“Mala Suerte”
_ Todos estão cegos? Só um cego vê!
_ Comprem “la buena dicha”. E
com mais dinheiros todos os futuros problemas serão de solução mais fácil. Tirem a sorte grande, ou, se tiverem buena suerte, entrem
para o partido do governo. Mas a verdadeira sorte está nas mãos do ceguinho, que enxerga longe. Bilhetes da federal!
E
o ceguinho berrava na Calle Florida, ou na avenida Francisco Fajardo, ou no Mercado Del Puerto, ou na rua do Ouvidor, ou na Ipiranga com avenida São João, que o ceguinho adorava Caetano,
ainda que preferisse o Chico Buarque.
Igual a eles só Ástor Piazzolla.
_ Destas velhas mãos já saíram dezessete grandes prêmios e até um bilhete inteiro da loteria de Natal.
E era mentira. Durante sua vida vendera um bilhete premiado e assim mesmo era só um gasparino. E décimo de menor valor, pois
pertencia a uma loteria de sábado. Mas que propaganda, seja do que for, não recorre a artifícios? Daí os marqueteiros terem
tanto valor no agora político. Às vezes valem mais que um bom programa de governo, ou uma ideologia sensata e patriótica. O ceguninho na sua escuridão filosofava.
_ Se querem fugir dos tempos tenebrosos, que vêm por aí, comprem a sorte das mãos abençoadas do ceguinho. O ceguinho antevê.
Lembrem-se de Cuba, do Fulgêncio, do Fidel e do
depois e sempre.
E gritava e berrava com sua voz de taquara rachada.
Um estudante de Direito, com idéias reformistas, vivendo às custas da fortuna da família, mas tendo idéias contrárias às do pai, pois
lera “O Capital”, encostou no Ceguinho e aconselhou
que fosse mais fundo, desse nomes aos bois e as vacas.
_ Fale do Executivo, Legislativo e Judiciário. Fale das demagogias da última campanha.
_ Quer comprar um bilhete? Se não quer, siga seu caminho e deixe-me com meus “slogans”. Já me arrisco bastante e só faço isto por “marketing”. Sou cego, mas não sou louco. Aqui há ricos, tíbios e temerosos e com medo
das transformações, vão querer comprar bilhetes. Quero é vender “la buena dicha”. Caminhe, se
não quer comprar bilhetes.
Muito irritado o estudante continuou seu caminho, para
comprar uma jóia para
uma corista, que pretendia conquistar. Vira-a
atuar em Punta Del Leste e apaixonara-se.
_
“Hermanos” e “hermanitas”, o futuro vai requerer mais dinheiro e dinheiro honesto vem dos meus bilhetes. Guardem o dinheiro, que virá dos bilhetes, embaixo do colchão e trocados por dólares e euros. Isto será a sua previdência.
Mesmo assim o Ceguinho sumiu e com quatro palmos de terra por cima e na horizontal. Não foi enterrado no Cemitério Geral, ou no El Alto. Era apenas um a mais, que deveria ser
calado, para
dar exemplo. E nem se perdeu tempo com torturas e interrogatórios, dispensáveis naquele caso. Quando há um fim a justificar meios, que estes sejam usados e sem contemplações. E o fim já tinha chegado e só o cego, para
vender bilhetes, tinha de fato percebido. Mas já com seu tempo esgotado. Depois foi a vez de calar a imprensa, que não compreendera os meios, para
se alcançar um fim. Alguns grupos calam-se com altos proventos e regalias, sabiam os poderosos.
Depois se cuida também deles.
(Publicado em junho de 2007 na XI Coletânea KOMEDI – Campinas- SP.)