| Meiotom - Contos |
|
|
estilhaços |
fransueldes de abreu |
|
|
|
Cresci
na Luz. Mãe
puta. Pai
desconhecido. Nunca
matei. Quase
morri. Tenho
tesão. É
loira. Sai
do trem. Chego
junto. “Se
gritar morre”. Entramos
no parque. É
cabaço. Gozo. Tenho
pena. Levo
a grana. Nunca
matei. São
sete da manhã. Kéli me acorda e fala que minha mãe morreu durante a noite.
Fazia ponto num canteiro da rua Mauá quando alguma coisa estourou dentro da
sua cabeça. Caiu ali mesmo. Ninguém se importou. O dia veio com chuva. A
polícia recolheu o corpo que estava numa poça d’água. Reconheço o cadáver
no IML. O corpo nu tem impresso as marcas de vinte anos nas ruas da Luz.
Tenho pena, mas não consigo chorar. Fim
de tarde. Cine
pornô. Boceta
na tela. Tesão
no escuro. Como
o rabo um veado. Oferece
pó. Vamos
pro hotel. Cheiro. Como
de novo. Quebro
a cara dele. Tenho
pena. Levo
o relógio. Nunca
matei. Kéli
é direita e me ama. Trabalha num bar nojento da Duque de Caixas e ainda
estuda a noite. É mais velha do que eu dois anos. Nosso apê fica na rua
Aurora. Um prédio caindo aos pedaços, mas decente, como ela diz. Lá não
rola tráfico, nem fodeção com puta. Isso tudo é da porta pra fora. Ela
sonha com a faculdade. Quer ser advogada para me salvar caso eu faça alguma
bobagem. Nunca matei. Enche o saco pra eu vender meu trinta e oito. Acalmo
seu nervosismo dizendo que vou largar as drogas e trabalhar. Ela gostava da
minha mãe, apesar de não concordar com a vida que levava. Peço um filho.
Ela recusa e se vê na faculdade. Todos aqueles livros. Ensaia palavras difíceis.
“Constitucionalissimamente”. Gosto dessa menina. Acordo
nervoso. Amaral
Gurgel. Sinal
fechado. Loira
no volante. “Se
gritar morre”. Rua
afastada. “Pára
aqui”. Pau
duro. “Chupa”. Boca
macia. “Engole”. Dois
de novembro. Finados. Um desses cemitérios de terra batida. Uma cruz branca
em cada cova. Várias cruzes brancas ao redor. Estranha harmonia. Kéli põe
as flores sobre minha mãe. Somente um pouco de terra e a madeira vagabunda
do caixão nos separam. Kéli me abraça. Parece que lê pensamento. Bar
na Duque. Kéli
trabalha. Quero
foder. Peço
Fanta. Movimento
caiu. Ela
me chama. Cozinha
imunda. Tranco
a porta. “Tô
fértil”. “Vira
o cu”. Óleo
de soja. Ela
geme. Cheiro
de merda. Domingo
vamos ao parque. Cresci na Luz. Kéli
joga uma moeda na fonte. Minha infância naquela água. “Não saia do
parque que mamãe vai trabalhar”. Andamos por entre as árvores. Um brinco
de argola no chão. Sinto um calafrio. É
loira. Sai do trem. Chego junto. Kéli me beija. “Aqui, não”. Saímos.
“Por que, não?”. No coreto ficamos em silêncio. Praça
da República. Quase
madrugada. Caixa
automático. Pára
o carro. Loira
no caixa. Entro
junto. “Se
gritar morre”. Limpamos
a conta. “Levanta
a saia”. Rasgo
a calcinha. “Abre
as pernas”. Esfrego
a boceta. Ela
chora. Continuo
esfregando. Ela
goza. Nunca
matei. Um
cheiro gostoso vem dos cabelo de Kéli. “Xampu importado”. São pretos.
“Encomendei com Ritinha”. Escorrem até os ombros. “Pra pagar no
vale”. Beijo sua nuca sobre os cabelos macios. Macios e pretos. “Eu tenho
que me cuidar, senão a gordura daquele bar me toma de conta”. O cabelo é
muito importante. Sempre escolho mulher pela cor e tipo de cabelo. Roubo
um carro. Todo
automático. Vou
pra universidade. Meninas
burras. Pedem
carona. É
loira. “Pra
onde?” “Qualquer
metrô”. Travo
as portas. Desvio
o caminho. “Vou
gritar”. “Assim
morre”. Terreno
baldio. Enfio
com violência. Ela
finge gostar. Quer
outro dia. Não
sou burro. Dou-lhe
um soco. Nunca
matei. Os
cabelos de minha mãe eram pretos como os de Kéli. Comparo as fotografias.
Existe até alguma semelhança nos olhos. Olhos pretos. Os sorrisos são
diferentes. O de Kéli é aberto. Gostoso. O de mamãe era fechado. Os lábios
colados escondiam os dentes podres. Kéli me vê com as fotografias. “Quem
é mais bonita?”. Não respondo. É claro que seus vinte anos levam
vantagem. Mamãe morreu nova, mas acabada. Passou a vida trepando com
mendigos pra conseguir alguns trocados. Kéli também dá o sangue naquele
bar. Ganha pouco, mas diz que é trabalho honesto. Gosto de ouvi-la falar.
Está de blusa preta. Olhos pretos. Cabelos pretos. Cine
Ipiranga. Tem
dez anos. Cachinhos
dourados. Vende
balas. Agarro-lhe. Tapo
sua boca. Vamos
pro banheiro. Aponto
o revólver. “Não
grita”. Boceta
apertada. Chora
muito. Sangra
muito. Tive
pena. Lavo
o pau. Compro
pipoca. Vou
embora. Kéli
chega e grita. “Surpresa”. Pintou os cabelos de loiro. Faço cara feia.
“O que foi?”. Não respondo. O sangue ferve. A mão no revólver. Porque
ela fez isso? “Não gostou?”. Os cabelos claros. Estou tremendo de raiva.
Nunca matei. Ela não tinha esse direito. Está vindo na minha direção... Fransueldes de Abreu nasceu em 1978. É formado em História pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2003 seu trabalho Fragmentos Urbanos foi premiado no Projeto Nascente promovido pela USP e Editora Abril.
|
|
|