Meiotom - Contos


 

 

Pedro Franco 

                                  

 
Tenho uma história para você
                                                    Pedro Franco.
     Quem escreve. Passa por estas. Algum amigo tem determinada experiência, ou ouve-a de outro e julga que é material ótimo para um conto, ou crônica. E já me trouxeram ótimos motes e saíram textos ao menos aceitáveis. Em contrapartida outros casos foram contados e com a melhor boa vontade tentei, na impressão de que o contado serviria de base para excelente crônica, ou conto, ou, quem sabe, o romance, que sempre pretendi e nunca cheguei a ele, por falta de engenho e arte. Só tentei e sem maior sucesso, engavetei a ideia fornecida e com boa vontade. E, passado um tempo, de acordo com a ansiedade do contador, vem a pergunta, já escreveu? E não escrevi, não por falta de interesse, mas por, repito o dito acima, falta de engenho e arte. Quem sabe se fosse cronista, feito Mestre Rubem Braga, ou contista, do nível de Rubem Fonseca, sairia obra prima. Mas não sou um, ou outro e ainda que passe o tema várias vezes pela cachola, nada saiu de aproveitável e o contador da história lamenta que tão especial motivo não fique ao menos de quarentena. Exemplifico. Um grande amigo contou-me história, ocorrida com amigo dele e que até conheço. O personagem está entre cinquenta e cinquenta e cinco anos agora, tem profissão extra música, mas é ótimo guitarrista. Paro com a identificação, por motivos óbvios e futuros na crônica. Portanto estou pretendendo crônica, após o introito acima. Idos de oitenta. Seu grupo meio “hippie” sai do Rio e vai à praia de Niterói. Moças e rapazes, violão, cerveja e alguns cigarros de maconha. Eis que bate polícia. Dá tempo, a maconha é enterrada, ou afogada e o grupo, alegre grupo, julga-se livre. Mas... Esse guitarrista toma um anticonvulsivante e dos comprimidos em um frasco não se separa. Qualquer coisinha e receitavam anticonvulsivante “ad eternum”. E os comprimidos são achados pela justa e o fato de ali estarem e explicado. Explicação não aceita e todos em cana. Os comprimidos são julgados tóxicos e a turma toda é levada para a cadeia. Não esperem agora fatos muito tristes ocorridos com o grupo de moças e rapazes. Os tempos eram outros. E deixaram o grupo até com seus cigarros. Valiosos cigarros, como se mostra adiante. Todos sentados no chão à espera chata de que pais viessem salvá-los e provar que os comprimidos eram inocentes. E há nas cadeias, com nos hospitais, os habituais e eis que um deles grita a outro. _ Johnny, canta uma Johnny Mathis para nós e veio “It´s not for me to say”, a capela e ótimo. _ Outra Johnny Mathis. “Misty”, a moçada da praia gostando muito. Animaram-se e  pediram outra, ao que ouviram. _ Só se me derem cigarro. Rapidamente os cigarros foram dados, o carcereiro talvez gostasse de música e o hoje guitarrista e compositor, além de funcionário criativo de grande empresa, lembra-se que de madrugada ouviu encantado “Evie”, que vencera um festival internacional no Rio, na excelente voz de... E pais chegaram com a receita e, só de molecagem, o rapaz pediu ao Delegado, já na Delegacia para receber pais revoltados, um copo dágua e na frente do mesmo tomou seu comprimido de anticonvulsivante, ainda que não fosse hora. Mas o que lhe ficou na memória de músico foi “Evie”, cantada com muito sentimento e sem a gritaria do cantor, que ganhara o festival.