Meiotom - POESIA & PROSA

´´HOMOFOBIA NUNCA MAIS´´

 

´´O amante é um amigo pelo qual se experimenta algo de divino.´´ -André Gide

 

Junho de 69: o homem chegava a Lua, mas estávamos mil anos-luz na luta contra o preconceito ao amor que não ousava ( ainda ) dizer seu nome. Em Nova York, um grupo gay se reunia num bar do Village para chorar a morte de seu ícone: Judy Garland. Diante da pressão policial, começou o primeiro levante anti-homofobia e pelos direitos GLS organizado : a batalha de ´Stonewall´´. Durante 2 dias intelectuais e militantes promoveram verdadeira guerrilha urbana contra a represssão ao legítimo desejo entre iguais. A imprensa comandada pelo ´´New York Times´´ e escritores libertários encamparam a causa e estava começando a virada pró-igualdade de expressão pública e legitimação social da homossexualidade. São Francisco, Londres e até no Brasil debaixo de ditadura, ao lado do feminismo e dos movimentos contra discriminação racial, fechava-se o cerco contra a milenar perseguição moral, psíquica e institucional aos homossexuais. Massacrados pela Inquisição, pela ´´ética´´ vitoriana e  dizimados pelo horror hitlerista , era chegado o tempo do arco-irís brilhar mesmo tingido de sangue na derrocada da hipocrisia.

Quanto auto-flagelo, suicídios e drogadição não foram desfecho de vida encerradas em nome duma pretensa ´naturalidade´ heterossexual e da tradicional  família pela procriação da espécie? No momento em que recrudescem manifestações de neo-nazistas e a criminalização da homofobia como mazela tão abjeta quanto o racismo não é aprovada , é necessário estar atento e persistir o legado de Oscar Wilde ‘a Michel Foucault. Santos, pioneira na linha de frente libertária, desde as batalhas sem trégua contra AIDS e a cruzada anti-manicomial, deve também estar na proa pela união civil de homossexuais e inserir-se localmente na mesma rede global  de resistência aos brados medievais contra a homoafetividade. Quando pateticamente Bento XVI trata a homossexualidade como ´chaga´ e o iraniano Ahminejad desmente o Holocausto que matou 500 mil gays, não é hora de subestimá-los: a intolerância nas ruas ganha aval por essas vozes infelizmente poderosas. 40 anos depois não somos mais perdidos na noite; homofobia mata homens pelas mãos de sombras enrustidas: algozes são ressentidos patológicos. Um homem não poder ser condecorado por matar dezenas no Iraque e penalizado por amar um. Encontro visceral de almas, empatia espiritual conjugada ‘a sensibilíssimo desejo epidérmico: a homoafetividade envolve destino de milhões de vidas que buscam não ´enquadramento´ , mas reconhecimento de prerrogativas que são estupidamente negadas em nome da dogmas num país ´oficialmente´ laico: a ligação amorosa entre adultos é rejeitada enquanto vemos as barbaridades cometidas nos subterrâneos do Vaticano contra inocentes e o tratamento monstruoso dado ‘as mulheres no Islã radical. Por quê confundir a homossexualidade com caricatura, esteriótipos e padrões fixos? Entre pessoas do mesmo sexo existem matizes sutilíssimos além da carnalidade e da promiscuidade. Que amor mais pungente pode ser comparado ao de Verlaine e Rimbaud?

Onde união mais corajosa que a de Elizabeth Bishop e Lota Macedo Soares? Não se trata da apologia duma orientação, nem de apregoar algo tão denso como mera ´opção´: a essência dum ser apaixonado não tem gênero: é comunhão que transcende a superfície genital. O ódio, a crueldade é que são peculiaridades humanas anti-naturais. Os filhos de Sodoma dispensam escárnio:

´ vivem num intraduzível Paraíso: tolerância é pouco,

quanto ‘a homoafetividade exige-se respeito e franqueza:

 o amor não pode sufocar-se sob máscaras.

 

 

[ Flávio Viegas Amoreira

flavioamoreira@uol.com.br ]