De “Ternura antiga”
Dolores Duran e J. Ribamar
Asdrubal Sfeir.
“...Sim, eu não te amo porque quero
Ai, se eu pudesse esqueceria...”
E por aí vai a desdita. E a crônica não é sobre Dolores Duran, que compunha bem e morreu do coração/boemia com 29 anos e deixou músicas românticas excelentes, muito e muito conhecidas por quem admira a canção romântica popular brasileira. Chamou-me atenção o primeiro verso que transcrevi, sim, eu não te amo porque quero. A frase tem vez no amor de hoje? Na maioria das vezes julgo que não. Ninguém ama, se não quiser. Mas dá para os antigos perguntarem se é amor, quem tem absoluto domínio sobre o sentimento. Alguém, que lê, já quis não amar e conseguiu? É dose grande de sofrimento. Já pensou olhar o céu em noite de lua cheia, sem nuvens e nem notar a lua? E tudo ficar sem graça. Aquele peso na alma. Aquela “desvontade”. Vão dizer que isto não é dor de amor, é depressão. Defendo que amor contrariado, não “reciprocicado” (segundo neologismo tolo, chega! – a Língua é rica!) dá depressão, até que passe um pouco. Ou, se consegue, vem outro amor. Mas há os que são marcados pelos desamores. São etiquetados – sofrer de mal de amor e de forma perene. “Lábios que beijei”, cantada pelo Orlando Silva, falava que era a “estátua perenal da dor”. Estátua perenal da dor é dose! Mas foi a primeira música que me lembro ter cantado e ainda sei a letra. Lábios que beijei, mãos que afaguei” e aí vinham tristezas de amor. Mas voltemos ao tema, amor o mais importante sentimento da vida. Hoje está mais brando, mais raciocínio, mais negócio, talvez mais feliz. Platônico? Que que é isso minha gente? “Ai, se eu pudesse esqueceria...” Esquece-se como quem troca de roupa. Eu quero esquecer Isabel, apanho Mercedes. Mercedes está ocupada, vou para Emengarda e assim por diante. Amor de serenata, amor que leva o amante a ficar tísico, amor hemoptoico, sai desta! Como se põe tempero na boa comida, põe dois quilos de sexo neste amor novo, de nova vestimenta, de topless e vamos nós, que para sofrer, já chegam as dores das inevitáveis mortes e as incertezas do mundo. E o cronista, tão versado em amor, já quis acabar com um amor e não conseguiu? Tentei por ano e meio e tentei mesmo, com todas as forças. Não, não consegui. E depois deste ano e meio de tentativa de destruição, veio um novo amor? Não, não veio. Veio a mesma. Casei-me, temos dois filhos e três netos. Fizemos cinquenta e dois anos de casados. Mas naquele ano e meio e tinha muitas atividades, até porque era jogador de basquete e estudava, sofri de mal de amor e vendo-a no La Fayette todos os dias. Muita tristeza. “Ai, se eu pudesse esqueceria./ Vivo, e vivo só porque te espero,/ Ai, esta amargura,/ Esta agonia”. Dolores Duran entendia de amor. Do amor de antigamente, talvez mais sofrido. Sem dúvida alguma mais profundo, mais amor. Ainda que haja vozes dizendo o contrário, até em canções..