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O Peru de Natal |
Pedro Franco |
O Peru de Natal
"Caro João:
Protocolarmente acuso o recebimento dos presentes de Natal. Veio em nome
da sua firma, mas estou certo de que foi graças a você, que fui escolhido,
entre os diretores da minha empresa, para receber a lembrança, com o amável
cartão da IMLST Ltda. "Para sua Ceia de Natal". Formalmente deveria
interromper este cartão aqui, agradecer a gentileza e desejar-lhe um
"Feliz Ano Novo", mas em homenagem a nossa juventude no Grajaú,
conto-lhe toda a história da chegada e evolução do presente. Você sempre foi
um gozador de primeira e continua pregando peças, mesmo quando não é esta sua
finalidade. Em homenagem aos velhos tempos de boa patuscada, aí vai a história:
Estávamos dormindo, depois de uma ceia da Natal tranquila. A mulher, os
três filhos e eu. Passava da meia noite, quando a campaínha tocou. O
entregador desculpou-se, dizendo que o avião atrasara-se. Foi recebido de
pijamas e camisolas em virtude da hora. _"Cadê" minha carteira? _ Está
na bermuda cinza. _ Tira vinte reais e dá ao entregador. _ Dá dez. _ Dá
vinte! Que será? Era um peru congelado, australiano, com o rótulo em inglês.
Uns doze quilos, calculei. Todos acordados. _ Vamos enfiá-lo na geladeira e
amanhã resolvemos o que fazer.
Não cabia na geladeira. De modo nenhum. Suei, molhei as mangas do pijama
no gelo. Empurrei, amassei. Que droga! E comecei a espirrar, devido àquela
rinite, que tanto divertia-lhe. Minha filha teve a idéia de pedir ao Seu
Vicente do bar, para guardar no congelador. Vesti-me, reembrulhei o peru e
desci. O bar estava fechado, porque já eram quase duas horas. Comecei a ficar
cheio e daria o peru de bom grado a Papai Noel, se o encontrasse. Seu Vicente
mora perto. Vamos acordá-lo. Foi difícil. Veio Dona Maria de robe, depois seu
Vicente de barrete, a sogra do Seu Vicente de camisolão, os filhos do seu
Vicente. O menor abriu um berreiro, porque eu não era Papai Noel. Uma confusão!
Seu Vicente é um bom homem, esperou eu acabar de espirrar, para depois poder
explicar a situação. Vestiu-se, abriu o bar, ajeitou as garrafas e guardou o
peru australiano, avisando-me que teria que ser reaberto, para acabar de limpar,
adiantando que não sabia como se fazia aquela limpeza final, nem conhecia alguém
com aquela habilidade. Aceitou sem relutância os vinte reais, que lhe passei,
com as mil desculpas pelo incômodo. E continuei espirrando na volta para o
apartamento.
Subi, pensando em como preparar o peru para o dia seguinte, que era dia
de folga da empregada. Minha mulher esperava-me. Tivera a idéia genial,
enquanto eu me havia com Seu Vicente, de convidar seus pais, pois minha sogra
adora peru com farofa. _ Mas vindo sua mãe, vem sua irmã, com o idiota do
marido dela! Mais espirros. _ Não, vem só meus pais. Temos que limpar o peru e
eu ajudo. _ Me dá um anti-histamínico! Dormi perto das três horas e sonhei
com galinheiros, perus enormes, que, em vez de fazerem glu-glu, rugiam como
ferozes leões. Depois sonhei que estava perdido dentro das vísceras de um peru
gigante. Às sete o empregado do Seu Vicente acordou-nos, para entregar o peru,
com suas desculpas, mas o bar precisava de todo o espaço do congelador, para as
vendas do dia de Natal. Tomamos café às pressas e nem pude apreciar direito os
presentes, que Papai Noel trouxera. Ainda bem que passaram os espirros!
Preparamo-nos para enfrentar o peru. Faltava-me jeito e espaço na cozinha e
ajudantes hábeis. Vamos deixar descongelar um pouco. Mas que exagero de peru!
Depois de limpo, foi necessário destrinchá-lo, pois não cabia inteiro no
forno. Dei um talho na mão e a mulher quebrou duas unhas. Saí para arranjar
uma panela maior e comprar vinho. _ Mateus Rose para o papai, Casal Garcia para
a mamãe, cervejas e refrigerantes. Eta almocinho caro!
Sogro, sogra, cunhada, concunhado
idiota, crianças, irmã do concunhado idiota, marido, crianças. Uisquinho de
espera. Saí para comprar mais pão, mais bebida, dois panetones, dois frangos,
pois o marido da irmã do concunhado idiota e dois de seus filhos não comem
peru. Poupo-lhe maiores detalhes. Só conto que o almoço de Natal saiu beirando
às quatro horas. Peruzinho duro! Bebemos muito e comemos pouco. Disse ao idiota
do marido da irmã do concunhado idiota, que ele é que era imbecil, quando me
disse que você era imbecil, por mandar um peru enorme, sem avisar, no meio da
noite. Minha sogra, já meio alta, entrou na discussão e me ofendeu. Meu sogro,
um coitado, apoiado pelo vinho, me defendeu e, pela primeira vez na vida, gritou
com minha sogra. Que briga! Nunca mais vou conseguir comer peru, tenho certeza,
pois, no quiproquó, levei com a carcaça do peru no olho direito.
Enfim, escrevo-lhe do hotel, onde estou morando com meu sogro, até as
coisas acalmarem-se. Portanto agradeço-lhe de coração o peru, mas, no próximo
ano, mande-o a alguém da sua família. Desejo-lhe um venturoso 1996, esperando
que não tenha recebido um presente, como este meu. O riso é livre.
Um abração,
Pedro."
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