Meiotom - Contos


 

CONTO

Giane soares

Máquina de moer carne

 

Conheci-a quando eu tinha 16 anos, aos dezoito o nosso sangue já estava misturado inexoravelmente. Era alcoólatra, uma vez pediu-me que comprasse bebida para ela, e eu comprei. Não sabia o quanto podia ser feio o que veio depois. Eu também tinha meu vício, mas como estávamos nos anos 80, a moda dos jeans de cintura alta me ajudava a disfarçá-lo bem.

Sempre que podia ia a Sapore D’Italia e devorava um Arlechinno de oito bolas, que era um desastre para a boa forma, mas as calças jeans de cintura alta... Eu era viciada em sorvete. Era adolescente, fazia minha anarquia e não questionava as estripulias de ninguém.

Havia me treinado em observar sem achar que podia mudar o comportamento dos outros. Para mim, ela era muito simpática quando alcoolizada.

Ela gostava do carteiro, e sempre que o via, gritava: “Ô bicho bom, belezinha, hoje não tem carta para mim?” Era promíscua, se dessem chance, mas as atrizes de sucesso também o eram e os outros achavam passável.

Quando entrei para família dela, o médico que a tratava mandou-me convocar para uma consulta. Eu era uma menina e pensava que era muito discreta, fiquei meio ansiosa antes de vê-lo, era a primeira vez que tratava com um psiquiatra, será que ter entrado para aquela família me fazia uma paciente compulsória?

A secretária me mandou entrar no consultório que estava vazio. O Dr. Freudiano entrou depois, sentou-se em minha frente, afundou a metade da cara na palma da mão e com aqueles seus olhões sobrancelhudos agarrados em mim, perguntou-me o que eu achava do caso dela. Me desbaratinou um pouco. Ora, eu precisava estudar melhor o caso antes de dar meu parecer, se era preciso que eu o desse, eu não sabia que teria que dar, eu falei. Calmo e reticente mandou-me embora.

Quando a reencontrei, perguntei-lhe o que achava do seu médico. Ela, que era considerada o caso psiquiátrico, respondeu:

O doutor é louco! É louco, muito mais do que eu. Não sei por que me obrigam a consultar com ele, eu não gosto nem dos remédios que ele me dá, isso me mantém drogada, será que ninguém vê que isso me faz mal? Eu concordei com ela, também achei o Freudiano muito fora de órbita, mas falei que não conseguiria advogar por ela se ela continuasse a beber, ela respondeu que bebia porque era triste, porque a vida dela era triste e que preferia a bebida do quê os faixas preta que o doutor lhe dava e família a obrigava a consumir.

Quando alcoolizada, me parecia saudável, quando tranqüilizada tinha um olhar bovino, ficava silenciosa e caminhava erguendo muito os pés, como se fosse uma aranhazinha.

Afastamos-nos, a vida também já estava triste para mim. Nunca mais a vi. A partir daí, por alguns anos tomei Lexotam.

Por que me sentia numa cela.

Naquela cela haviam duas portas de saída, uma era vigiada por um guarda mentiroso, era a saída que conduzia a perda total, ao fim. A outra era vigiada por um guarda honesto e me levaria à libertação, a continuação da estrada.

Para sair eu só podia fazer uma pergunta, a um só guarda, essa pergunta só tinha uma resposta certa.

E precisava descobrir qual a pergunta certa, a que me levaria à libertação.  

Um dia uma enfermeira ligou avisando que ela havia se suicidado.

Ela não soube fazer a pergunta certa para ela.

Eu já estava estudando artes. Minha mestra ao ver o meu primeiro trabalho me disse que eu faria a diferença.

O Lexotan começava a me atrapalhar, pois eu não conseguia dirigir, e às vezes perdia aula por não arrumar carona. Procurei uma terapeuta, a Junginiana. Parei imediatamente de tomar o remédio, pois tinha vergonha de contar a ela que me escondia daquele jeito.

Mas adorava conversar com ela, e se contava a ela de uma aspirina, ela já me olhava séria. Expliquei-lhe que não dirigia porque não aceitava estar com minha carne envolta por toda aquela lataria, você já abriu o capô do seu carro, já viu quanta engrenagem, e todo aquele combustível, já pensou quanto horror de guerras pelo poder que endossamos ao andarmos de carro. Pretensiosos fiapos humanos, pequenos e frágeis envolvidos em miles de quilos de metal girando por ai, consumindo, poluindo, devorando...

E a Junginiana parou de dirigir também, afinal, morava tão perto do consultório. Mas armava pegadinhas: “Mas você não se recusa a andar de carona de carro!”.

É que isso é racional, muitos fiapos humanos podendo usar a mesma maquina poluidora, é melhor que só um arrogante – estou podendo, poluo mesmo, vai encarar? Mas o marido de Junginiana comprou-lhe o carro roxo mais bonito já comercializado naquela cidade, e meu poder de convencimento foi insuficiente. Chamou-me lá fora para mostrar o bichinho, que era lindo de fato, e tinha o maior cheiro bom de novo.

Já que era assim, voltei a dirigir também. Ela perguntou se eu queria dar aulas de pintura e desenho aos pacientes da saúde mental do centro psico-social. Já se haviam passado anos de terapia e eu tinha que fazer espaço em minha agenda de trabalho para não faltar às sessões. Nem lembrava do tempo em que estivera na cela vigiada pelo guarda desonesto. Já havia vencido um concurso de artes e mantinha um atelier em sociedade com uma porcelanista.

Abracei o projeto de aulas para os doentes do centro psico-social, conseguindo doação de material com empresários e convidava músicos para tocar durante as aulas. Aquelas aulas passaram a ser o centro da minha vida. Exortava-os a soltarem a imaginação e nisso eles eram mais craques que os alunos que eu tinha no atelier. Dava-me medo. Todos Picassos. Um que outro que não dava para os pincéis, mas ai... dava para a música, entusiasmados começaram a levar seus instrumentos, e nós trabalhávamos bonito.

Desarmei o esquema das enfermeiras, que quando gostavam de algum trabalho que eles faziam e deixavam exposto, simplesmente botavam embaixo do braço e levavam embora. O autor passava uma semana esperando para retomar o trabalho, chegava lá e havia desaparecido. Quando isso acontecia, eu convidava-os para sairmos à procura do trabalho por todo o centro, eles procuram embaixo das mesas, atrás das cadeiras, lá fora, em volta das árvores e assim, o que eles faziam, deixou de “sumir”.

A turma que queria fazer artes aumentou. Eu ia aos bairros onde eles se reuniam em salões paroquiais para jogar cartas como terapia, e os convidava. Alguns vinham e ficavam, e o grupo ficou tão grande que eu até suava ao ver o movimento.

Um dia, a primeira dama (psicóloga) veio visitar a aula. No outro veio o coordenador chefe do centro psico-social, e era o doutor Freudiano.

Passou mais um tempo e ele me chamou para um particular. Estava desativando temporariamente a terapia ocupacional. Quando inaugurassem o novo prédio do Centro Psico Social, que estaria mais aparelhado, retomaríamos o trabalho.

 Não fui convidada nem para a inauguração, mas disseram que o trabalho que fiz com os pacientes estava muito bonito exposto.

Alguns dos pacientes passaram a me procurar em meu atelier e eu sabia que não podia atendê-los fora de um programa. Sempre tive o maior cuidado em nem ao menos aconselhar nenhum à nada, eu sabia que não era Nise da Silveira, embora a admirasse demais, talvez eu estivesse mais para Bispo do Rosário.

Um rapaz que desenhava muito bem, não desistiu e então o admiti nas aulas do atelier, levava o trabalho muito a sério, só que começou a querer me gratificar com faixas preta, que ele ganhava mais do que conseguia consumir e ficar acordado.

Ele me provocava, queria que eu descobrisse qual era a pergunta que o levaria a se libertar, mas era ele quem teria que formula-la para funcionar.

Diante do impasse, ficou agressivo e desapareceu.

Leio e leio e não encontro referências clínicas para diagnosticar o doutor Freudiano, que continuou visitando minhas exposições sem sequer me cumprimentar, que quando me mudei de cidade, ainda assim visitava minhas exposições sem parecer me reconhecer. E deve continuar lá, moendo carne.

 

Sou a Giane – a scanneadora

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