Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

                                  

                  

A palavra certa
                                                              Pedro Franco                   

           A última flor do Lácio é rica e enrica-se a cada hora, ainda que nem sempre esta riqueza de última hora seja aceitável. Posso escrever, apague a crônica, se não gostar do introito. É possível que um jovem cibernético troque o apague, se quiser fazer o mesmo convite, por “delete”, que lê no teclado do seu inseparável companheiro. Julga o maior amigo de todas as horas, inclusive das que lhe rouba do necessário sono. Parêntese sobre micros e celulares, que vão se fundindo em uma engenhoca só. Há jovens que preferem perder a namorada, a ficar sem micro e celular. Voltando à última flor do Lácio e não era melhor falar-lhes sobre a Língua Portuguesa, deixando o Lácio quieto? Todos aceitam que é rica, e, por ser pródiga, tem inúmeros sinônimos, ainda que sinônimos nem sempre se ajustem corretamente à situação. Acabei de ouvir na CBN, a rádio do “slogan” que toca a notícia. Segundo parêntese, que termo substituiria em Português o “slogan”? Mensagem, indicativo, reclame? Ouvia e dois ótimos locutores conversavam. Ele fez ironia sobre o início dos trabalhos no Senado e na Câmara e ouviu da voz feminina e de forma risonha, _ Cinismo não fica bem em você. A inflexão da voz do locutor tornou-se surpresa, mas, tarimbado e dando-se muito bem com a inteligente e informada interlocutora e conversam diariamente nos microfones, tocou o programa e os comentários sobre a volta e as futuras confusões, que farão em nome de Democracia capenga. Vale citar a maior figura política do século XX, Winston Churchill: “Ninguém pretende que a Democracia seja perfeita, ou sem defeito. Tem-se dito que a Democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Voltando ao termo certo da conversa entre os ótimos locutores, teria sido mais apropriado dizer a ironia não fica bem em você, acredito. Ironia é diferente de cinismo. Você está sendo irônico, diz algo sobre inteligente, gozador, brincalhão e cínico carrega nas cores, sarcástico, agressivo, contundente, enfim cada termo não parece ter um sinônimo perfeito. Assim, o chulo chato, incorporou-se ao vocabulário e ficou sem sinônimo perfeito. Esta croniqueta está chata. Quem assim pensou, matou a crônica e passou para outro programa, que não seja chato. Nada a ver, pois, agora, com “Pthtirus púbis”. E muitas vezes no dia-a-dia não conseguimos empregar o “mot juste” de Flaubert, ao qual o escritor dedicava horas, até encontrá-lo, em perda de tempo hoje inadmissível. Mas com raiva e principalmente com crianças, cuidado com a adjetivação. Na raiva saem expressões que podem até ser levadas à Lei Afonso Arinos e permito-me não dar exemplo, pois o politicamente correto está sendo levado a tal exagero, que o exemplo poderia levar-me às penas da importante e necessária Lei. Mas com crianças, cuidado. Que tal o que burrice ser trocado por que bobagem, que tolice? Foi só exemplo e palavrões e ofensas pesadas estão inteiramente fora do contexto, pois devemos buscar educá-las e não extravasar ressentimentos, ou colocar o menor em temor, ou subserviência. E há que ter paciência com crianças. Filhos e netos sorrirão desta última frase! “Mea culpa”, minha máxima culpa. Crônicas servem também para confissões, ou pedidos de desculpas, que tenho certeza, no meu caso particular, com filhos e netos, um pouco da falta de paciência até pelas correrias de minha vida, foi desculpada pelo amor e ações desenvolvidas através dos anos subsequentes. E quanto à adjetivação não creio que lhes tenha infringido qualquer dano maior. Uma boa, para fazer rir, era dizer-lhes, quando agiam em conjunto: _ Estão se armando em parvos! Será que alguma vez foram ao dicionário para saber dos parvos? Enfim, há que descobrir a palavra certa e a Língua é tão rica, que os estrangeirismos usados acima, se houvesse engenho e arte de quem escreve, teriam sido abolidos e “deletados”. Quis, confesso, ser irônico, mas não cínico. Dizem as damas e como grande elogio que cínico era o sorriso de Clark Gable. De sorrisos masculinos pouco entendo, ainda que cinematograficamente aconselhe a largarem as legendas e ouvirem a voz de Janet Leigh em qualquer de seus filmes.