Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

                                  

 
Caminhar na Altenhaus
                                           Pedro Franco
Pode ser, mas é pouco provável, que me torne um dia cronista profissional, isto é, crônica virando reais. Pouco provável pela idade e falta de engenho e arte. Pondo nome de pousada, se fosse profissional, ia parecer jabá. E não é. Apenas quero localizar caminhadas e o modo que encontrei de fazê-las com menos sacrifício. De início invejo quem gosta de caminhar solitário e durante tempo determinado. Receito no consultório, quase obrigo, mas no Rio falta tempo e principalmente vontade. Desculpas é que não me faltam. Se sempre tiver um bom companheiro de caminhada, aquele que não fala demais, não vem com chatices, ou doutrinação, a crônica perde valor. Devo andar nas férias e sem acompanhante. Nem vou falar da indumentária obrigatória e tênis com amortecedor, protetor solar, mesmo que ande antes das dez horas. Vou me deter na forma de caminhar em passo estugado e durante no mínimo quarenta minutos. Aqui não brinco em serviço. Dizem os especialistas que caminhar quatro vezes por semana, em dias não consecutivos, já serve. Em Itaipava só se chove, ou por motivo de força maior, não caminho, para ver se, pegando o embalo, na volta ao Rio sigo no recomendado. Prévio alongamento, quase sempre esquecido e não devia, mas estou falando de coração aberto e vou caminhar de olho no relógio. Trotando, ou caminhando. Caminhando. O próprio Cooper, que valorizou o exercício, depois de aconselhar corridas, aceitou que caminhar ligeiro e de acordo com as possibilidades que o exame médico aconselhou, é tão benéfico quanto e sem os desgastes articulares que as corridas condicionam. Até aqui nada demais disse. Apenas o trivial. Mas agora vem a mumunha: Se gosta de música peça para um entendido preparar um “ipod” de acordo com seu gosto. Meu neto Maurício preparou um, tipo surpresa e há dois verões uso e de forma aleatória ouço. A engenhoca tem duas formas. Músicas sequenciais, por exemplo, algumas do Chico, ou entrando aleatoriamente. Prefiro esta forma e de quando em quando entra música ainda não ouvida. A coisa rola aleatoriamente, noventa e cinco por sendo MPB e da boa, de Vinicius a Simonal (não vem de garfo, que hoje é dia de sopa), de Elis a Dick Farney e tem até com o Farnézio Dutra, seu verdadeiro nome, dando um show em “Tenderly”. Música instrumental, pouca e até Chet Baker. Talvez o ano que vem peça para colocar mais Elis, Tim Maia, João Gilberto e Elizeth. O “ipod” deve seguir o gosto do caminhante e com surpresas. Mas você não é ligado em música. Tudo bem. Gosta de escrever? Rumine idéias enquanto anda. Concebi a crônica ao caminhar hoje. Viaje, no bom sentido, enquanto troca passos em terreno plano. Ou refaça lugares viajados, ou por viajar. Não pense nas coisas sérias e chatas da vida, que perturbam e chateiam o caminhante. Você está realizando algo prazeroso! Estou chutando nesta última frase. Não é prazeroso, é absolutamente necessário e você deve ajudar sua mente a distrair-se também. Para tirar a idéia inicial de jabá e espero que todos conheçam a gíria, já andei no terreno, pequeno terreno, que tinha na casa de Petrópolis e que vendi, quando filhos e depois netos desinteressaram-se. Depois caminhei nos terrenos da Pousada Alcobaça, no Parque Municipal de Itaipava, em frente ao Vilarejo, ando há quatro anos nos terrenos da Pousada Altenhaus, traduzindo o alemão, Casa Velha, segundo traduziram-me e que de velha nada tem. Caminho também em volta do lindo lago de Barão do Javary. Mas o melhor lugar para andar nas cercanias é nos jardins do Museu Imperial em Petrópolis. Permanente sombra, passarinhos, esquilos e um ar histórico. Petrópolis tem magia histórica. Dei a impressão que gosto de caminhar? Está explicado porque não chego a cronista profissional. Dou ideias erradas do que penso. Andar é obrigação. Que se a torne menos desagradável. E deve haver outras receitas melhores. E as academias? Para quem gosta...