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bruno grossi

Bruno Grossi

Artista – MG

 

 

Bruno Grossi nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. E é dessa terra, dessa gente, que busca suas inspirações. Como aconteceu com muitos mineiros, desde criança se envolveu com a literatura e com a arte.

 

Começou escrevendo, desenhando e lendo tudo que podia. Poemas, contos, quadrinhos. Além disso, produzia fanzines, tocava em várias bandas e divulgava a cultura e a arte. Criou a Revista Nota Independente, com o objetivo de alavancar e incentivar todo tipo de expressão artística.

 

O cinema, a ilustração e a pintura completam as áreas de atuação desse artista interdisciplinar e multimídia. Nas artes visuais, produz vídeos-arte e curtas-metragens experimentais e complexos, premiado em festivais.

 

Na literatura, viaja pelo que há de mais íntimo em seu ser. Caminha pelos sentimentos mais profundos e pela emoção. Navega pelo trágico... Para ele, dentro de cada ser há uma célula depressiva e má, há certo auto-desprezo, que surge da retraída angústia que vive em nosso interior. Isso o inspira e o envolve, fazendo-o escrever o que realmente sente, transformando-o em um “o outro”. Um outro completamente instigante e envolvente.

 

 

Sobre o conto Um dia e um sentimento.

 

 

O conto me lembrou muito os poetas do “Mal do Século” e também um ensaio de Benjamin, onde ele discorre sobre a “negatividade produtivaou a melancolia. Aqui temos um sujeito literário soturno e ultra-romântico. Este último predicado se justifica justamente pela vertente literária que elege como motriz de seu texto: Álvares de Azevedo, Lorde Byron e cia tinham a morte como temática e o suicídio como única opção possível.

 

Nesse sentido, é interessante notar que embora você finalize o texto com um excerto do poema de Rimbaud, na verdade, esse funciona como uma espécie de epígrafe. Isso porque a passagem pode ser entendida como mote de seu conto. Não a temática o aproxima dos ultra-românticos, mas também sua escrita. Trata-se de uma “prosa poéticaou com poesia. A poesia se caracteriza pela profusão de imagens e sentidos, em seu texto, notamos a criação de um campo semântico constituído por essas imagens nos remetem sempre à morte e à negatividade: nebuloso, dia escuro, velho, ranhuras, insípida, calejada, lunática, extinção, choro, vazio, sombra, névoa, silêncio, cego, surdo, impuros, malévolos, dentre tantas outras.  

Aqui, entra Benjamin: o autor diz que a melancolia para muitos escritores torna-se matéria de sua própria escrita. Seria uma escrita construída pelas “ruínas” ao redor do autor, por suas experiências mais dolorosas e dilacerantes. Por isso, é uma negatividade produtiva, por que a partir dessa negatividade, o autor conformaria sua obra.  

 

Esse processo de escrita ou de criação da obra é velho conhecido dos poetas, afinal são eles que tentam dar materialidade àquilo que a priori é da ordem do indizível. Acredito que encontrou há muito seu percurso. Agora, é seguir escrevendo...  

 

A intratextualidade é também um aspecto de seu conto que merece destaque. Quando fazemos referências aos nossos próprios textos criamos um tipo especial de intertextualidade: a intratextualidade. No seu caso, só podia acabar mesmo em lirismo...

Elaine Moraes.

 

 

 

 

 

 

Da consciência à traumatização (Bruno Grossi)

 

Teus olhos despertaram
Ao nebuloso anoitecer
E por um instante
Seu corpo ali não estava
Pensou em Deus, pensou no Diabo
Até se deparar
Com o seu próprio pensamento, seu próprio ser
Ficou assustado, atônito, desfacelado
Não sabia como poderia ser assim...
Tão indeciso, tão atormentado
Por quem?
Não há importância
Pois o tormento o persegue desde sempre


Desistiu então de pensar no quão difícil
Era evitar suas visões e audições
Resolveu se contemplar
Com o que tinham lhe destinado
E então disse:
- Me suicidaram. Suicidaram-me para
um mundo diferente
no qual não se morre
apenas aperfeiçoa-se
a lunática mentalidade

Ao cair em sua própria razão
Percebe que é apenas um simples
Ser que pensa e reflete sobre os
Seus próprios insanos e lógicos
Pensamentos psicotraumáticos
De suma importância
Um ser natural que declara em
Sábias palavras o seu ardor...

“As vezes eu choro
Choro por nada
Choro por tudo
Pareço sentir o sofrimento
O sofrimento do mundo
De uma criança sem estudo
De uma criança intelectual
Pareço sair do corpo
Um corpo ativo
Um corpo parado
A alma do vivo
De um corpo deitado”

 

Cactus  (Bruno Grossi)

 

A sombra me persegue

Sob a névoa

Não consigo me mover

Sou incompreendido

Preso em um muro

Ou em meu próprio pensamento

Meus olhos já não fixam em algum lugar

Como a lua pára pra te olhar

Estes vilipendiados olhos

Doem, choram e imploram

Para que fiquem só

Não consigo me livrar

Do infortúnio calar

Sinto pessoas a me olhar

Como um animal devora

A sua insípida carniça

Creio que irão matar-me

Sinto-me desprotegido, frágil, inútil

Sinto-me sem amor, sem dor e sem desejo

Já não sei o que fazer

Procuro a solidão

Para que minha trágica energia

Não contagie as pessoas

Para que meu olhar

Não cruze com os demais

Assim terei meus próprios sentimentos

Meu próprio coração

Que a cada despertar

Encontra o silêncio

Estou surdo e cego

Estou inválido

Me submeto ao inoportuno desespero

Ao incômodo calar

Viver agora dói

Não mais a quero

 

 

Malevolência (Bruno Grossi)

 

 

Na magnificência da tristeza
Um ardor latente em seu peito
No ressonar da madrugada
Amargura o teu ser

Saudosa malevolência
No arrepender dos olhos
Lacrimejados de rancor
O consome, o maltrata
Não perdoa sequer
Um momento infame
Do teu ardoroso coração

  

O ecoar da noite  (Bruno Grossi)

O ecoar da noite
A destreza do olhar
As mãos cálidas sobre a mesa
e um ladino pensar
O vilipendiado amor
Um varão massacrado
Enveredando ao inconsciente
Pela vontade imprópria
A vela, o fogo
O mórbido calejar
das almas que
não param de chorar

 

 

 

 

BRUNO GROSSI - Belo Horizonte - Minas Gerais

(31) 8884.0913 - caoxadrez@gmail.com