| Meiotom - Contos |
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As Cafeteiras |
Pedro Franco |
Ela olhou as duas cafeteiras. A velha, em uso de longa data, ainda que elétrica,
seria agora substituída pela nova, que fazia café expresso e "capuccino". E
ainda que fosse uma mulher muito ligada na casa e tivesse ficado interessada no
funcionamento da cafeteira nova, tanto que a comprara, olhou com pena a velha,
que já apresentava até umas pequenas lascas no esmaltado. E não era a primeira
vez que se desfazia de um objeto de casa, trocado por outro melhor e sentia um
quê de tristeza. Parecia até quando o marido comprava um carro novo e tinha que
vender o velho. E irritava-se, quando o comprador começava a desmerecer o carro,
para conseguir um preço melhor. Quem julgasse os dois, marido e mulher,
possivelmente os acharia tolos, por importarem-se com trocas de objetos
inanimados. Conversando no automóvel depois, quando iam à Barra, para ver o
filho e a nora, comentaram a troca das cafeteiras e lembraram-se de um programa
antigo da Rádio Nacional, do Mário Brasini, que se chamava, "A Alma das Coisas".
E os objetos não têm alma, ainda que alguns, pelo uso diário, pelo compartilhar
de uma vida em harmonia, em uma casa de amor recíproco, ganhem um estado de
partilha, de convivência, que o tornam queridos e pseudamente animados. Quando
se vai trocá-los, pelas necessidades prosaicas do dia a dia, deixam saudades,
são envolvidos em ternura na aposentadoria e então trocados, se possível dados,
para alguém continuar usufruindo dos seus bons serviços.
Talvez aquela
conversa dos dois no carro, naquela manhã de domingo, fosse considerada
despropositada, conversa de dois, que envelhecem e possivelmente já estão com os
neurônios embotando-se. Os dois, para acirrarem mais o desentendimento, poderiam
dizer que sempre foram assim, sempre tiveram apego a determinados objetos e só
trocaram por necessidade da vida, mas com um pequeno laivo de tristeza. Mas
aqueles que não entenderiam a conversa do casal, também não compreenderiam como
têm vivido juntos durante tantos anos, tantos que já são avós e se durarem mais
uns oito anos, talvez sejam bisavós. E conhecem-se desde os dezesseis anos.
Viveram sempre em mar de rosas? Não, viveram a vida de todos, com seus acertos e
equívocos, mas com uma sensibilidade especial, com uma convivência amena,
podendo viver em sociedade, cercados de familiares e amigos, ou sós, sem nunca
se sentirem solitários, se estão juntos. E vão envelhecendo, como todos, mas
conversando sobre o futuro, conversaram até sobre a possibilidade de apertar as
finanças e comprar um apartamentinho para fins de semana. Mas também falaram na
substituição da cafeteira. Ela contou, ele entendeu, pois também se encantava
por alguns objetos e tinha pena de trocá-los, ainda que por um mais novo e
melhor. E talvez estivessem envelhecendo juntos, unidos, irmanados, por que não
trocavam com facilidade, mesmo se fossem cafeteiras velhas, objetos inanimados,
que, em vida de amor, parecia-lhes, ganhavam uma centelha de vida...
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