Meiotom - Contos


 

 

iterbio g. aldrighi

VERBO

           PAR

                       TI

                                                                     DO
 

Não fosse gradeada a janela da enfermaria,  eu pularia por ela, agora. Mas a auxiliar de enfermagem mantém olhos pregados em mim.

          Não fosse alguma vontade de viver, eu teria saltado pela janela da enfermaria, se dela pudesse retirar as grades, ontem, mesmo com a auxiliar de enfermagem a ter vidrados olhos em mim.

          Não fosse a Mamãe vir aqui todos os dias, cedinho, eu voarei, amanhã, rumo ao céu - janelas abertas da enfermaria -,cujas grades meus pensamentos removerão, apesar da auxiliar de enfermagem permanecer com olhos-sentinelas.

          Não fosse a psicóloga Mariana chamar-me pelo nome, desejando-me bom-dia às manhãs (e daí, eu mentirosamente sorrir pra auxiliar de enfermagem), a janela da enfermaria não existiria.

          Não fosse o diretor-médico esconder que o hospital não vai acabar e o ministro da saúde a falar na tevê que os doentes mentais devem voltar pra suas casas, eu entraria no salão de beleza três vezes por semana, pediria a Dona Jorgina que me pintasse as unhas de lilás e os cabelos de amarelo.

          Não fosse a médica baixinha brincar comigo no meio das tardes, vestida de palhaço, com um nariz postiço, vermelho como um tomate, a falar coisas alegres, eu teria me espatifado no pátio, só pra ver como as pessoas me olhariam.

          Não fossem os pãezinhos de queijo da cantina aguardarem-me para que os ache gostosos, pondo sorrisos nas mulheres louras que ficam por detrás do balcão a servi-los, eu subiria mais uns andares do prédio que me abriga, e faria tudo para acreditar que estava de braços abertos num trampolim igualzinho aos filmes com a Esther Williams.

          Não fossem as vozes a me martelarem os ouvidos, acusando-me, eu, depois de mergulhar na piscina, voltaria de coração feliz pro trampolim, e só pararia de saltar quando o Sol sumisse na linha do horizonte.

          Não fosse aquele homem de barba branca vir ao hospital uma vez por semana, retirar da maleta preta um gravador e pedir-me que eu fale à vontade pra Rádio Fora do Ar (outra das muitas coisas incompreensíveis para minha mente arruinada), silenciar talvez seria mais confortante.

          Não fosse a parte estragada de meu espírito, deixaria eu a infância aonde ela deveria ter ficado, acalentada na lembrança, ao invés de ficar gritando Mamãe, Mamãe, me tire daqui senão vão me matar com tantos remédios.

          Não fosse o olhar comprido do médico gordo, de boné branco e óculos de aros grossos, como se quisesse me namorar (tamanho é o sorriso dele quando danço vestida de cigana no teatrinho do hospital), eu venceria a maldita força que me faz doente das idéias.

            Não fosse papai ficar sempre escondido a um canto de meu coração e permitir que Mamãe, sempre Mamãe, me levasse ao jardim zoológico para que déssemos bananas aos macacos, eu pediria a ele, com mãos fortes, arrancasse as grades da janela. Todos aqui querem admirar o vôo de uma mulher-pomba.

            Não fosse o cheiro forte de gasolina a me invadir pelas narinas todas as madrugadas, e que a freira Maria José jura vir do mar, eu me debruçaria no peitoril da janela sem grade e transformaria o cheiro forte num doce perfume.

            Não fosse aquela camioneta da prefeitura retirar daqui, todos os dias, três ou quatro doentes como eu, talvez não pensasse em voar como mulher-pomba. Molharia apenas as asas e, então, ficaria recolhida no buraco que está logo abaixo da janela gradeada da enfermaria.

            Não fosse eu, Regina Duarte, trabalhar nas novelas da televisão, pra quê estar misturada com outros malucos, na esperança de que o diretor-médico retire as grades para a Lua entrar cheínha na enfermaria?

            Não fosse chamar-me Francisco Cuoco, gritaria noite e dia aqui nesta refutada galáxia, onde muitas pessoas se passam por normais, mas não aparecem nos televisores como eu.

            Não fosse eu ser Glória Menezes, por que esperar por Mamãe todos os dias? Só pra ela dizer que sou verdadeiramente Francisco Cuoco?

            Não fosse eu, Regina Duarte-Francisco Cuoco-Glória Menezes, jamais seria interessante que me olhassem. E somente ficamos neste lugar, deitados demoradas horas na cama, mirando as paredes da enfermaria com janela gradeada, porque o mundo lá fora é mais doido do que este em que moramos.

            Não fosse o psiquiatra anunciar sempre suas vitórias nos concursos de poesia, eu perderia a vergonha, versaria palavras de liberdade e, depois, distribuiria os poemas entre os demais internados para que eles os recitassemem voz ALTA.

            Não fosse a gente ser despejada daqui no mês do Natal, quem sabe Mamãe traria aquela boneca de vestido dourado, com cabelos crespos, que vi na vitrine de uma loja repleta de brinquedos, há um tempo partido na minha memória.

            Não fosse a moça de pernas longas, com saltos altos, vir apenas trabalhar na tal Rádio (Fora do Ar), e falar que iria pra Espanha num caminho só de ida, eu vestiria as sapatilhas pra num pás de deux causar inveja nela.

            Não fosse, agora, eu estar debruçada na janela da enfermaria, sem as grades carcerárias, e ver entrando pelo portão do hospício (que deram de chamar centro de saúde porque as pessoas não gostam de ouvir a palavra hospício), eu até que poderia acreditar no diretor-médico e no ministro da saúde.

            Fosse eu não insana, poria grades na janela, hoje, pra evitar que eu pule, uma vez que a auxiliar de enfermagem acabou de deixar a enfermaria.

            Fosse eu não desprovida da vontade de viver, teria me jogado pela janela da enfermaria, retiradas as grades pelo diretor-médico, contrariando o ministro da saúde, ontem mesmo, pois a auxiliar de enfermagem bem que se desgosta de tanto olhar pros artistas da televisão.

            Fosse mamãe esquecer de vir todos os dias, sempre cedinho, eu permaneceria deitada nesta cama só pensando como sou bonita quando me chamo de Regina Duarte ou de Glória Menezes ou de Francisco Cuoco. Nós não queremos deixar de trabalhar na Globo.

            Fosse Mariana, a psicóloga, agora de lentes nos olhos, não mais me chamar pelo nome, e desejar-me bom-dia às manhãs,  sinceramente eu sorriria pra auxiliar de enfermagem, que já dorme a sono solto.

            Fosse a médica baixinha não brincar de palhaço, às tardes, eu diria a ela que me tomasse por  uma criança que detesta brinquedos e já esqueceu a boneca de vestido dourado, com cabelos crespos.

            Fossem as louras que ficam por detrás do balcão da cantina cantoras de verdade, eu diria pra elas que seus pãezinhos de queijo se parecem com bolotas de batata.

            Fossem as vozes que me acusam não voltarem à noitinha, por que me esconderia da Esther Williams, se ela gosta de ficar comigo na piscina, olhando o trampolim do qual nós saltamos?

            Fosse a minha vontade de morrer posta diretamente na mão do ministro da saúde, será que ele continuaria falando na tevê que os doentes mentais devem voltar pras suas casas, se casas já não temos mais e os parentes desapareceram? Mamãe sumiu numa nuvem branca, juntamente com o homem de barba branca e sua maleta preta.

            Fosse o psiquiatra-poeta afastar seus olhos sôfregos das pernas longas da moça que aqui só vem pra trabalhar na tal Rádio sem transmissão, aí eu vestiria, além das sapatilhas, o manto de princesa feito de papel marché pela doida mais velha deste lugar.

            Fosse eu de mente estragada por completo, ficaria dançando qual uma cigana somente pros olhos compridos do médico gordo, de boné branco e óculos de aros grossos, enquanto ele sussurra: — Linda! linda! linda!

            Fosse o cheiro forte de gasolina vir mesmo do mar como jura a freira Maria José, eu pediria a Nosso Senhor que derramasse um navio de lavanda no oceano.

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Do livro 'Sombras e Muralhas' (autor: Iterbio Galiano Aldrighi).

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