Flamboyants do Grajaú
Pedro Franco.
Coco, canudinho e tomei a água de coco na Engenheiro Richard com a
Pracinha. Depois subi a Avenida Engenheiro Richard, onde joguei muita bola no
canteiro que separa os dois lados da rua e onde só estão plantados
tamarineiros. E um parêntese, a bem da verdade há que dizer que jogava futebol
ali porque era o dono da bola. E, por ser ruim de futebol, fui jogar basquete
e cheguei até à seleção carioca juvenil. Outra necessária confissão, fui
selecionado por ser alto para a época (hoje se diria, apenas um metro e
oitenta e dois e quer jogar basquete?) e era pivô mais aplicado que
talentoso. Pedro Karabina. Volto ao meu passeio, andares de velho grajauense e
desemboco na rua Canavieiras. E lá veio a decepção. A casa à esquerda, colada
à da esquina, o 402, foi a segunda casa em que morei no bairro. Primeira, de
um a três anos, rua Grajaú com Gurupi, até os onze anos na Canavieiras e por
fim na Professor Valadares e suas velhas figueiras, onde estou plantado, antes
no 204, casa e agora no 193, apto 801. Por que a mudança? Apartamento
usualmente tem elevador e casas de três andares escadas. Mas vamos à decepção.
Papai plantara em frente à casa da Canavieiras um flamboyant. Não era até dos
meus prediletos, pois gosto de flamboyants de flores vermelhas e agora os do
bairro estão em plena floração, ajudados pelas águas de dezembro de dois mil e
nove, pois no janeiro e neste princípio de fevereiro 2010 é calor e mais
calor. Meu flamboyant era de flores amarelas. E para meu pai a árvore tinha um
valor especial, pois a muda fora dada pelo pintor maior de Paquetá, Pedro
Bruno, grande amigo das árvores e dos pássaros da ilha. E eis que, entrando na
Canavieiras, vejo um monturo de uma árvore cortada em frente à nossa ex casa.
Acabaram com o flamboyant amarelo! Eram pedaços do tronco, dizimado
provavelmente por moto-serra, galhos, folhas, poucas flores amarelas, tudo na
calçada. Passei direto, nem olhei a 402. O flamboyant da vizinha está viçoso,
com seus galhos carregados de flores, arrebentando o cimento da calçada, como
sabem fazer todas as árvores desta espécie, mas dando um colorido muito alegre
à rua. Esta vizinha tinha filha muito bonita, bem mais velha que eu. Era uma
graça olhá-la e olhá-la. Pensei no meu pai, no amor que tinha àquela árvore e
apressei o passo, até chegar à Professor Valadares. Vou ao eufemismo, papai
debelara a velha figueira em frente ao 204, com medo de sua possível queda. De
fato as “fícus benjamina” estão proibidas por edital do passado alcaide de
serem plantadas no Rio. Duas das existentes na Valadares já tombaram e com
grandes estragos. Coube-me plantar então, há cerca de quarenta anos, uma
munguba, quando herdei a casa 204. Escolhi a munguba, segundo a orientação do
amigo Antônio, por ter raízes retas, que não estouram o cimento das calçadas.
A munguba dá fugazmente uma linda flor tricolor, que não se compara em beleza
às vermelhas dos flamboyants. Sobre as flores amarelas de um especial
flamboyant nem escrevo mais. Digitar para que? Enterrei-as, como muito se
enterra na vida e segue-se procurando outras flores, outras lembranças, para
temperar saudades e afugentar decepções.