Meiotom - Crônicas


 

socavão

pedro franco

 

                                                                        
 Há os que não gostam de guardar objetos. O que já foi usado, que vá para o lixo. Talvez estejam certos. Objetos usados, velhos papéis, dão mofo, guardam poeira, que dão alergias e tomam lugares, que poderiam ser utilizados. Aceito, como aceito tanta coisa, que não faço, ou professo. A vida ensinou-me que devemos aceitar, ainda que possamos divergir. Que joguem fora então seus papéis, seus objetos, mas eu guardo os meus, até de mais, sei. Livros, leio e, quando gosto, guardo. Tenho emprestado e dado-me incorrigivelmente mal. Pego-me olhando as estantes atulhadas e lembrando-me deste e daquele livro, em verdadeiro devaneio. Às vezes releio-os, para alegria de um reencontro, ou para tristeza de uma decepção. Culpe-se a vida, ou meus gostos transitórios. Mas os livros ficam pelas estantes e os objetos no socavão. Um belo socavão para uma casa tão pequena. Um quarto enorme no terceiro andar da casa. Um filho, que pede um criado mudo (mesinha de cabeceira era melhor, não?), um neto, que faça reviver um brinquedo, já meio quebrado. Ou fico a olhar uma cadeirinha, que foi de um filho e passou para o outro e ainda foi emprestada a uma prima, para voltar depois bem estropiado para o socavão, como se tivesse merecida aposentadoria, que  pode ser interrompida, se alguém precisar. Uma espécie de brechó da família, sem ônus, bastando tirar a poeira, dar uns espirros e reutilizar. Mas estou na memória, digamos, prosaica, de objetos velhos e ainda usáveis, até ao sabor da moda. Mas há os pequenos objetos, já sem valor e não utilizáveis e os papéis, as cartas, os recortes, os boletins escolares, as flâmulas, as camisas esportivas, as fantasias, os velhos retratos, as velhas revistas, as flores murchas, os convites amarelados, os santinhos. E as tardes de gripes, os períodos de repouso, as tardes de domingos chuvosos, os períodos de ensimesmamento, mostram quanto estas "velharias" ajudam, dizendo como já fomos, sentimos, com o que nos emocionamos. Dá para buscar no passado ânimo para prosseguir, reformular caminhos, lembrar-se de outros, meio esquecidos pelas correrias do dia-a-dia, revivendo e tornando a viver, na memória dos objetos do passado. Talvez tenhamos sido mais puros, mais tolos, mais aptos a ser felizes, podem nos dizer aqueles papéis, mostrando também ternuras esquecidas, ideais abandonados, amigos relegados, amor pouco cultivado, ou apenas preencher um dia de chuva, umas horas abertas, provavelmente tempo muito bem roubado à televisão. O meu livrinho de primeira comunhão, o santinho da primeira comunhão da prima, um molho de cartas, cartas que ela escreveu de Portugal, amarelas cartas de resposta a loucos ciúmes e saudades, levados pelas minhas cartas. Meu uniforme de basquete da Associação Atlética do Grajaú, um cartão da filha no primário no dia dos pais, uma nota de um cruzeiro, dada pelo filho, que ganhara duas, recém saídas da carteira do avô!
         Mas que coisas tolas, dirão alguns. Provavelmente com razão. Em função de seus valores. Mas como é bom ter um passado cheio de grandes e pequenas recordações e ternuras! Tolas ternuras, memórias de mim, da minha família, que não fica só na recordação, mas que se esconde em poeirento, por mais que se limpe, socavão. É, não falei em olhos discretamente úmidos, pois quem gosta de ser considerado piegas, ainda que seja um pouco, só um pouco?  

          Esta crônica é antiga, mas a vida anda. Progride? E em sete dias deixarei a casa, que tem um socavão e na qual fiquei plantado por mais de sessenta e um anos. Vou para um apartamento, em frente à casa. Uma linda munguba, frondosa, cobre a vista da casa, para quem a olha do apartamento. Já é um pequeno consolo. E no terceiro andar da casa, há um socavão. Oxalá continue guardando lembranças tão ternas quanto as minhas.
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