e-Crônica
#60 - Seis Marias - Parte I
Quando
eu era adolescente e saía com meus amigos, sempre nos deparávamos
com um problema: ninguém tinha carro.
Na
hora da turma sair no sábado à noite era aquela dificuldade:
horário certo para ir e voltar. Não poderia ser um lugar longe
de estação de metrô ou do itinerário de algum ônibus
conhecido. Tudo isto sob o risco de ficar na rua, sem ter como
voltar para casa.
Até
aí, tudo bem. Quase todo mundo passa por isso alguma vez na
vida.
O
problema é quando você deseja sair com a namorada, ou pior
ainda, com a candidata a namorada.
Certo
dia descobrimos que um dos membros da turma havia sido
dispensado por uma pretendida em favor de outro sujeito por um
motivo muito simples: o fulano tinha carro.
Hoje
eu dou total razão à mocinha, afinal conforto é um item
importante em um programa de sábado à noite, mas na época,
movidos por um sentimento de camaradagem com nosso colega
preterido e a mais pura e verde inveja lançamos um rótulo
sobre a pretendida exigente: “Maria Gasolina”.
Com
o tempo descobri que inventaram outras especializações do
termo: temos a Maria Chuteira, que adora paquerar jogadores de
futebol e depois processá-los para que paguem a pensão do
filho. Temos a Maria Tatame, que fica rondando as academias de
artes marciais em busca de um lutador bonitão ou de um boletim
de ocorrência.
Estas
denominações, apesar de terem seus méritos, são um tanto inúteis.
A maioria de nós seres humanos do sexo masculino não é
composta por jogadores de futebol nem por lutadores e
conseguimos finalmente comprar um carro financiado. Como podemos
identificar as patologias femininas que se ocultam por traz de
perfumes importados e terninhos? Que problemas espreitam por
baixo de sorrisos sedutores e maquiagem? Quantas Marias existem
por aí, espreitando a nós, pobres homens indefesos?
Para
ajudar meus colegas do sexo masculino a cruzarem com segurança
a selva do comportamento feminino, relacionei abaixo (e nas próximas
três crônicas) seis dos tipos mais comuns de disfunções do
comportamento das fêmeas do gênero humano.
Todas
estas observações farão parte de um relatório que será
apresentado em janeiro próximo em Frankfurt, durante o
congresso de estudo do comportamento “Alle Frauen sind verrückt”
(Todas as mulheres são doidas).
Ah,
se não vou publicar um compêndio com as disfunções
masculinas? Bem, as mulheres sempre dizem que homem é tudo
igual, então acho que será perda de tempo...
1-
Maria Desiludida
A
Maria Desiludida é uma tristeza só. Ela vive para baixo, não
sai nos finais de semana, não vai a happy hour nem nada disso.
Só
de chegar perto da Maria Desiludida dá vontade de tomar Lexotan.
Se
você conseguir chegar perto o bastante para conseguir conversar
com ela, talvez ela te conte a triste história de sua vida, com
uma capacidade única de encaixar um soluço entre cada sílaba
da frase: Eu ti-ve uma de-si-lu-são amo-ro-sa.
E
que história triste é esta da Maria Desiludida: um amor não
correspondido, um namorado que abandonou, um noivo que rompeu o
noivado ou coisa parecida.
Dá
dó, realmente.
Mas
e daí? Em que difere o que ocorreu com a Maria Desiludida
do que ocorre com dezenas de outras pessoas todos os dias?
A
diferença é o fervor com que a Maria Desiludida se agarra a
estes episódios. Ela precisa da tragédia como outros precisam
de ópio ou cafeína.
Na
falta de uma desilusão à mão, pode acreditar que a Maria
Desiludida irá criar uma.
Um
comportamento típico será enfiar na cabeça que está
apaixonada pelo único homem da empresa que não dá bola para
ela. Ou por aquele cara que é tão problemático, mas tão
problemático que até um frade franciscano com catarata pode
olhar para o casal e saber que não tem o menor futuro.
E
depois que a Maria quebrar a cara, pode ter certeza que ela irá
correndo contar para as amigas como está sofrendo com isso.
Por
que ela faz isso?
Acredito
que nem se perguntarmos direto para a Maria Desiludida ela saiba
responder, mas tenho duas teorias: a) para que os outros sintam
pena dela e b) para se proteger.
Muitas
pessoas gostam de se sentir objeto da compaixão alheia. É um
truque barato para conseguir atenção, mas dura pouco. Ninguém
gosta de gente chorona. E com o tempo aprendemos também que
isso não enche barriga nem paga as contas, portanto ficar se
fazendo de coitadinho não leva a lugar algum.
Já
a segunda teoria é mais complicada. A Maria Desiludida tem medo
de se relacionar, por algum motivo qualquer. Para que isto não
aconteça, ela monta toda a história do relacionamento problemático
ou não correspondido para que possa fazer a cena do “Eu ti-ve
uma de-si-lu-são amo-ro-sa”. E pode até acrescentar um
"Eu não que-ro so-frer de no-vo" para arrematar.
E assim ter uma desculpa para não se relacionar de verdade.
Uma
das coisas mais fáceis do mundo é inventar desculpas, mas um
dia percebemos que elas não resolvem nossos problemas.
Recomendações?
Se você quiser ter um relacionamento sadio e ao abordar uma
mulher ela começar a desfiar um rosário de sofrimentos, saia
de fininho. Se depois da experiência você sentir uma vontade
doida de tomar um anti-depressivo, não o faça, coma chocolate
ou tome uma cerveja (uma Bock, se possível).
2-
Maria Problema
A
Maria Problema tem uma certa similaridade com a Maria
Desiludida.
A
diferença é que ao invés de usar os problemas passados para
se torturar, ela os usa para torturar você.
Funciona
mais ou menos assim:
1-
Ocorre um problema qualquer, da gravidade que for.
2-
Você e a Maria Problema conversam sobre o ocorrido.
3-
Você considera o problema resolvido.
4-
Vocês retomam a vida normal.
5-
Em um instante de tempo aleatório entre o passo quatro e o
final dos tempos a Maria Problema reativa o problema original em
sua mente.
6-
A Maria Problema fica: a) triste, b) emburrada, c) irritada, d)
pensativa ou e) todas as anteriores.
7-
Você cai na asneira de perguntar o que a está incomodando.
8-
Ela relembra o problema ocorrido anteriormente, entre a) lágrima,
b) gritos, c) grunhidos ou d) todas as anteriores.
9-
Volte para o passo dois e repita todo o processo.
Com
a Maria Problema não existe esta coisa de problema resolvido,
nem de seguir em frente. Qualquer pisada de bola, esquecimento
ou qualquer bobagem que você faça, tenha feito ou tenha a
chance de fazer será para sempre.
Em
um recanto de sua mente ela mantém uma coleção dos problemas
do casal, devidamente identificados e ordenados em ordem cronológica.
Ela percorre a sua galeria mental de tempos em tempos, da mesma
forma que outros colecionadores contemplam seus selos ou
canetas, polindo e espanando o pó.
A
verdade é que existem apenas duas formas de se lidar com um
problema em um casal: ou você esquece o ocorrido e coloca uma
pedra em cima do assunto ou os dois conversam e chegam a algum
tipo de consenso.
A
questão do consenso é complexa. A maioria das pessoas acredita
que consenso é quando todo mundo decide fazer as coisas do meu
jeito, que é o certo. No mundo real, fora do jardim da infância,
nem sempre isso é possível. É necessário que cada um ceda um
pouco, aceite um pouco e aprenda um pouco para que todos possam
caminhar. Ou acontece o que aconteceu na Iugoslávia.
Recomendações?
Infelizmente esta é difícil de identificar no primeiro
momento. Fazer um teste pode ser perigoso, mas problemas
acontecerão cedo ou tarde. Alguém falta em um compromisso,
esquece uma data, envia um e-mail de corrente, somos todos
humanos e falhos. Quando isto ocorrer, observe a reação de sua
candidata a cara metade. Se após algumas semanas sem tocar no
assunto de repente o fantasma dos natais passados ressurgir sem
aviso, você tem um problema, ou melhor, uma Maria Problema.
Continua na próxima
semana...
Renato
M Lellis
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