Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

                                  

                        Fotografia

                                          Pedro Franco

          

      Fotografia: "Eu, você, nós dois/ Aqui nesse terraço à beira mar/ O sol já vai caindo

E o seu olhar/ Parece acompanhar a cor do mar/ Você tem que ir embora/ A tarde cai/ Em cores se desfaz, escureceu/ O sol caiu no mar e aquela luz/ Lá embaixo se acendeu/ Você e eu/ Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia luz/ E uma grande lua saiu do mar/ Parece que este bar já vai fechar/ E há sempre uma canção para contar/ Aquela velha história de um desejo/ Que todas as canções têm para contar/ E veio aquele beijo, aquele beijo".  Antônio Carlos Jobim.

 

                Esta não é das músicas mais comentadas do Tom Jobim e, no entanto, é das mais gravadas. João Gilberto, Dick Farney, Nara Leão, Elis Regina, Gal Costa, Silvinha Teles, Ella Fitzgerald (Photograph) e o próprio Tom e quem sabe outras gravações existam. Por que tantos cantores escolheram? Perguntei-me e fui verificar. E comparo-a ao conto "Missa do Galo" do mestre Machado de Assis. Não dizem e dizem. São ternamente eróticos, sub-repticiamente eróticos, cada um no seu campo/tempo e ao seu jeito. Mas vou fugir de comparações e ficar na "Fotografia", título à primeira vista algo distanciado da letra, talvez utilizado por falta de outro. Mas a música fala de um amor, que não fica, que tem que ir e os amores, que tem que ir, são melancólicos e tristes, ainda que ganhem uma áurea de beleza. "Você tem que ir embora e a tarde cai." Os dois estão sozinhos em um bar, que vai fechar e a lua nasce. Bar poético, que fecha quando a lua nasce. Seria ela casada? Algo entre ingênuo e escuso acontecia. Depois fala em desejo e o fecho da música é um beijo. E que beijo, citado duas vezes. Alguém mais novo vai pensar logo, que ele e ela deveriam estar em um motel e com, ou sem, beijos, atingir os finalmentes, ao invés de olharem pesarosos à tarde que caía, para dar lugar à lua, que nascia do mar. E os olhos dela eram da cor do mar. Mas como é difícil explicar, para os da geração do "ficar", as nuances do amor, o flerte, o pegar na mão, o romantismo, a progressão lenta do desejo, as dificuldades do amor, a conquista progressiva, alicerçada nos ais do coração, o primeiro beijo, aquele beijo!

          Quem era ela? Para quem Tom fez a letra e a música? Ou eram apenas artes musicais de um poeta? Creio, por vivências e dificuldades de amor também, que houve aquele bar, a tarde caía e ela iria partir, mas houve aquele beijo. Depois... Sempre se tentava um depois e acredito que era muito mais glorioso, do que é nestes “mcdonáldicos” dias. É, talvez "Fotografia" tenha sido um bom título. Flagrou um momento de amor e elas, fotografias, tornam eternos minutos tão queridos, quão raros, para quem os viveu. Parece que o mundo para e estamos os dois, livres e independentes de tudo e todos, por um momento, pairando, ainda que você tenha que partir depois. E há esperanças de outras tardes, "eu, você, nós dois".