Meiotom - poesia


 

 

 


O poeta passa por nós
 
 
Quando o poeta Aroldo Pereira passa
arrastando suas velhas sandálias franciscanas
por aquela praça arcebispal, assobradada,
os jovens literatos desta aldeia,
os que ainda não abriram um livro de Rimbaud,
nem nunca pastorearam borboletas, nuvens,
os jovens literatos,
ao assistirem à passagem do Poeta Aroldo Pereira
por aquela praça, cochicham-se entre si, extasiado:
- Ei-lo ali! O nosso Poeta! A nossa sumidade!
O que já tem livros publicados!...
O Poeta Aroldo Pereira é esguio, quase esquálido,
é um Dom Quixote, é um dândi,
com a sua cabeleira basta, com sua enorme aura,
a encostar-se lá no céu, perto dos astros.
 
Gosto de servir a esse Dom Quixote,
com minha lerdeza, com minha preguiça,
com a minha burrice de Sancho Pança.
 
Os jovens literatos desta praça
não sabem que os versos do Poeta Aroldo Pereira
atravessam rios, mares, continentes,
e ao falar de sua gente, Aroldo Pereira
tritura, é mesmo, com vontade,
os babacas e os caretas com o gume dos seus dentes.
 
Quando o Poeta Aroldo Pereira passar,
arrastando suas velhas sandálias franciscanas pelas
ruas da cidade,
tomem cuidado;
ali vai o artesão que tece as manhãs de um novo tempo,
caetaneando canções alucinadas sob os sóis das manhãs,
ágil como um deus,
o Poeta Aroldo Pereira, inumerável, inventor de moda,
com seus passos, seus delírios, seu gingado e com seu dengo.
 
 
Georgino Júnior