Julgamentos
Pedro Franco.
Temos um amigo que está ruim de saúde. Embaixo explico
porque escrevi na primeira pessoa do plural. Muito mal de saúde.
Está com oitenta e muitos anos, é médico de valor e até uns quatro
meses atrás ainda atendia no consultório e bem, pois está
atualizado. Tem cultura, religiosidade e, para repetir uma frase
dele, disse mais ou menos isto. Como estou com a cabeça boa, vejo
transcorrer minha decrepitude. Invejo aqueles que conseguem gravar "ipsis
litteris" as frases ditas e com suas reais palavras. Mas tenho
certeza que o sentido da ação de presenciar a própria decrepitude
física era sua reclamação. E porque fui ao nós na primeira linha?
Por que há amigos que reclamam da postura dele e, se não estão
reclamando, lamentam, mas o fazem em tom de amigável censura. Alguns
dizem e de forma também crítica: ele está deprimido. E não queria
que estivesse? Outro diz, lamentando, mas que o amigo tem medo de
morrer? Respondo e quem não tem? Nossa cultura valoriza a vida e
morrer é complicado e a ideia de finitude da vida é digerida de
formas muito diferentes por cada um de nós. Religiosos, ou não, na
hora do acabou-se o que era doce, ou azedo, tremem nas bases. É o
que me mostra o dia a dia da profissão na grande maioria dos casos.
E quando mais se tem contato com a morte, mais se teme e ainda mais
quando se vive na Medicina e as complicações e riscos são mais
conhecidos. E a profissão é complicada, havendo até muitos que dizem
de boca cheia não gosto de médicos. Tenho até parentes que não
gostam de médicos e vivem esmiuçando críticas, justas às vezes, mas
injustas na maioria dos casos, pois se há um preconceito firmado,
qualquer julgamento carece de espírito de Justiça e ainda mais
quando julgam os de uma profissão muito complicada, evolutiva, com
constantes inovações e uma necessidade permanente e desgastante de
atualização acontece. E o Google agora é nosso “parceiro” e há
muitos doutores “googleanos”, que por lerem determinado artigo, que
até não compreenderam totalmente, porque não são do ramo e
falta-lhes bases técnicas, põe banca e se tornam mais “experts”, que
tarimbados profissionais, que tudo fazem para acertar e levam em
conta características dos doentes, que o Google não pode saber. É
velha frase e verdadeira: não há doenças e sim doentes. E não sou
contra o Google e também recorro a ele, só que com o comedimento que
os muitos anos, desde aluno, ensinaram-me. Digressões a parte e
desviei-me do foco da crônica, as doenças do amigo. Vale dizer que
sofro por ele, pelo amplo conhecimento dos males médicos que tem,
suas aflições e tomara que encontre forças e apoio para vencer a
doença e a depressão. Só faço uma restrição, deve aceitar que está
deprimido e que nessa situação um profissional especializado é
indicado. Mas como todos os médicos experientes, é um pouco teimoso.
E eu? Também sou. E as amigáveis críticas em nada ajudam.
Compreensão e cafuné podem auxiliar, a ele e a mulher, que lutam
juntos, neste terrível transe. E que Deus abençoe-os.