Meiotom - Contos


 

DESFAZENDO-SE

NESTOR LAMPROS

 

DESFAZENDO – SE

 Tive que me desfazer do aparelho de som, depois  minha televisão. A seguir desfiz-me das panelas, e das roupas mais caras. Parece que tudo compreende que devo me desfazer dos perfumes de minha mulher, da bicicletinha de minha filha. Desfiz – me também da geladeira, do fogão de casa, dos chuveiros, das toalhas, que minha mulher bordara, do sabão, das roupas sujas e usadas... desfiz – me dos sofás, das camas, dos retratos familiares, mesmo sem saber a quem serviriam... garfos, facas, aparelhos da cozinha. Dos dois cães e um peixinho( eu nunca gostei deles...).

Nunca satisfeito desfiz – me de minha mulher- me rendeu um preço considerável... Minha filha? Desfiz – me dela na noite em que aluguei um carro para levar o que sobrou de casa. Enfim, desfiz – me de tudo quanto pude e depois quando não sobrou nada, além de uma casa vazia, desfiz – me de mim mesmo. Isto por conta da cocaína, que me roubou tudo, e  a vida veio me pedir algo além para me desatar. 

Minha cova se fez rasa e morri sem mesmo ter alguém para chorar. Levaram minhas lágrimas nos olhos dos outros. Só uma observação e quem a fez foi o demônio. Ele ali todo de  negro ao  lado do meu esquife:

“Era um bom cliente,  pena que vai se desfazer...”

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