Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

              

                                                   Mala Suerte”

                                                                              

                 _ Todos estão cegos? um cego !

                 _ Comprem “la buena dicha”. E com mais dinheiros todos os futuros problemas serão de solução mais fácil. Tirem a sorte grande, ou, se tiverem buena suerte, entrem para o partido do governo. Mas a verdadeira sorte está nas mãos do ceguinho, que enxerga longe. Bilhetes da federal!

                  E o ceguinho berrava na Calle Florida, ou na avenida Francisco Fajardo, ou no Mercado Del Puerto, ou na rua do Ouvidor, ou na Ipiranga com avenida São João, que o ceguinho adorava Caetano, ainda que preferisse o Chico Buarque. Igual a eles Ástor Piazzolla.

                   _ Destas velhas mãos saíram dezessete grandes prêmios e até um bilhete inteiro da loteria de Natal.

                   E era mentira. Durante sua vida vendera um bilhete premiado e assim mesmo era um gasparino. E décimo de menor valor, pois pertencia a uma loteria de sábado. Mas que propaganda, seja do que for, não recorre a artifícios? Daí os marqueteiros terem tanto valor no agora político. Às vezes valem mais que um bom programa de governo, ou uma ideologia sensata e patriótica. O ceguninho na sua escuridão filosofava.

                   _ Se querem fugir dos tempos tenebrosos, que vêm por , comprem a sorte das mãos abençoadas do ceguinho. O ceguinho antevê. Lembrem-se de Cuba, do Fulgêncio, do Fidel e do depois e sempre.

                    E gritava e berrava com sua voz de taquara rachada.

                    Um estudante de Direito, com idéias reformistas, vivendo às custas da fortuna da família, mas tendo idéias contrárias às do pai, pois lera “O Capital”, encostou no Ceguinho e aconselhou que fosse mais fundo, desse nomes aos bois e as vacas.

                      _ Fale do Executivo, Legislativo e Judiciário. Fale das demagogias da última campanha.

                      _ Quer comprar um bilhete? Se não quer, siga seu caminho e deixe-me com meusslogans”. me arrisco bastante e faço isto pormarketing”. Sou cego, mas não sou louco. Aquiricos, tíbios e temerosos e com medo das transformações, vão querer comprar bilhetes. Quero é vender “la buena dicha”. Caminhe, se não quer comprar bilhetes.

 

                      Muito irritado o estudante continuou seu caminho, para comprar uma jóia para uma corista, que pretendia conquistar.  Vira-a atuar em Punta Del Leste e apaixonara-se.

                      _ “Hermanos” e “hermanitas”, o futuro vai requerer mais dinheiro e dinheiro honesto vem dos meus bilhetes. Guardem o dinheiro, que virá dos bilhetes, embaixo do colchão e trocados por dólares e euros. Isto será a sua previdência.

                       Mesmo assim o Ceguinho sumiu e com quatro palmos de terra por cima e na horizontal. Não foi enterrado no Cemitério Geral, ou no El Alto. Era apenas um a mais, que deveria ser calado, para dar exemplo. E nem se perdeu tempo com torturas e interrogatórios, dispensáveis naquele caso. Quandoum fim a justificar meios, que estes sejam usados e sem contemplações. E o fim tinha chegado e o cego, para vender bilhetes, tinha de fato percebido. Mas com seu tempo esgotado. Depois foi a vez de calar a imprensa, que não compreendera os meios, para se alcançar um fim. Alguns grupos calam-se com altos proventos e regalias, sabiam os poderosos.  Depois se cuida também deles.   

 

 

(Publicado em junho de 2007 na XI Coletânea KOMEDI – Campinas- SP.)

 

 

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