| Meiotom - POESIA & PROSA |
´´HOMOFOBIA NUNCA
MAIS´´
´´O amante é um amigo pelo
qual se experimenta algo de divino.´´
-André Gide
Junho de 69: o homem chegava a Lua, mas estávamos mil
anos-luz na luta contra o preconceito ao amor que não
ousava ( ainda ) dizer seu
nome.
Quanto auto-flagelo,
suicídios e drogadição não
foram desfecho de vida encerradas em nome duma pretensa
´naturalidade´ heterossexual
e da tradicional família pela procriação da espécie? No
momento em que recrudescem manifestações de
neo-nazistas e a
criminalização da homofobia como mazela tão abjeta
quanto o racismo não é aprovada , é necessário estar
atento e persistir o legado de Oscar Wilde ‘a Michel
Foucault. Santos, pioneira na linha de frente
libertária, desde as batalhas sem trégua contra AIDS e a
cruzada anti-manicomial, deve também estar na proa pela
união civil de homossexuais e inserir-se localmente na
mesma rede global de
resistência aos brados medievais contra a
homoafetividade. Quando
pateticamente Bento XVI trata a homossexualidade
como ´chaga´
e o iraniano Ahminejad
desmente o Holocausto que matou 500 mil gays, não é hora
de subestimá-los: a intolerância nas ruas ganha aval por
essas vozes infelizmente poderosas. 40 anos depois não
somos mais perdidos na noite; homofobia mata homens
pelas mãos de sombras enrustidas: algozes são
ressentidos patológicos. Um homem não poder ser
condecorado por matar dezenas no Iraque e penalizado por
amar um. Encontro visceral de almas, empatia espiritual
conjugada ‘a sensibilíssimo desejo epidérmico: a
homoafetividade envolve
destino de milhões de vidas que buscam
não
´enquadramento´ , mas reconhecimento de
prerrogativas que são estupidamente negadas em nome da
dogmas num país ´oficialmente´
laico: a ligação amorosa entre adultos é rejeitada
enquanto vemos as barbaridades cometidas nos
subterrâneos do Vaticano contra inocentes e o tratamento
monstruoso dado ‘as mulheres no Islã radical.
Por quê confundir a
homossexualidade com caricatura,
esteriótipos e padrões fixos? Entre pessoas do
mesmo sexo existem matizes sutilíssimos além da
carnalidade e da
promiscuidade. Que amor mais pungente pode ser comparado
ao de Verlaine e Rimbaud?
Onde união mais corajosa que a de Elizabeth Bishop e
Lota Macedo Soares? Não se trata da apologia duma
orientação, nem de apregoar algo tão denso como
mera ´opção´:
a essência dum ser apaixonado não tem gênero: é comunhão
que transcende a superfície genital. O ódio, a crueldade
é que são peculiaridades humanas
anti-naturais. Os filhos de Sodoma dispensam
escárnio:
já´
vivem num intraduzível Paraíso: tolerância é pouco,
quanto
‘a homoafetividade exige-se
respeito e franqueza:
o amor não pode sufocar-se
sob máscaras.
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Flávio Viegas Amoreira