o Dr. Negrão na época em que encontrou o sabiá. Não
é que tenha vivido só aquele momento, mas o para trás, já ficou para trás e
o Dr. Negrão estava morando na mesma casa há meio século, casa de dois
andares com uma varanda de frente no segundo andar, varanda esta tocada pelos
galhos da munguba, que crescia no canteiro da rua em frente à casa do Dr. Negrão.
Rua Professor Valadares, número 204, Grajaú, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP
20561-020. Dona Anna cozinhava, lavava e passava, Seu Ambrózio lavava vidros,
caixa de gordura e o Bidu uma vez por semana. Dr. Negrão, bacharel em direito
que nunca advogara e fizera carreira no Ministério, ia ao banco e ao barbeiro
na Pracinha do bairro às sextas feiras. Dona Anna via os netos de sete em sete
dias em Porciúncula, saindo sábado de manhã bem cedinho e voltando às nove
horas na segunda-feira. Nestes dias Paulo, porteiro do edifício em frente à
casa do Dr. Negrão, cuidava do Bidu por uns trocados. Dona Anna tinha sessenta
e dois anos, mas, tirando as varizes, estava bem forte e trabalhava na casa há
quinze anos, desde os tempos de Dona Maristela, que morrera há cinco anos.
Eurico, o filho único, tivera que fazer uma pós-graduação tardia na França
e com ele foram a mulher e os dois filhos, que tinham morado sempre na casa do
Grajaú. Com a casa mais vazia tinham dispensado Tereza, a arrumadeira, que
trabalhava há pouco tempo e namorava mais no telefone, que limpava. Não era de
muita confiança e os namorados também eram de dar preocupação. Dona Anna
deixava para o fim de semana uma comidinha no congelador, que o Dr. Negrão
esquentava no forno de microondas. Raramente comia fora na casa de um primo de
parentesco distante, que estava agora entrevado pela gota, ou na de um colega do
Ministério, que depois de velho e, por gostarem os dois velhos de serestas,
tinham se aproximado. O Mário, este colega, morava na rua Itabaiana e também
tinha um bom som, agora de CD, onde ouviam as velhas gravações, remasterizadas.
Orlando Silva dos bons tempos, Silvio Caldas, Mário Reis, Carlos Galhardo,
Chico Viola, Castro Barbosa, Aracy Cortes, para estranheza dos que passavam pela
Professor Valadares, ou pela Itabaiana, em algumas tardes. O pessoal estava
acostumado a ouvir "raps". Aí vem o sabiá, que custou a entrar na
história, mas, quando nela aparece, não sai mais. Aumentaram os pássaros nas
árvores do Grajaú e ninguém soube porque. Antes eram só os tristes pardais e
as raras rolinhas. Depois vieram sanhaços, bentevis, cebinhos, viuvinhas,
tico-ticos e passaram até bandos de bicos de lacre. Na já descrita munguba,
que destoava das velhas figueiras da Professor Valadares, moravam muitos
passarinhos, para desespero dos que colocavam automóveis com duas rodas sobre a
calçada da frente da casa do Dr. Negrão. Entre estes passarinhos apareceu um
casal de sabiás laranjeira, cujo macho cantava tristemente ao entardecer. Dr.
Negrão gostava de colocar uma cadeira de armar na varanda, quando o sol já
tinha caído e ficar ouvindo. Via entre os galhos os sabiás, que depois voavam
para o "flamboyant" da casa do Professor, que também tirara a
figueira e plantara, há muitos anos, um "flamboyant" de flores
vermelhas, que faziam o Dr. Negrão lembrar-se muito de suas férias em Paquetá,
quando era jovem e conhecera Maristela. Na ilha havia até tiês-sangue. O sabiá
cantava e o Dr. Negrão ouvia. Depois ficou só um sabiá. Como cantava, era o
macho. E o Dr. Negrão começou uma criteriosa aproximação, tipo flerte,
namoro de antigamente, com mamão de permeio. Não que tencionasse aprisionar a
ave. Mas queria tê-la perto, quem sabe, passar a mão nas suas penas, no seu
papo alaranjado. Mamão na beirada da mureta da varanda, cadeira de armar de
lona, a dois metros da mureta. Sete dias. Um metro e noventa. Sete dias. Tempo não
lhes faltava. Dia de chuva não colocava mamão. Foi indo, indo para perto da
mureta e o sabiá arisco foi se acostumando. Cadeira colada à mureta. Sabiá
muito desconfiado. Ainda bem que não tenho doença de Parkinson, pensou o Dr.
Negrão. Só sentia o coração acelerar um pouco de emoção, quando via o sabiá
de pertinho, o bico longo, sujo de mamão, as penas escuras, o papo mais abóbora
que laranja. Dona Anna olhava de longe e sorria. Falavam-se pouco, mas davam-se
bem. Colocou o mamão e deixou a mão ficar bem junto. Naquele dia o sabiá
relutou, relutou. A velha mão bem limpa, de unhas aparadas, de grossas veias,
bem lavada com água, para não ficar cheiro de sabonete, quieta, ao lado do mamão.
Por fim ele veio, comeu arisco do outro lado da mão e ele era pesado para
passarinho. Voava pesado, ainda que cantasse leve e triste em melodia nostálgica.
Duas semanas assim, com só dois dias de chuva. Tocou-lhe de leve o papo com o
indicador da mão direita e ele voou para a munguba. Voltou, a relógio, doze
minutos depois. No dia seguinte, ao ser tocado, voltou sete minutos e doze
segundos depois. Foi encurtando o tempo e no vigésimo dia não fugiu. No trigésimo
dia a mão ficou sob o mamão. Depois... E o Dr. Negrão depois do seu almoço
de sábado, ouviu vozes e ruídos de pedras. Estava em baixo na sala. Foi até a
janela. Três molecotes atiravam pedras na sua munguba, no seu sabiá.
Gritou-lhes, mas não atenderam. Percebeu que estavam drogados provavelmente por
cola. Magros, sujos, olhos esgazeados. Desesperado, o que era raro, pegou sua
bengala, abriu com dificuldade a porta da frente, venceu a extensão do
jardinzinho, custou a abrir o cadeado do portão, sempre gritando parem, parem.
E ganhou a calçada, ao tempo em que o sabiá resolvia fugir, mas, voando
pesado, foi alcançado pela pedra do bodoque, que só um dos moleques tinha.
Paulo também correra, quando ouvira os gritos do Dr. Negrão e a algazarra dos
moleques. Os moleques correram entre risadas e palavrões. Quando o Dr. Negrão
apanhava o corpo do sabiá, que caíra entre os paralelepípedos da rua, ainda
quente, foi atingido na fronte por uma certeira pedra do bodoque. Dr. Negrão
quase caiu e seu sangue pingou no peito do sabia. Paulo espantou os moleques e
ajudou-o a levantar-se. Obrigado, disse. Aprumou-se, apoiou-se na bengala e
entrou em casa com o corpo da ave na mão. Pensou com um “bandeide” o supercílio,
que sangrava, arranjou uma caixinha de sabonetes e enterrou muito triste o sabiá
no jardim. Colocou um disco CD do Orlando Silva, tocou, pela memória do
aparelho, cinco vezes "O Velho Realejo" e sentou-se na poltrona da
sala para ouvir. O filho veio tão rápido, quanto pôde, da França com a
mulher e os netos, mas só chegaram a tempo da missa de sétimo dia.
A casa foi derrubada, idem a munguba, para dar entrada à garagem de um
edifício, que construíram com muitos e barulhentos apartamentos. Os três
molecotes viraram assaltantes e dois foram presos pouco tempo depois. O
terceiro, o de boa mira no bodoque, foi morto por traficantes de outro grupo
antes da prisão dos companheiros. Outros sabiás não vieram para a Professor
Valadares, que ficou uma rua como as demais.
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