Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

              

                                              Tudo é poesia

                                                                       Pedro Franco.

     Li hoje isto em um jornal. Tudo é poesia. Nem digo o autor. Fiquei tão irritado que pensei: tremenda babaquice. E se um purista reclamar do termo, dou-lhe toda a razão. Poderia ter escrito tolice, besteira, equívoco, mas quando a discordância é muita, apelo para o termo meio chulo, já foi chulo inteiro, para aliviar a alma. Defendo que palavrão dito em bom som faz diminuir a dor de uma topada. E não há palavra semelhante a chato, quando nos deparamos com um ser chato. Voltemos ao tudo é poesia. Uma droga, há poesia e há prostituição e de toda a espécie, político demagogo, câncer incurável, miséria, infelicidade, amor não correspondido, morte de crianças, estupros, pedofilia, holocausto, Hiroshima, onze de setembro, tsunamis, terremotos, construção de São Petersburgo, mãe desinteressada de filho e minha lista iria até o fim da página, citando males e males nada poéticos que afligem e afligem. E vou dizer que há poesia nisto? Há muito fato poético, ação poética, amor, amizade, flor, poente, cabeça de bico-de-lacre, cavalo árabe crinas ao vento em galope, mulher bonita, mulher linda, mulher-criança e a lista ainda pode ser maior e mais prazerosa que a anterior. Mas buscar imagens poéticas em certos fatos, é por cor onde não há nada, ou pintar algo que nada diz, por na parede e embasbacar-se. Sei também que grandes poetas injetam poesia, onde nós pobres mortais não tínhamos visto beleza, arrancam do cotidiano mais trivial nuanças de beleza incalculável, douram mortes com ângulos românticos, enfim poetam e como! Mas mesmo se algum dos grandes poetas vier me dizer que vê poesia em tudo, ficarei com pena dele, pois estará no mundo da lua, ou tomando alucinógeno. Certos assuntos são tão anti poéticos, que tentar trazê-los à poesia, chega a ser insensibilidade. Em contrapartida como é belo ver alguém apanhar um mote trivial e dele nascer poesia, pondo cores onde nós não poetas víamos cinzas, no máximo pretos e brancos. Neste exemplo nada a ver com cinema, pois, quando em certos filmes as cores são postas, tiram a poesia. Outrossim, e fica o termo em desuso, outrossim, para afiançar que mexo em vespeiro, mas, outrossim, muitas vezes apanho poesia clássica, de métrica perfeita, rimas soberbas e penso que se aquela idéia tivesse sido tocada com mais liberdade, sem as peias da métrica e da rima, a idéia poderia ter sido ainda mais poética. Fazendo a afirmação, deveria exemplificar. Mas se apanhasse uma ótima poesia de um Olavo Bilac, ou Raimundo Corrêa e paro por aqui, como parei nas citações acima, teria que tentar reconstruir o poema do Poeta de forma livre e seria então um sacrilégio. Se o exemplo fosse de um poeta menor, a ponderação poderia ter mais base, mas seria uma agressão a este poeta. Poeta menor, mas poeta. Só não seria agressão, se tivesse de minha autoria uma poesia nos moldes clássicos. E não tenho. O que tenho e pasmo, quando me premiam, são poesias livres, que desmerecem os júris que lhes dão valor. Ser poeta ou é fácil, ou muito difícil. Fácil quando há o dom, a inspiração natural, difícil quando não se tem engenho e arte para o ramo poético. E nem precisa ser em poesia, pois muita prosa poética tem encantado e Mestre Rubem Braga, que era de crônica, tem muita obra poética de arrepiar de enlevo. E já encontrei poesia em Nelson Rodrigues e o exemplo, entre outros, é a descrição da cambaxirra. Então há muito motivo poético. É saber olhar, ter sensibilidade para garimpar poesia, viver poesia, decorar poesia, ler em voz alta poesia (declamar de fato só vi João Villaret e Margarida Lopes de Almeida), escrever prosa poética, cantar músicas poéticas (como temos autores populares que exalam poesia, a melhor poesia), ter gestos amorosos e poéticos no dia-a-dia, mas daí a dizer que tudo é poesia é diminuir a importância desta e de forma equivocada. É babaquice.