Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

                                   Perseverar no amor – até onde?

                                                                      Pedro Franco.

               Em princípio o amor deve ser perseverante. Mas já foi mais. Em relação à perseverança o amor evoluiu. Ou regrediu? Acho que evoluiu, mas ao mesmo tempo acredito que tentar entender a atual forma de amar e suas nuances, é complicado e complexo e cada caso é um amor diferente, ainda mais porque não há como defini-lo e todos, que tentaram, caíram em enganos. Darwin já dizia que definir é limitar e quem vai querer limitar o amor? Mas, voltando ao tema básico, basta lembrar a poesia brasileira clássica, ou mesmo o cancioneiro popular do meio do século XX, para verificar como os amores eram não correspondidos, sofridos e cheios de dificuldades. Ouso dizer que havia quase um romantismo platônico unilateral. Sofrer por amor era quase um ideal. Era muito lírico, romântico, tísico. Mas na época atual não se deseja sofrer e principalmente não sofrer por amor, ou por qualquer outro ideal. Ideais estão até fora de moda... Em 2006 li, de Vargas Llosa, “Travessuras da Menina Má”. E como sofre quem a ama, apesar de todos os embustes e perfídias que a Menina apronta e deixando-o cada vez mais perseverante e, por que não dizer, apaixonado. O personagem principal funciona qual mulher de malandro antigo, as que gostavam de apanhar. O livro é ótimo e ao meu gosto bateu o de Garcia Márquez, “Memórias de minhas putas tristes” (sem pudicícias tolas, não gostei do título, pois o autor é tão importante, que não precisava tentar chocar com um título) que saiu na mesma época. Um falando de amor perseverante, sem vergonha mesmo e o outro de paixão no fim da parábola da vida, no finzinho da descendente. E espantei-me com muitos dos comentários, que me chegaram aos ouvidos, danados com o anti herói, que sofre e sofre com o desamor e mentiras da Menina Má, mas sem deixar de amá-la. E os dois, amante e amada, vão correndo o mundo, desde o Peru até Paris e daí ganhando outras terras, sempre com o amor dele de permeio com a falsidade dela. Ele até tenta não amar, mas persiste e contra sua própria vontade. E a maioria dos amigos, que leram este Vargas Llosa, afirmou que não acredita em amor assim, pois não é deste modo que vê o sentimento. E há amor assim, ouso afirmar. Mas o conceito atual, mais pragmático, mais materialista, nada, nada platônico, está mais estabelecido como um sentimento bilateral, sem grandes sofrimentos e com maiores perspectivas de gozo. É bom enquanto dure, lembrou o poeta. Que ocorra para fazer feliz duas pessoas e não apenas uma. Nunca um amando e outro sendo amado apenas. E que penso do amor e perseverança? Acredito que, ao contrário do que possa parecer, ao se abrir um jornal, tais as notícias ruins, o Criador fez-nos para sermos felizes. Com um bíblico casai-vos e multiplicai-vos, não disse que procriem e sofram. E, às vezes, para chegar-se ao amor, há que se perseverar, perseverar muito. Mas até o limite do amor próprio, do também gosto de mim. Do quero fazê-la feliz (sem machismo, não dá para escrever quero fazê-lo feliz, a não ser entre parênteses), mas também desejo ser feliz. Nada de amor de perdição, ou ultrajar-se para tentar conquistar um amor. Deve haver uma fronteira saudável, mutável conforme o quem e o onde, mas de toda maneira que cada um marque sua cerca de arame farpado, que não deve ser ultrapassada, pois há risco de graves ferimentos e na zona corporal mais sensível, o cérebro. Quem sabe se o amor de antigamente era guardado no coração e o de agora, com a evolução/involução, guarda-se no cérebro, no sistema nervoso, convivendo com a chama da paixão no início e depois com o companheirismo e amizade. Hoje amor tem tudo a ver com sexo e sexo a dois deve ser de prazer bilateral, pois, se verdadeiro e não sendo só ato animal, vai buscar fundamentos na união física e mental dos dois seres. Portanto o amor deve se nutrir da perseverança, mas que esta não seja cega para a verdade do outro, não se porte como surdo, ao ouvir o não do outro e não empaque na mudez, que não dirá siga seu caminho, seja feliz e seguirei o meu, ainda que minha via seja atapetada com o meu amor, minhas lágrimas e minha vontade mais firme de esquecê-la, ainda que naquele momento de separação sua lembrança seja companheira em todos os minutos. Amor moderno, até aceito, ainda que não o conceba sem um grau de romantismo e mesmo (e vão dizer que é insegurança) uma dosada pitada de ciúme. E não me venham com o esdrúxulo “ficar”, que foge à sensibilidade e aqui não cabe. Voltando ao fio da meada, amor moderno é baião de dois e com muita metafórica pimenta, servida com duplo sentido de devoção.