Há os que
não gostam de guardar objetos. O que já foi usado, que vá para o lixo. Talvez
estejam certos. Objetos usados, velhos papéis, dão mofo, guardam poeira, que dão
alergias e tomam lugares, que poderiam ser utilizados. Aceito, como aceito tanta
coisa, que não faço, ou professo. A vida ensinou-me que devemos aceitar, ainda
que possamos divergir. Que joguem fora então seus papéis, seus objetos, mas eu
guardo os meus, até de mais, sei. Livros, leio e, quando gosto, guardo. Tenho
emprestado e dado-me incorrigivelmente mal. Pego-me olhando as estantes
atulhadas e lembrando-me deste e daquele livro, em verdadeiro devaneio. Às vezes
releio-os, para alegria de um reencontro, ou para tristeza de uma decepção.
Culpe-se a vida, ou meus gostos transitórios. Mas os livros ficam pelas estantes
e os objetos no socavão. Um belo socavão para uma casa tão pequena. Um quarto
enorme no terceiro andar da casa. Um filho, que pede um criado mudo (mesinha de
cabeceira era melhor, não?), um neto, que faça reviver um brinquedo, já meio
quebrado. Ou fico a olhar uma cadeirinha, que foi de um filho e passou para o
outro e ainda foi emprestada a uma prima, para voltar depois bem estropiado para
o socavão, como se tivesse merecida aposentadoria, que pode ser
interrompida, se alguém precisar. Uma espécie de brechó da família, sem ônus,
bastando tirar a poeira, dar uns espirros e reutilizar. Mas estou na memória,
digamos, prosaica, de objetos velhos e ainda usáveis, até ao sabor da moda. Mas
há os pequenos objetos, já sem valor e não utilizáveis e os papéis, as cartas,
os recortes, os boletins escolares, as flâmulas, as camisas esportivas, as
fantasias, os velhos retratos, as velhas revistas, as flores murchas, os
convites amarelados, os santinhos. E as tardes de gripes, os períodos de
repouso, as tardes de domingos chuvosos, os períodos de ensimesmamento, mostram
quanto estas "velharias" ajudam, dizendo como já fomos, sentimos, com o que nos
emocionamos. Dá para buscar no passado ânimo para prosseguir, reformular
caminhos, lembrar-se de outros, meio esquecidos pelas correrias do dia-a-dia,
revivendo e tornando a viver, na memória dos objetos do passado. Talvez tenhamos
sido mais puros, mais tolos, mais aptos a ser felizes, podem nos dizer aqueles
papéis, mostrando também ternuras esquecidas, ideais abandonados, amigos
relegados, amor pouco cultivado, ou apenas preencher um dia de chuva, umas horas
abertas, provavelmente tempo muito bem roubado à televisão. O meu livrinho de
primeira comunhão, o santinho da primeira comunhão da prima, um molho de cartas,
cartas que ela escreveu de Portugal, amarelas cartas de resposta a loucos ciúmes
e saudades, levados pelas minhas cartas. Meu uniforme de basquete da Associação
Atlética do Grajaú, um cartão da filha no primário no dia dos pais, uma nota de
um cruzeiro, dada pelo filho, que ganhara duas, recém saídas da carteira do
avô!
Mas que coisas tolas,
dirão alguns. Provavelmente com razão. Em função de seus valores. Mas como é bom
ter um passado cheio de grandes e pequenas recordações e ternuras! Tolas
ternuras, memórias de mim, da minha família, que não fica só na recordação, mas
que se esconde em poeirento, por mais que se limpe, socavão. É, não falei em
olhos discretamente úmidos, pois quem gosta de ser considerado piegas, ainda que
seja um pouco, só um pouco?
Esta
crônica é antiga, mas a vida anda. Progride? E em sete dias deixarei a
casa, que tem um socavão e na qual fiquei plantado por mais de sessenta e um
anos. Vou para um apartamento, em frente à casa. Uma linda munguba, frondosa,
cobre a vista da casa, para quem a olha do apartamento. Já é um pequeno consolo.
E no terceiro andar da casa, há um socavão. Oxalá continue guardando lembranças
tão ternas quanto as minhas.
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