Máquina de moer carne
Conheci-a quando eu tinha 16 anos, aos dezoito o nosso sangue já estava
misturado inexoravelmente. Era alcoólatra, uma vez pediu-me que
comprasse bebida para ela, e eu comprei. Não sabia o quanto podia ser
feio o que veio depois. Eu também tinha meu vício, mas como estávamos
nos anos 80, a moda dos jeans de cintura alta me ajudava a disfarçá-lo
bem.
Sempre que podia ia a Sapore D’Italia e devorava um Arlechinno de oito
bolas, que era um desastre para a boa forma, mas as calças jeans de
cintura alta... Eu era viciada em sorvete. Era adolescente, fazia minha
anarquia e não questionava as estripulias de ninguém.
Havia me treinado em observar sem achar que podia mudar o comportamento
dos outros. Para mim, ela era muito simpática quando alcoolizada.
Ela
gostava do carteiro, e sempre que o via, gritava: “Ô bicho bom,
belezinha, hoje não tem carta para mim?” Era promíscua, se dessem
chance, mas as atrizes de sucesso também o eram e os outros achavam
passável.
Quando entrei para família dela, o médico que a tratava mandou-me
convocar para uma consulta. Eu era uma menina e pensava que era muito
discreta, fiquei meio ansiosa antes de vê-lo, era a primeira vez que
tratava com um psiquiatra, será que ter entrado para aquela família me
fazia uma paciente compulsória?
A
secretária me mandou entrar no consultório que estava vazio. O Dr.
Freudiano entrou depois, sentou-se em minha frente, afundou a metade da
cara na palma da mão e com aqueles seus olhões sobrancelhudos agarrados
em mim, perguntou-me o que eu achava do caso dela. Me desbaratinou um
pouco. Ora, eu precisava estudar melhor o caso antes de dar meu parecer,
se era preciso que eu o desse, eu não sabia que teria que dar, eu falei.
Calmo e reticente mandou-me embora.
Quando a reencontrei, perguntei-lhe o que achava do seu médico. Ela, que
era considerada o caso psiquiátrico, respondeu:
O
doutor é louco! É louco, muito mais do que eu. Não sei por que me
obrigam a consultar com ele, eu não gosto nem dos remédios que ele me
dá, isso me mantém drogada, será que ninguém vê que isso me faz mal? Eu
concordei com ela, também achei o Freudiano muito fora de órbita, mas
falei que não conseguiria advogar por ela se ela continuasse a beber,
ela respondeu que bebia porque era triste, porque a vida dela era triste
e que preferia a bebida do quê os faixas preta que o doutor lhe dava e
família a obrigava a consumir.
Quando alcoolizada, me parecia saudável, quando tranqüilizada tinha um
olhar bovino, ficava silenciosa e caminhava erguendo muito os pés, como
se fosse uma aranhazinha.
Afastamos-nos, a vida também já estava triste para mim. Nunca mais a vi.
A partir daí, por alguns anos tomei Lexotam.
Por
que me sentia numa cela.
Naquela cela haviam duas portas de saída, uma era vigiada por um guarda
mentiroso, era a saída que conduzia a perda total, ao fim. A outra era
vigiada por um guarda honesto e me levaria à libertação, a continuação
da estrada.
Para
sair eu só podia fazer uma pergunta, a um só guarda, essa pergunta só
tinha uma resposta certa.
E
precisava descobrir qual a pergunta certa, a que me levaria à
libertação.
Um
dia uma enfermeira ligou avisando que ela havia se suicidado.
Ela
não soube fazer a pergunta certa para ela.
Eu
já estava estudando artes. Minha mestra ao ver o meu primeiro trabalho
me disse que eu faria a diferença.
O
Lexotan começava a me atrapalhar, pois eu não conseguia dirigir, e às
vezes perdia aula por não arrumar carona. Procurei uma terapeuta, a
Junginiana. Parei imediatamente de tomar o remédio, pois tinha vergonha
de contar a ela que me escondia daquele jeito.
Mas
adorava conversar com ela, e se contava a ela de uma aspirina, ela já me
olhava séria. Expliquei-lhe que não dirigia porque não aceitava estar
com minha carne envolta por toda aquela lataria, você já abriu o capô do
seu carro, já viu quanta engrenagem, e todo aquele combustível, já
pensou quanto horror de guerras pelo poder que endossamos ao andarmos de
carro. Pretensiosos fiapos humanos, pequenos e frágeis envolvidos em
miles de quilos de metal girando por ai, consumindo, poluindo,
devorando...
E a
Junginiana parou de dirigir também, afinal, morava tão perto do
consultório. Mas armava pegadinhas: “Mas você não se recusa a andar de
carona de carro!”.
É que isso é racional, muitos fiapos
humanos podendo usar a mesma maquina poluidora, é melhor que só um
arrogante – estou podendo, poluo mesmo, vai encarar? Mas o marido de
Junginiana comprou-lhe o carro roxo mais bonito já comercializado
naquela cidade, e meu poder de convencimento foi insuficiente. Chamou-me
lá fora para mostrar o bichinho, que era lindo de fato, e tinha o maior
cheiro bom de novo.
Já
que era assim, voltei a dirigir também. Ela perguntou se eu queria dar
aulas de pintura e desenho aos pacientes da saúde mental do centro
psico-social. Já se haviam passado anos de terapia e eu tinha que fazer
espaço em minha agenda de trabalho para não faltar às sessões. Nem
lembrava do tempo em que estivera na cela vigiada pelo guarda desonesto.
Já havia vencido um concurso de artes e mantinha um atelier em sociedade
com uma porcelanista.
Abracei o projeto de aulas para os doentes do centro psico-social,
conseguindo doação de material com empresários e convidava músicos para
tocar durante as aulas. Aquelas aulas passaram a ser o centro da minha
vida. Exortava-os a soltarem a imaginação e nisso eles eram mais craques
que os alunos que eu tinha no atelier. Dava-me medo. Todos Picassos. Um
que outro que não dava para os pincéis, mas ai... dava para a música,
entusiasmados começaram a levar seus instrumentos, e nós trabalhávamos
bonito.
Desarmei o esquema das enfermeiras, que quando gostavam de algum
trabalho que eles faziam e deixavam exposto, simplesmente botavam
embaixo do braço e levavam embora. O autor passava uma semana esperando
para retomar o trabalho, chegava lá e havia desaparecido. Quando isso
acontecia, eu convidava-os para sairmos à procura do trabalho por todo o
centro, eles procuram embaixo das mesas, atrás das cadeiras, lá fora, em
volta das árvores e assim, o que eles faziam, deixou de “sumir”.
A
turma que queria fazer artes aumentou. Eu ia aos bairros onde eles se
reuniam em salões paroquiais para jogar cartas como terapia, e os
convidava. Alguns vinham e ficavam, e o grupo ficou tão grande que eu
até suava ao ver o movimento.
Um
dia, a primeira dama (psicóloga) veio visitar a aula. No outro veio o
coordenador chefe do centro psico-social, e era o doutor Freudiano.
Passou mais um tempo e ele me chamou para um particular. Estava
desativando temporariamente a terapia ocupacional. Quando inaugurassem o
novo prédio do Centro Psico Social, que estaria mais aparelhado,
retomaríamos o trabalho.
Não
fui convidada nem para a inauguração, mas disseram que o trabalho que
fiz com os pacientes estava muito bonito exposto.
Alguns dos pacientes passaram a me procurar em meu atelier e eu sabia
que não podia atendê-los fora de um programa. Sempre tive o maior
cuidado em nem ao menos aconselhar nenhum à nada, eu sabia que não era
Nise da Silveira, embora a admirasse demais, talvez eu estivesse mais
para Bispo do Rosário.
Um
rapaz que desenhava muito bem, não desistiu e então o admiti nas aulas
do atelier, levava o trabalho muito a sério, só que começou a querer me
gratificar com faixas preta, que ele ganhava mais do que conseguia
consumir e ficar acordado.
Ele
me provocava, queria que eu descobrisse qual era a pergunta que o
levaria a se libertar, mas era ele quem teria que formula-la para
funcionar.
Diante do impasse, ficou agressivo e desapareceu.
Leio
e leio e não encontro referências clínicas para diagnosticar o doutor
Freudiano, que continuou visitando minhas exposições sem sequer me
cumprimentar, que quando me mudei de cidade, ainda assim visitava minhas
exposições sem parecer me reconhecer. E deve continuar lá, moendo carne.
Sou
a Giane – a scanneadora
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