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CAMPOS DE LAVANDA. MISTÉRIOS DE PROVENCE

 

O fim de tarde era uma tenda de abajures coloridos no céu. Iluminava o espetáculo balneário daquele lugar. Estacas de naturezas mortas surgem quase venezianamente nos diferentes horizontes numa perspectiva linear, aérea. Eu estava sozinho sem meus dois camaradas Vincent e Stéphane. A baía dos despedaçados aos pés da Notre Dame de la Garde em Marselha.

Escritor é aquele que escreve sob uma centelha, e acha que resta alguma redenção naquilo que escreve. Eu guardava em mim a imagem hesitante de Sainte-Victoire, de Cézanne. Terra prometida de consagração. Nos planaltos de calcários em direção à planície de Durance, levemente intocável pela banda do norte pela bacia do Arc, entre as cores vermelho franco e branco argiloso, o massivo calcário se erigia em mim. Ela estava em mim como forma emocionada de uma foto de avião tirada verticalmente pela máquina fotográfica do meu olho. Subia aos céus feito um altar. Sensações cadastrais de pintura. O quadro não era para mim uma imagem exatamente... era um objeto com seu peso de matéria com sua fermetude com sua estrutura particularmente sensível.

Por uma magia inquestionável – Cézanne vibrava em mim com seu azul fantástico e encantatório e com a presença indissolúvel do sol... irradiando com bondade os elementos constitutivos daquela paisagem. O mar me levou para longe e, agora, se quero voltar, o transporte fica difícil.

Fiquei mudo tentando voltar constantemente ao motivo do quadro, desejando me aproximar da realidade através do silêncio - - - - - - - O olho escuta. Há um diálogo mudo nesta solidão e, de qualquer forma, meu espírito é penetrado lentamente pela matéria-cor... em aparência inerte... que meu olhar retém. Pincelada após pincelada, ele cria, recria, anima uma Provence de Marcel Pagnol em mim. Poesia de cassis, de pastis. O tempo e a reflexão modificam pouco a pouco a visão e, enfim, a compreensão nos vem. Escrevia uma montanha /\/\/\ de rabiscos rascunhos. A paisagem era animada no sentido próprio do termo, pois ela me emprestava sentimentos. Sua magnífica riqueza de coloração anima a natureza.

Neste meio tempo, o quadro me levou a escrever e me fez ascender a uma natureza imponente, a conquistar a cidade e o campo por meio de suas cores absolutas e magistrais. Campos de lavanda. Mistérios de Provence. O quadro me comunica o transe que anima minha escritura; o sentimento que o habita representa objetivamente a realidade da natureza permanecendo fiel às sensações flutuantes. Metamorfoseava-se em uma epopéia sublime. Neste afrontamento / nesta intimidade tão substancial e tão permanente, eu namorava a montanha. Quase como se fosse o próprio corpo, riso, ela compartilhava do lugar em que eu posso ser quem realmente sou. Do outro lado, les Brésils.

Escrever é o duplo de viver. Então eu escrevia essa montanha. De certa forma – a escritura é catástrofe salut. Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, a nós falou-nos nestes últimos dias a Arte.

O fim de tarde tem uma tenda de abajures coloridos no céu... eu estava na praia do Mont-Rose. O sol era o mesmo sol de Cézanne. Ele brilhava para mim, sob as calanques de Marselha. O Mediterrâneo me perdia de repente me affolava me afogava na calmaria do Mistral. Uma imensa pista de coquelicots de Van Gogh invadia minha vista – misturada ao colorido da sensação táctil dos viajantes num campo durante um dia de verão bem quente. Vibrantes cores e luzes.

O Mediterrâneo me levava em direção às duas meninas que estavam um pouco distante de mim, próximas ao mar, no rochedo. O duplo era construído por esse mar e duplicado na tela onde se configurava uma imagem mental para mim. O duplo criava enigmas de espelhamento, ecos visuais sem fim. Não havia maré. O Mediterrâneo é desses mares complicadamente enjoados. As meninas impressionavam meus sentidos e eu as interpretava cada uma em seu lugar, embora juntas.

As meninas: meu imaginário que se constituía pelo conjunto das representações que exorbitam do limite colocado pela experiência e pelo encadeamento dedutivo. A paisagem se refletia numa água tranqüila; e testando-me, o olhar captava essa imagem fantástica e me pedia decifração.

Elas me impressionavam como uma luz votiva de lamparina de azeite. Tão encantadora, essa paisagem tentava formar, tanto quanto possível, imagens de cenas descritas nos quadros que eu já vira antes, com a maior vivacidade, e me fazia vivê-las pela primeira vez. Um ar cada vez mais puro, que suspirava ao coração prazeres e alegrias, capazes de expulsarem toda a tristeza, exceto meu desespero. Eu as observava e o gozo – que consiste em adivinhar pouco a pouco o objeto de nossas paixões – supria as duas garotas e nomeava apenas um único objeto. Elas eram os coquelicots.

Eu evocava as duas; a imagem (fugidia, vaga, espiritual) que eu via era um uso perfeito de mistérios: ela escolhia o objeto para mim, e desprendia dele um estado de alma mediante uma série de decifrações. Suas asas odoríferas espalham perfumes naturais. Doces brisas. O velho mar sorri e, se esses perfumes acolhiam-me, era porque queriam envenenar-me.

A água, abstração. Confundia as regras do jogo: falésias e nenúfares. Vistas das janelas do meu imaginário, essas meninas-flores, à sombra, eram a dinâmica organizadora, potência dinâmica, que deformam as cópias fornecidas por minha percepção. De longe, seus vestidos claros se confundiam com as velas das embarcações que iam e vinham do Vieux Port, feito anjos que entravam e saíam do céu como numa tela de... De perto, seus corpos transbordavam da água e extravasavam toda possibilidade de se desfrutar dos sentidos e da imaginação. Elas formavam juntas um império da visão, um vício da ocularidade.

O próprio sono não passa do fluxo do mar visível, universal, e o despertar é o começo do seu refluxo. Há um mar para cada homem que mergulhar em suas águas. O mar toma o corpo. Janelas do imaginário das águas: imaginação criadora; entrega ao devaneio e à reflexão. Janelas abrem-se para os banhos (da escritura). Faço parte da espuma. Sou matéria etérea disforme desta ordem que desgoverna o mundo. Quero uma pergunta para poder compreender / para querer compreender o resto que me resta e o que me ajuda a restar a saber de mim. Sou parte de mim que não sabe. Parte Incomestível. Incomensurável.

Autor: Jediel GONÇALVES

Jediel Gonçalves é formado em Letras Modernas pela Universidade de São Paulo; mestre em Literatura Francesa pela Université de Provence Aix-Marseille I, é membro do Laboratório de Estudos Intersemióticos; Pesquisador em literatura francesa dos séculos XIX e XX; crítico literário; pesquisador das relações e implicações/traduções das artes plásticas no universo da criação literária. Atualmente realiza um estudo intersemiótico sobre a recepção de obras plásticas na obra literária do escritor francês Marcel Proust.

Blog: http://litterartmobilis.blogspot.com  E-mail: prof_jediel@yahoo.fr