T R O T E
Pedro Franco
De quando em quando a imprensa noticia que um trote de
alunos termina em agravos à saúde e são relatadas fraturas,
queimaduras e até mortes, sem falar nos problemas morais, que
algumas "festas" de recepção de alunos em faculdades
condicionam. São brincadeiras bárbaras, idiotas e imotivadas. As
diretorias têm que compreender que, quando em uma instituição
uma tradição se desvirtua e perde suas finalidades, deve ser
cancelada, para que tristes acontecimentos não se perpetuem e
causem danos, alguns irreversíveis, como cicatrizes, problemas
psicológicos e mortes.
Quem escreve, foi submetido a um trote na Escola de
Medicina e Cirurgia, que hoje é da UNI-RIO, que, em se retirando
alguns pequenos exageros de um veterano, nada apresentou de
traumatizante. Fez-se um Carnaval, fora de época de Carnaval e
depois se usou uma terrível boina vermelha. Assim, ainda que em
algumas instituições o trote seja uma festa de confraternização,
onde os veteranos recebem os calouros com alarido e alegria,
existe sempre um grupo de veteranos que aproveita a oportunidade
para colocar para fora seus recalques, impondo humilhações e
mesmo castigos físicos aos calouros, transformando a festa em
fato triste, com repercussões inadequadas, para qualquer
indivíduo e principalmente para os que ingressam em escolas
superiores, onde se forma a elite do País. Vale referir que o
nível intelectual das universidades e escolas superiores de
ensino vem acompanhando os salários, isto é, caindo
fragorosamente. De toda a forma, como se pode aceitar, ou
permitir, que um grupo universitário, ou militar, imponha
qualquer tipo de castigo, aos seus colegas recém admitidos?
Portanto, se em tese o trote seria uma atividade a ser
incrementada, alegre, meritória, de congraçamento, tipo boas
vindas, na prática tem se mostrado, aqui e ali, uma demonstração
de barbárie e vandalismo. Mesmo em instituições, em que a festa
seguia um ritmo aceitável, ocasionalmente excessos são mostrados
e calouros saem frustados e ficam até arrependidos, de terem se
esforçado para integrar aquele meio, que o recebe tão mal.
Portanto, diante da realidade, repetitiva, quando parece que
desapareceu, julgo que os trotes de calouros devem ser banidos
das tradições universitárias e militares, segundo ordem do
Ministério da Educação e do Ministério da defesa, enquanto estas
exceções de desrespeito à pessoa agredirem a regra. Esperemos
que um determinado grau de urbanidade, de civilidade, da mais
comezinha educação, se incorpore aos que chegam às séries mais
adiantadas das Universidades, Escolas Militares, enfim,
generalizando, em qualquer Instituição, face aos acontecimentos
atuais e que estes alunos mais adiantados, ou funcionários mais
antigos, possam de fato fazer uma festa, para receber os que,
com muito esforço conseguiram entrar naquela instituição,
fazendo, às vezes, um difícil vestibular, ou concurso. Mas até
lá, quando houver educação geral, que se proíba qualquer tipo de
trote, ou que outro nome tenha, para evitarmos os vexames e
agravos físicos e emocionais, que tais manifestações têm
ocasionalmente determinado e que se transformam em lamentáveis e
dolorosos casos médicos. E muitos vezes o trote é o primeiro
passo para o tão malfadado “bulling”, termo usado em falta de
outro mais palatável. Quem sabe se a desgraça de Realengo não
começou por bullyng em um esquizofrênico?