Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

                                  

Quem tem culpa?
                                                                Pedro Franco.
          Tenho amigo que quer sempre saber quem tem culpa, para desespero de sua família. Usualmente psicanalistas combatem a culpa e os complexos de culpa. Para estes não há culpas e possivelmente só desculpas. Voltemos ao amigo e diga-se que procura saber também de suas culpas e vive um pouco da análise dos seus atos. Portanto não é só a família que sofre com os questionamentos. E ele depois pega no pé de quem foi o culpado, inclusive no próprio pé. Os familiares confessam que até que não cobra muito e nunca diz o eu não disse. Descoberta a culpa, para ele, se não há maiores danos físicos, ou morais, toca o bonde, que ninguém é perfeito. Depois de muito ouvir reclamações sobre estas preocupações com culpas, perguntei-lhe o significado desta postura, que desgosta aos seus, aos quais é muito dedicado. Exemplificou. Sicrano entra na contra mão, bate com o automóvel, não há vítimas e sim danos materiais. Que se sinta culpado e não recorra mais a dirigir na contra mão. Teve um ato sexual, não usou camissinha, temeu depois ter apanhado AIDS e ficou muitos meses jururu e fazendo exames. É absolutamente necessário especificar que foi culpado, podia ter se ferrado. Transou com um desconhecido, tomara umas cervejas a mais (como os jovens estão bebendo e sempre!), não tomava pílula, não usou meio anticoncepcional, podia ter engravido e é inteiramente contra abortamento. Deve assumir a culpa do sexo sem juízo, para evitar um filho indesejado e em momento que julga impróprio. Teve uma aventura extraconjugal, a cônjuge soube, quase lá se foi o casamento. E não queria assumir culpa, passando–a à mulher e por motivos irrelevantes e sanáveis. Assuma a culpa, busque perdão e, se possível, continue casado, ou desfaça o casamento de forma civilizada e sem lesar filhos. Votou por graça, o eleito fez tolices e foi corrupto. Deve aprender a votar com consciência e acompanhando as ações do eleito. Então culpas dão experiências, necessárias ao futuro e renega o dito de Pedro Nava que experiência é um farol apontando para trás. Sempre pergunto se o veículo está andando de marcha a ré, o tal metafórico farol não serve? Acredito que a busca de culpas do meu amigo é desagradável, mas talvez profícua. O deixar correr, tinha que acontecer, estava escrito, mas a vida já é tão difícil, não leva a nada. Vou mais além e vamos tirar apenas a palavra culpa que tem de fato uma conotação forte e azeda, a criança tem que aprender em casa o que é certo e o que é errado. Ou aprende em casa com carinho, ou na vida com bordoadas e às vezes processos. Bem e mal existem, ainda que possam apenas ser rótulos e mereçam reflexões complementadoras. Deixar tudo ao Deus dará, dizendo que há preto e branco, mas prevalecem os cinzas, também não leva a nada. O bem muda, o mal muda, o mais ou menos muda, mas pobre daquele que, como estes “deixadores”, não têm ideia firme sobre o bem, ou sobre o mal, o bom, o mau, ficando no mar sem bússola, ou leme e mesmo com bússola, leme, quilha, bom barco, carta náutica, pode-se afundar, pois a vida é complicada por si só. Imagine-se sem noções elementares sobre os princípios éticos e morais da existência como se enrolam os viventes, passados os anos de euforia. Então sem ficar esmiuçando culpas por dá cá aquela palha, é conveniente, ao menos nas questões mais graves da vida, ter uma noção de como se portou, se errou, ou agiu de modo correto. Elucubrando no teclado é fácil, já no dia-a-dia é que são elas. Mas sem culpas aterradoras pelo menos.